Covid-19 | Provedores das Misericórdias de Abrantes e Sardoal defendem testes em utentes e trabalhadores

Em todo o País, por causa da pandemia da covid-19, Misericórdias, Estruturas Residenciais para Idosos (ERPI), e Centros de Dia seguem diferentes linhas de ação. No início da epidemia em Portugal, a União das Misericórdias Portuguesas (UMP) enviou para as 388 Misericórdias do País um modelo para plano de contingência de forma a serem adotadas as medidas necessárias para contenção da infeção pelo novo coronavírus. Entretanto, são vários os focos contabilizados em estruturas de acolhimento de idosos. Como decorre no Médio Tejo? O nosso jornal falou com os provedores das Misericórdias de Abrantes e Sardoal onde, para já, não há infetados. As preocupações prendem-se com o bem estar dos utentes e com os custos acrescidos resultantes da compra de Equipamentos de Proteção Individual.

PUB

De acordo com dados da UMP, as 388 misericórdias espalhadas pelo País têm cerca de 45 mil trabalhadores diretos, 165 mil pessoas apoiadas por dia e segundo dados de 2013 existem 500 lares para idosos, mais de 450 serviços de apoio domiciliário, mais de 360 centros de dia e mais de 70 equipamentos para crianças e jovens em risco.

Morrem em média seis idosos institucionalizados por dia desde que foi registada a primeira morte por covid-19 em Portugal, há mais de um mês, noticiava recentemente o Jornal de Notícias. É sabido que a idade avançada é um dos fatores de risco para um infetado com o novo coronavírus (SARS-CoV-2) e uma elevada percentagem das vítimas mortais registadas em Portugal residiam em lares, estruturas de acolhimento de idosos que se têm queixado da falta de equipamentos.

PUB

Alberto Margarido lembra que no Médio Tejo à semelhança do que se passa no resto do País, as pessoas institucionalizadas têm uma idade média superior a 80 anos, em alguns lares atinge mesmo os 90 anos. “São pessoas com muitas debilidades e as mais expostas não só pela idade em si mas pelas patologias”, refere o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes. E critica as notícias que surgem na comunicação social apontando as Misericórdias como locais com os maiores índices de mortalidade no contexto da covid-19.

“Dá a sensação que são os responsáveis que não cuidam dos utentes. Mas as pessoas sabem que as Misericórdias têm 550 lares em Portugal? E as outras IPSS? Há cerca de 1500 lares em Portugal, obviamente que é nesses locais que estão confinadas as pessoas mais vulneráveis a esta doença e é natural que aí tenham de morrer”, observa.

O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, António Alberto Margarido. Foto: mediotejo.net

Quanto ao Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s) “só na semana passada tivemos algum apoio da Segurança Social. A Câmara Municipal – paulatinamente, com muito pouca coisa – tem ajudado, também com as desinfeções no nosso pátio, nas traseiras da instituição. Agora as EPI’s – máscaras, viseiras, etc – são em número suficiente o que aliviou um bocadinho esta preocupação diária”, notou.

Até chegar o “apoio”, a instituição tem trabalhado com EPI’s “compradas a preço de ouro”, criticou. “Comprámos alguns equipamentos a preços 4 e 5 vezes superiores ao normal. Até o próprio desinfetante que utilizamos diariamente para passar nas mãos está três vezes mais caro, como o álcool”, diz.

A Santa casa de Misericórdia de Abrantes seguiu “desde o primeiro dia” as orientações da Direção Geral da Saúde e adotou um plano de contingência no contexto da pandemia da covid-19. “As únicas pessoas que entram na instituição são os funcionários. De resto, os utentes só saem se tiverem necessidade de ir a uma consulta ao hospital ou qualquer outra situação grave”, explicou o provedor de uma instituição com utentes cuja média de idade é 87 anos.

Alberto Margarido caracteriza o atual contexto de “muito stress”. Conta o caso de uma utente que se deslocou ao hospital e “esteve em quarentena. Houve cuidados da parte de quem tratou dessa pessoa, inclusive com roupa apropriada. Felizmente a situação já passou, não acusou infeção e voltou a ocupar o seu quarto”.

A Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, que antes da epidemia trabalhava com três turnos, passou a trabalhar com dois “para haver a menor movimentação possível”. O serviço faz-se agora com “12 horas de trabalho seguidas durante quatro dias, e ao fim de 10 horas as pessoas mostram-se muito cansadas”. Só graças “à boa vontade, à persistência e a um voluntarismo fantástico de todos” a instituição tem conseguido evitar a doença covid-19.

A Estrutura Residencial para Idosos em Abrantes conta com 105 utentes em dois edifícios, “depois temos o apoio domiciliário que continuamos a fazer com a mesma cadência que fazíamos e temos o Centro de Dia que deixou de estar nas nossas instalações e passámos a assistir as pessoas em casa” entregando inclusivamente as refeições refere, dando conta da “necessidade” de mais recursos humanos para a realização desse trabalho. Dentro das limitações causadas pela pandemia a situação na Misericórdia “tem corrido bem”.

Apesar disso, a covid-19 tem tirado o sono ao provedor. “Pensamos em soluções sanitárias para evitar, para melhorar, temos feito algumas sessões de sensibilização com técnicos e com os funcionários, para usarmos os equipamentos, os uniformes, o que se deve fazer e o que não se deve fazer. Tudo isto mexe connosco” afirma. Alberto Margarido teme que o prolongamento do estado de isolamento causado pela pandemia traga também consequências ao nível da saúde mental, mais um problema com o qual a sociedade terá de lidar.

Para minimizar o problema da carência de recursos humanos, o Governo lançou entretanto uma campanha de voluntariado chamada “Cuida de Todos”, para dar apoio aos idosos que vivem em lares em tempos de pandemia, mas o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes manifesta reservas quanto a essa solução.

“Tivemos de reforçar com os mesmos” trabalhadores nota. Sobre o voluntariado, “isso que se diz nas conferências de imprensa é muito bonito de dizer mas complicado de fazer”. Alberto Margarido pergunta onde estão os voluntários preparados para enfrentar uma situação de pandemia? “Os voluntários para fazerem aqui serviço têm de estar de quarentena. Então vêm voluntários e depois ficam aqui retirados à espera para fazer análises? Não é muito prático”, afirma.

O provedor explica que devido ao encerramento do Jardim de Infância e da Creche da Santa Casa da Misericórdia “alguns desses trabalhadores foram mobilizados para o Lar e têm dado uma grande ajuda”.

Alguns provedores já receberam a comunicação da Segurança Social informando que esta semana começam a ser realizados testes em lares, no distrito de Santarém, para detetar focos de infeção pelo novo coronavírus, mas Alberto Margarido considera não ser tarefa “fácil”.

Defende que, mais que os utentes, os trabalhadores da instituição deveriam submeter-se aos testes de despistagem. “Quem pode transmitir a doença são os funcionários porque vão dormir a casa todos os dias. Entram às 08h00 e saem às 20h00 e podem levar e trazer” o vírus.

O provedor Anacleto Batista é também deputado municipal em Sardoal. Créditos. mediotejo.net

As Misericórdias não são unidades de saúde, diz provedor de Sardoal

Também para o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal, Anacleto Batista, “as preocupações têm sido muitas”, embora não se materializem, para já, em problemas porque não se registam doentes de covid-19 “nem entre funcionários nem entre utentes” que terão uma média de idade a rondar os 88 anos, indica.

A Santa Casa da Misericórdia de Sardoal conta atualmente com cerca de 60 utentes permanentes. A instituição oferece ainda apoio domiciliário no âmbito do Centro de Dia. “Os utentes estão em casa e levamos-lhes as refeições” revela.

No dia 13 de março a instituição suspendeu as visitas aos utentes, depois passou de suspensão a proibição total e “está a ser feito um acompanhamento diário por parte da enfermagem e clínico da instituição. As funcionárias todos os dias quando chegam à instituição fazem a medição de temperatura, para controlo mínimo”, adiantou ao mediotejo.net o provedor Anacleto Batista.

Os trabalhadores efetuam o seu serviço por turnos. “Na ERPI tínhamos três turnos e continuam a trabalhar da mesma forma. Temos aquelas baixas por assistência à família, o serviço desenvolve-se normalmente mas sempre com o ‘credo’ na boca obviamente”, diz.

A instituição, que tem contado com o apoio do Município e da Proteção Civil, adquiriu “alguns EPI’s, designadamente máscaras, batas, luvas etc. A EDP ofereceu-nos um equipamento de proteção total” para juntar a um segundo na instituição, eventualmente a serem usados pelo médico e pela enfermeira, o tipo de equipamento que merecia, segundo o provedor, um “maior” número na distribuição.

Neste momento não acusa falta de material. Da parte do Governo gostaria de um diferente entendimento. “Deveriam falar menos nas Misericórdias e falar mais nas necessidades imperiosas das Misericórdias, designadamente na assistência monetária. É o que nos faz falta para termos os meios” considera criticando as notícias que colocam as Misericórdias “na boca do mundo” pelos piores motivos. “Parece que não morre ninguém a não ser nos lares quando se calhar é onde morre menos gente”, desabafa.

Anacleto Batista que também tem estado em isolamento por ser ele próprio doente de risco, diz não entender, uma vez reconhecido quer pela ministra da Saúde quer pela diretora geral da Saúde que “as Misericórdias são o maior foco” a razão de não terem sido “as primeiras instituições” com testes de despistagem à infeção de SARS-CoV-2.

Defende que em primeiro lugar “o despiste, depois ver as condições e depois se for preciso desinfestações que se façam imediatamente. Não ficarmos à espera que amanhã aconteça uma calamidade e a seguir fazer um cerco sanitário como aconteceu em Ovar”.

O provedor confirma que, durante esta semana, os utentes e os funcionários da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal realizarão testes para a covid-19.

Para Anacleto Batista é um “erro crasso” pensar que as Misericórdias são unidades de saúde. “A senhora ministra da Saúde tem falado que os utentes dos hospitais vêm para as Misericórdias, mas não temos condições para isso. Temos um médico que vem cá pago pela instituição, a enfermeira paga pela instituição mas não somos uma unidade de saúde. O que precisávamos era de mais apoio através até da saúde para esse efeito”.

Insiste que o Governo “deve olhar para as Misericórdias não só nos momentos de aflição mas no momento de prestação de cuidados à população que são contínuos, são permanentes, não deixámos ninguém para trás. Não é com um aumento de 3% nas mensalidades dos utentes que vamos conseguir sobreviver”, assegura.

Neste momento “a grande preocupação” de Anacleto Batista passa pelo “bem estar” dos utentes e dos trabalhadores da instituição. “O que possa ser evitado que seja a tempo e horas. O que passa também pela despistagem”.

Desde o início da pandemia, a Santa Casa da Misericórdia de Sardoal apenas viveu “uma situação” com uma funcionária. “O filho foi sinalizado e enquanto não tivemos o resultado definitivo do teste” a trabalhadora ficou fora da instituição. Tratou-se de “uma medida imediata. Afinal parece que o filho também estava negativo”.

Desde o início da pandemia que o modelo para o plano de contingência surgiu na sequência das orientações resultantes do alerta da Organização Mundial de Saúde sobre o surto de covid-19 e com orientações emitidas pela DGS. A União das Misericórdias Portuguesas assegura que está em estreita e permanente articulação com o Instituto de Segurança Social.

PUB
PUB
Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.
PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).