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Covid-19 | Os lares onde o vírus nunca entrou

O primeiro caso de covid-19 foi registado na região do Médio Tejo a 16 de março. Assinalando 1 ano de pandemia, preparámos uma série especial de artigos que serão publicados num Dossier Especial ao longo desta semana.

Um ano depois da pandemia chegar ao Médio Tejo, num olhar em retrospetiva encontramos um panorama de surtos e mortes que atingiram particularmente os lares, onde o SARS-CoV-2 teve um impacto dramático. Mas a pandemia não atingiu de igual forma todas as instituições e há até lares que não registaram um único caso de covid-19. Fomos conhecer três exemplos: Domus Pacis, em Abrantes, Fundação Francisco Cruz, em Vila Nova da Barquinha, e Centro de Solidariedade Social Padre Filipe Rodrigues, em Torres Novas. 

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No último ano o mundo enfrentou (e continua a enfrentar) uma epidemia causada por um vírus desconhecido. Nessa dificuldade, os idosos têm sido as pessoas mais atingidas pela covid-19, não só pelos riscos de saúde acrescidos mas também pela sua maior vulnerabilidade às consequências mais gravosas da doença. É sabido que, neste último ano, os surtos de covid-19 multiplicaram-se nos lares. Porém, algumas instituições de solidariedade social escaparam à infeção, não registando um único caso positivo de SARS-CoV-2, entre utentes e trabalhadores.

Na Fundação Dr. Francisco Cruz, em Praia do Ribatejo, logo em março de 2020 “deu-se um passo à frente” daquilo que foram as medidas implementadas pelo Governo naquela altura, explica ao mediotejo.net a diretora técnica do lar, Rosário Correia. Relativamente ao encerramento da instituição a visitas, por exemplo: “Não ficámos à espera que a lei saísse. Pedi para fecharmos as visitas 15 dias antes. Depois partimos para o passo da quarentena”, recorda.

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A instituição ficou em quarentena desde março até finais de maio. “Ficávamos a dormir na instituição, fazíamos a nossa vida lá durante sete dias, depois íamos sete dias para casa e entrava outro grupo, por indicação do nosso médico. Dizia que aos cinco dias conseguimos perceber se havia algum sintoma. Nunca aconteceu e o plano correu muito bem apesar de ser cansativo”, nota a diretora técnica.

Pouco antes da chegada do Verão, quando o número de infeções no País entrou em situação de decréscimo, ou seja quando “a pandemia começou a aliviar, iniciámos turnos de 12 horas”. Em setembro já havia muitos lares com visitas “e sabendo que para os idosos também não era fácil”, reinventaram o abraço. “Como temos um espaço maravilhoso, um jardim que facilitava, os idosos podiam vir ao muro e viam as famílias”, conta.

Abraço entre utentes e familiares usando mangas de plástico, na Fundação Dr. Francisco Cruz. Créditos: DR

Quando as medidas governamentais voltaram a permitir que se abrisse os lares a visitas “o medo” prevalecia e Rosário Correia optou pela cautela. “Arranjámos um sistema no jardim em que fizemos o Abraço Virtual. Criamos uma estrutura com manga plástica, através do qual no abraço se sentia o calor, durante 15 dias, mesmo só para matar as saudades, de 1 de setembro a 15 de setembro. Foi muito emotivo e resultou. Era por pouco tempo, mas importante para os idosos e para as família, deu-lhes outro conforto”, vinca.

Logo depois as visitas continuaram ao muro. “É aí que as pessoas se veem. E continuamos a fazer videochamadas, para manter o contacto com as famílias”, explica.

Durante o Inverno, a Fundação adaptou um telheiro nas traseiras do lar, colocando vidraças que permitiam aos utentes ver os familiares estando no interior da instituição e as famílias do lado de fora. “Arranjamos uns walkie-talkies para que ouvissem de um lado e do outro, com uma barreira de vidro. As medidas têm estado a correr bem. Sempre com muito cuidado entre os funcionários e os colaboradores, com todas as medidas de proteção”, assegura.

Entretanto, quando o número de infetados e óbitos começou novamente a subir, o lar da Fundação Dr. Francisco Cruz regressou “aos turnos normais, porque o turno das 12 horas era muito desgastante”, explica. “Com a nossa equipa médica e de enfermagem ainda equacionamos fazer quarentena, mas aqueles três meses já foram difíceis, outra quarentena com inicio em outubro e sem data de fim à vista… agora ainda estaríamos em quarentena”, diz.

Por isso a instituição optou pelos turnos normais mas com mais medidas de proteção e segurança. “Tentamos reduzir as consultas hospitalares dos utentes, contactámos com os médicos e fazemos videochamadas. O nosso médico e a equipa de enfermagem está muito mais presente para que os idosos não tenham de se ausentar da instituição. Quando vão ao hospital ninguém entra na instituição sem teste e, mesmo com teste negativo, vai para o quarto de isolamento e só sai após avaliação médica”.

Utentes e funcionários do lar da Fundação já foram todos vacinados, incluindo com a segunda dose da vacina contra a covid-19, e continuam a ser testados semanalmente, por grupos. “Todas as quintas-feiras um grupo é testado.”

O último ano tem sido “difícil, de sobressalto”, porque mesmo com testagens regulares, designadamente entre os trabalhadores, podem ser assintomáticos. “Estou sempre com o coração nas mãos. É um sossego quando recebo os testes e vêm todos negativos, é mais um dia que se iluminou no meu caminho. Não andamos tranquilos. Nada nos garante que a infeção não aconteça”, nota Rosário Correia.

A diretora técnica diz que o fator sorte também tem contado, tal como “a dedicação, o empenho de todos e uma equipa muito unida”.

“Estou sempre com o coração nas mãos. É um sossego quando recebo os testes e vêm todos negativos, é mais um dia que se iluminou no meu caminho. Não andamos tranquilos. Nada nos garante que a infeção não aconteça” – Rosário Correia

A Fundação Dr. Francisco Cruz conta também com a valência de apoio domiciliário, com 16 utentes, o qual também obrigou a diferentes medidas. “Na alimentação que era dentro das casas dos utentes, começámos por ter descartáveis e deixar à porta. Para a higiene pessoal as funcionárias entram devidamente equipadas e mudam todo o equipamento de um utente para outro. Deixámos de fazer as limpezas da habitação e assegurar apenas os serviços mesmo essenciais”.

Embora todas as funcionários do Apoio Domiciliário já tenham sido vacinadas contra a covid-19, o mesmo não se pode dizer dos utentes, que permanecem por vacinar. “Já demos os dados à Saúde Pública, estamos a aguardar”, explica a diretora.

A Fundação Dr. Francisco Cruz em lar conta com 50 utentes e 30 funcionários, incluindo administrativos e jardineiro.

Trabalhadoras do Centro Social de Zibreira equipadas contra a covid-19. Créditos: DR

Um ano pautado “pela superação, reinvenção e foco”

No Centro de Solidariedade Social Padre Filipe Rodrigues, em Zibreira, “as medidas tomadas passaram em grande parte pelo reforço da aquisição de equipamentos de proteção individual, que se traduziu num enorme esforço financeiro tendo em conta a subida vertiginosa dos preços e rutura de stocks que se verificaram na fase inicial do confinamento”, conta Daniela Canastra, diretora técnica da instituição.

Além disso, à semelhança do que sucedeu noutras instituições, foram reforçadas as medidas de higienização e definidos circuitos para minimizar contactos e permitir uma maior segurança dentro do lar. Adicionalmente foi elaborado um plano de contingência e assegurada formação a todos colaboradores. “Desde cedo procurámos esclarecer dúvidas junto das entidades competentes e mantivemos a proatividade dentro daquilo que eram as nossas capacidades”, explica.

Mas o Centro Social de Zibreira não dispõe “de uma fórmula que garanta a não entrada do vírus na instituição”, diz a diretora. “Se a tivéssemos já a teríamos partilhado com todos os parceiros da rede social”.

No entanto, acredita que “as medidas implementadas, aliadas a uma dedicação enorme por parte dos colaboradores, no rigoroso cumprimento das regras estabelecidas, foram fatores que contribuíram indubitavelmente para que, até ao momento, tenhamos conseguido não registar qualquer caso positivo”, justificou.

Daniela Canastra conta que, numa fase ainda inicial da pandemia, a instituição viu-se confrontada “com um caso (que se viria a confirmar como um falso positivo) que pôs à prova a capacidade de resiliência e espírito de equipa, numa altura em que as respostas e a informação disponíveis eram escassas”.

A técnica destaca “a união demonstrada por todos, a disponibilidade para enfrentarem o possível isolamento no interior da instituição continuando a prestar todos os cuidados aos utentes, a informação permanente que foi sendo transmitida aos familiares e a cooperação que permitiu que, num ambiente muito adverso, com receio perante o desconhecido, conseguissem ter a frieza e o raciocínio de procurar soluções imediatas”.

No lar do Centro Social de Zibreira o último ano tem sido pautado “pela superação, reinvenção e foco. Um ano em que a legislação, alterações da DGS e a segurança dos utentes, foram quase que objetivo único a cumprir”.

Um ano “extremamente cansativo, feito de muitos sacrifícios individuais e coletivos dos colaboradores, utentes e famílias”, reflete. “Não é fácil gerir o medo e a incerteza, a noção de que podemos ser portadores de riscos para os nossos utentes e para as nossas famílias. Conciliar a responsabilidade profissional com a dedicação familiar neste cenário tem sido um desafio tremendo. E a cada isolamento preventivo de um colaborador sentimos o coração a acelerar de ansiedade e um alívio avassalador de cada vez que o perigo nos volta a passar ao lado”, conta.

Para Daniela Canastra, lidar com esta doença “acarreta uma enorme pressão emocional e psicológica” das quais, acredita, “só veremos o verdadeiro impacto quando a pandemia nos permitir descomprimir um pouco”.

Quando o risco de elevado contágio chegou a Torres Novas, recorda que “o cansaço acentuou-se na equipa”. Ainda assim, “a transparência das informações manteve a equipa focada. O ingrediente fulcral foi a dedicação dos profissionais e órgãos sociais que todos os dias asseguram a nossa missão: ‘Somos pessoas a cuidar de pessoas’. E não posso deixar passar esta ocasião sem manifestar o meu mais profundo agradecimento a esta equipa fantástica que me rodeia e que tem feito tudo o que está ao seu alcance para minimizar o impacto da pandemia no dia a dia dos nossos utentes”, reconhece.

Centro de Solidariedade Social Padre Filipe Rodrigues, em Zibreira, Torres Novas. Créditos: DR

O Centro de Solidariedade Social Padre José Filipe Rodrigues é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, constituída em 5 de maio de 1989. Esta Instituição é sedeada na freguesia de Zibreira, concelho de Torres Novas. Vocacionado fundamentalmente para o apoio à população idosa com dificuldades ou ausência de inserção no meio familiar, o Centro promove ainda o apoio a indivíduos cuja carência ou disfunção social justifiquem a sua intervenção. No lar de idosos conta com 43 utentes e 30 funcionários.

A instituição tem Centro de Dia e Apoio Domiciliário mas desde cedo na pandemia a equipa técnica percebeu que não tinha capacidade para manter a segurança em todas as respostas sociais se mantivesse o mesmo funcionamento. “Por isso decidimos transitar os utentes de Centro de Dia para Apoio Domiciliário, assegurando os serviços nas suas habitações”, explica. Para esse efeito, “garantimos uma equipa na prestação de cuidados sem cruzamento ou contacto com o lar”.

Ao nível da higiene habitacional, pessoal e alimentação foram implementadas medidas que permitissem a segurança dos utentes sem que estes ficassem isolados e sem apoio. Assim, “foi necessário reforçar EPIS e garantir o acompanhamento técnico, num processo que esteve em constante alteração de forma a minimizar o impacto do confinamento e que só tem sido possível com o apoio das famílias e com a esperança e resistência dos utentes” acrescenta Daniela Canastra.

A vacinação dos utentes foi “um marco histórico” para instituição. “Chegar até aqui sem um único caso de covid-19 foi a melhor recompensa que podíamos ter. Foi um dia de muita emoção para todos” – Daniela Canastra

Um ano depois “a intranquilidade e o medo são constantes” e “ainda não nos deixaram”, confessa. “Esse receio faz com que permaneçamos sempre alerta, sem ‘baixar a guarda’. Ao constatarmos desde cedo que este vírus veio para ficar, procurámos agir com assertividade, coerência e transmitir segurança e conforto aos utentes e colaboradores. Não podemos deixar que o medo nos impeça de garantir todo o apoio que tem de continuar a ser prestado às pessoas que dele necessitam”.

Antes da pandemia o Centro Social de Zibreira já assegurava videochamadas com familiares que estavam no estrangeiro. Quando as visitas presenciais foram suspensas garantiram que todas as famílias tinham acesso a este contacto. “Inicialmente, ajudou a colmatar a distância e a transmitir tranquilidade. Mais tarde permitimos que os familiares se deslocassem à instituição e realizassem a visita através de uma porta de vidro que garantia o distanciamento mas permitia o contacto visual e auditivo. Perante condições climatéricas mais adversas, proporcionámos a transformação de um espaço que permite visitar os familiares entrando nas instalações, mas com uma estrutura em vidro que inviabiliza o contacto físico”, detalha.

Daniela Canastra assegura que quer os idosos, quer os familiares têm sido muito resilientes. “É óbvio que nada substitui a família e a provação de abraços e saídas que já perdura há um ano… Naturalmente há momentos de profunda tristeza, o que também dificulta em muito o processo de motivação”. Ainda assim, com o acompanhamento técnico “e com as atividades diárias asseguradas pela equipa de reabilitação/animação”, acredita que a instituição tem conseguido “minimizar as consequências deste confinamento”.

Todos os utentes e trabalhadores do lar do Centro de Solidariedade Social Padre Filipe Rodrigues já receberam a vacina contra a covid-19. Daniela Canastra fala na vacinação como “um marco na história da instituição. Chegar até aqui sem um único caso de covid-19 foi a melhor recompensa que podíamos ter. Foi um dia de muita emoção para todos”.

Para a diretora técnica “a vacinação trouxe a sensação de mais uma etapa cumprida – possivelmente uma das mais importantes”. Ainda assim, a tranquilidade plena “teima em chegar porque continuamos num processo de crescimento, adaptação, e com muita cautela relativamente ao que se passa à nossa volta. Estamos empenhados em que a vacina não altere o nosso rigor no cumprimento das nossas rotinas e das medidas adotadas. Estamos certos de que uma nova realidade está para chegar e a resiliência que se impõe vai continuar a fazer parte do nosso dia-a-dia”.

Lar Domus Pacis, em Abrantes. Créditos. DR

No lar Domus Pacis “2020 foi um ano que esmagou as rotinas e os horizontes dos utentes”

Outro lar do Médio Tejo sem casos positivos de covid-19 é o Domus Pacis. O presidente do Centro Social Interparoquial de Abrantes, o padre António Castanheira, explicou ao mediotejo.net que a Estrutura Residencial para Pessoas Idosas “tomou todas as medidas preconizadas pela DGS, nalguns casos antecipando-as por perceção que iriam ser tomadas; estabelecendo e readaptando os Planos de Contingência sempre que necessário; disponibilizando todos os meios financeiros necessários para EPIs e para os meios humanos disponíveis. Houve ocasiões em que a disponibilidade escasseou no mercado e chegámos a temer que os nossos stocks não resistissem ao frenético, mas essencial descarte”.

Relativamente à “fórmula” que evitou o vírus, o padre António Castanheira fala em três níveis: “o primeiro, numa atitude de fé, foi ‘graças a Deus’. Isto é, sem mérito nenhum da nossa parte. Também cremos que as [instituições] com surtos fizeram o seu melhor, mas o vírus entrou por alguma fresta sem que se desse por isso. No caso do lar Domus Pacis, o vírus não deu com as nossas frestas”, diz.

Além disso, “devido a todos os colaboradores que se entregaram denodadamente, com sacrifícios pessoais e familiares, ao tesouro desta valência que são os seus 72 utentes. Aos colaboradores que tiveram em largos períodos cargas horárias de 12h, viram férias suspensas, alteradas e remarcadas, equipas ’em espelho’, rotinas internas desfeitas; internamente aplicaram-se procedimentos cautelares novos”.

O terceiro nível situa-se “na pronta e decidida atuação da equipa técnica, diretora, recursos humanos, enfermagem, médico, gerontóloga, fisioterapeuta em articulação com a direção”. Refere ainda que “em tudo, apesar de algumas incompreensões, sempre houve uma cuidada informação aos familiares dos utentes, a qual permitiu a aplicação das medidas restritivas sem oposição”.

Como escaparam ao vírus? “Numa atitude de fé, direi que foi ‘graças a Deus’. Isto é, sem mérito nenhum da nossa parte. Também cremos que as instituições com surtos fizeram o seu melhor mas o vírus entrou por alguma fresta, sem que se desse por isso” – António Castanheira

Ao longo deste último ano no lar Domus Pacis “o processo decorreu dentro duma normalidade tensa com alguns pontos de maior apreensão marcados pela incerteza do dia de amanhã. No início, informação a esmo das autoridades e da Segurança Social, nem toda coerente. Ainda na primeira fase, a dificuldade em ter acesso a todos os bens e produtos necessários para as higienes e proteções preconizadas”, explica o padre.

Diz ter sido um “ano sofrível para o universo dos colaboradores, mas ano que esmagou as rotinas e os horizontes dos utentes. À maioria dos utentes não há explicação convincente para o ‘aprisionamento’ experimentado. Apesar do acréscimo de esforço nas áreas dos cuidados médicos, da gerontologia e da fisioterapia, é notório um emperramento motor e cognitivo de vários utentes”, reconhece.

O lar de idosos tem uma capacidade para 72 utentes e situa-se na Encosta da Barata. “Tem estado sempre completo. O lar tem no seu quadro 47 funcionários, contudo, neste último ano, houve necessidades de recorrer a trabalhadores a termo certo para suprir baixas médicas e ainda houve recurso a trabalho ao abrigo de programas no âmbito de combate à covid-19 disponibilizado pelo IEFP”, explica o padre António Castanheira.

A instituição tem outras sete valências. No que se refere ao Serviço de Apoio Domiciliário garante terem sido tomadas “todas as medidas estabelecidas no plano de contingência específico”. Não tendo sido tão falado socialmente, mas “este serviço é de alto risco, pois as colaboradoras entram em muitas casas todos os dias e durante meses a fio onde o controlo dos ambientes não está nas mãos da instituição, mas nas mãos dos utentes e dos seus familiares”.

Por isso, “à mínima suspeita de se ter estado com pessoa infetada ou em ambiente infetado, procedeu-se ao isolamento no domicílio, com testes a custas da instituição e procedendo ao cauteloso regresso ao trabalho. Neste serviço apenas uma colaboradora ligada à confeção de alimentos testou positivo (infetada em período de férias). Antes de regressar ao trabalho, porque a instituição assim estabeleceu para o fim de cada período de férias ou período de baixa médica, fez teste e foi identificada. Ao todo, até agora, apenas três colaboradoras estiveram com covid, não sendo nenhuma delas da ERPI”.

As medidas tomadas “levaram à menor necessidade de contacto com os utentes exceto no que era essencial, envolvendo o menor número de colaboradoras possível; casos houve em que os familiares, por estarem disponíveis, tomaram a seu cargo temporariamente a assistência dos seus, aliviando, deste modo, o universo dos serviços da valência. De difícil implementação neste serviço, mas não descurado, foi o uso dos EPIs que, mudados antes de cada domicílio, muitas vezes com condições climatéricas adversas”.

Padre António Castanheira, pároco de S. Vicente e S. João. Foto: CMA

O padre António Castanheira referiu ainda duas das outras valências da instituição “por serem frequentadas por aqueles que pelas circunstâncias da vida se viram acolhidos no CAT, com 12 crianças e jovens “em risco”; na Comunidade Terapêutica (Projeto Homem) que procura fechar a porta das drogas e do alcoolismo e abrir a janela dos sonhos a quatro dezenas jovens e adultos. Também para estes utentes e equipas que os acompanham a realidade covídica foi madrasta”, relata.

Como presidente da instituição, garante que nunca teve medo. “Sempre confiei. Diante das dificuldades sei em Quem confio. Conheço as pessoas que me acompanham na direção. A colegialidade das decisões expõe-nos a menores riscos. Aprecio o trabalho refletido e decidido em equipa. Se o vírus bater à nossa porta e entrar sem autorização, contamos combater com estoicidade o indesejado intruso. Se aplicamos o que humanamente é possível e as orientações dos técnicos, porque temeremos? Os infortúnios também fazem parte da vida pessoal e das instituições. Quem se deixa esmagar pelo imprevisível está sempre mais longe de o combater e de o superar. Em momentos de turbulência, sempre coloquei o olhar nos fracos que vingaram”.

“Os infortúnios também fazem parte da vida pessoal e das instituições. Quem se deixa esmagar pelo imprevisível está sempre mais longe de o combater e de o superar. Em momentos de turbulência, sempre coloquei o olhar nos fracos que vingaram” – António CASTANHEIRA

Entre os idosos, António Castanheira nota “uma grande diversidade de sensibilidades: há utentes que pela sua debilidade cognitiva quase não deram pela realidade pandémica; há utentes para os quais não existe explicação entendível, o mundo deles era o anterior a março de 2020, a realidade da covid é invenção nossa; contudo, a grande maioria está numa tristeza confrangedora, pois, pela sua lucidez e pela sua autonomia motora, sentem-se impedidos, por um mal alheio, de se realizarem nos seus mundos. A vida deste modo é muitas vezes comparada a presidio. Alguns utentes vivem assustados, preocupados com o mal que o vírus pode causar aos seus familiares”, conta.

No meio de tudo isto, “para a grande maioria dos utentes, as visitas presenciais, segundo as regras da DGS, são um balsamo em cada semana. O lugar de atualizarem relacionamentos de viva-voz, vividos por antecipação, porque anunciados, e à posteriori com efeito distendido no tempo. O frequente uso das videochamadas é um remédio efémero, sem grande encanto”, considera.

Quer os utentes quer os funcionários da ERPI já foram vacinados contra a covid-19 com as duas tomas. “Há casos residuais que, por contra-indicação médica, não foram administradas. Caso inverso é das outras valências, mormente o SAD (Serviço de Apoio Domiciliário) e a CT (Comunidade Terapêutica) que ainda não foram vacinados”, dá conta.

Com a chegada da vacina, o padre acredita que “permitirá num futuro próximo o retomar dos turnos de 8h das colaboradoras; e posteriormente desfazer a divisão hermética por pisos e voltar a reunir em convívio nas salas de estar, de convívio e de refeições em simultâneo todos os utentes do lar”.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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