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Covid-19 | O fim da venda ao postigo e o definhar de cafés e pastelarias

Na quarta-feira, 20 de janeiro, entrou em vigor a proibição da venda ao postigo de bebidas e respetiva permanência e consumo de bens à porta ou nas imediações dos estabelecimentos, mesmo que funcionem em take-away. Esta medida acaba com uma brecha nas medidas de confinamento que permitiu que cafés e pastelarias funcionassem em 2020 e obriga ao inevitável encerramento por tempo indeterminado. Abre ainda espaço, diz quem sabe, ao negócio clandestino.

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“Então, está fechado?”. Os clientes de macacão florescente não percebem porque a pastelaria não está aberta e olham para o cimo da rua, onde existe outro café. “Olha, também está fechado?! Que se passa?”

Está tudo fechado. Com a proibição da venda ao postigo (à porta ou por uma janela), os cafés e pastelarias que assim iam servindo café, aproveitando para vender alguns outros bens disponíveis, deixam de ter razões rentáveis para permanecer abertos. Há ainda a possibilidade de vender pão, mas nem sempre compensa.

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Isabel Verdasca, proprietária da pastelaria/padaria Cercal Village, no concelho de Ourém, manteve sempre o negócio familiar aberto em 2020. Durante o confinamento, o café era vendido à porta, respondendo às exigências sanitárias que foram sendo colocadas. O novo ano foi esperado “com energia” e a expetativa que o pior já tivesse passado. Se o primeiro confinamento não foi surpresa, o segundo já apanhou a família desprevenida.

Em 2020 “conseguimos dar a volta”, refere a proprietária, não obstante o ano tenha registado uma quebra no negócio que ainda não conseguiu contabilizar. A pastelaria tinha regressado entretanto às vendas à porta e, segundo Isabel Verdasca, os próprios funcionários apelavam aos clientes que dispersassem quando havia demasiada concentração.

No último fim de semana a polícia apareceu a informar que provavelmente iriam ser proibidas as vendas de café ao postigo, por forma a evitar aglomerações. A empresária considera a medida “desnecessária” e constata que, por exemplo, as tabacarias permanecem abertas, pelo que não compreende a discriminação.

Isabel Verdasca garante que vai manter a porta fechada, mas alerta para o crescimento do negócio clandestino Foto: mediotejo.net

Sem os cafés, constata, “não compensa ter a porta aberta só por causa do pão”. A zona tem muitas pastelarias/padarias e locais de venda de pão, pelo que vai restringir a venda aos domingos de manhã e apenas mediante encomenda.

O café encerrou assim esta quarta-feira por tempo indeterminado. “Se eu tivesse que pagar renda, já nem abria. Como é meu, vou lutar”, admite. Falando com colegas do setor, assim como cabeleireiras e esteticistas que estão na mesma situação, nota que começa a surgir uma tendência para o negócio clandestino. Ou seja, continua-se a trabalhar de porta fechada ou em casa. Isabel Verdasca, garante, não o vai fazer, não obstante sejam muitos os que lhe batem à porta.

A polícia tem circulado mais, admite, mas eventualmente porque se registaram assaltos na aldeia. No domingo mandaram dispersar as pessoas que se concentravam no pequeno parque local.

“Não acredito que sejam só 15 dias, isto vai durar até março”, teme. E constata com frustração o que considera “falta de coerência” nas medidas de confinamento. “Na minha opinião, a fechar fechava-se tudo.”

Queixas de empresários como Isabel Verdasca chegaram à ACISO – Associação Empresarial Ourém Fátima, num momento em que a venda ao postigo deixa de ser alternativa e não se percebe a discriminação entre negócios. “Qualquer limitação nesta altura gera a insatisfação de quem está a tentar sobreviver”, admite a presidente Purificação Reis. A necessidade de medidas restritivas face aos números da pandemia são compreendidas, mas levanta-se a dúvida se efetivamente resultam.

A responsável não tem números quanto ao impacto das novas medidas no setor dos cafés/pastelarias e restauração no concelho que, devido a Fátima, tem uma larga expressão destas áreas de negócio. Sabe no entanto que mesmo o take-away nem sempre tem mostrado ser solução.

Outro problema que estava a ser colocado à ACISO dizia respeito à legislação aplicada aos cafés e restauração sobre as medidas sanitárias, em coisas tão simples como se o café deve ou não vir com uma tampa. A interpretação das forças de segurança nem sempre é a mesma das associações do setor. “A aplicação de multas é mal recebida” neste momento, constata, uma vez que a adaptação tem sido difícil e “há muitas dúvidas e confusão”. A associação tem procurado ser um meio clarificador destas questões. Mas, com a proibição da venda ao postigo, pouco fica por clarificar. Não há outra interpretação possível para a informação que os donos dos pequenos cafés estão a colocar à porta: “Fechado”.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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