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Sábado, Setembro 25, 2021

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Covid-19 | “Não tenho medo do vírus, tenho é saudades de sentir os meus”

O primeiro caso de covid-19 foi registado na região do Médio Tejo a 16 de março. Assinalando 1 ano de pandemia, preparámos uma série especial de artigos que serão publicados num Dossier Especial ao longo desta semana.

Luísa Rosária, de 87 anos, é uma das sobreviventes do surto que atingiu o Centro Social do Pego, e que infetou 87 pessoas e causou 11 mortes. Mal deu pela doença mas todos os dias sente falta das visitas, suspensas há já um ano.

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Otimista, bem disposta, pegacha de gema, Luísa Rosária resistiu ao SARS-CoV-2 durante o surto que atingiu o lar do Centro Social do Pego, no concelho de Abrantes, entre 29 de outubro e 11 de dezembro de 2020. Com 65 utentes e 71 funcionários, a instituição registou 87 pessoas infetadas e 11 óbitos neste período.

Luísa testou positivo para a covid-19 e de imediato foi colocada em confinamento juntamente com outra idosa com quem partilha o quarto. Foi dada como recuperada, superando a doença praticamente sem sintomas, acusando apenas “enjoos” durante dois dias – o que pensou estar relacionado com um antibiótico que tomava para outra maleita. “Nem me doía a cabeça, nem as pernas, nada, passei bem”, diz.

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Sobre o isolamento nos dias de quarentena, não lhe atribui grande importância. “Não me importei muito. Estava todo o dia no quarto com a minha colega, estivemos sempre bem. Quando fizemos o segundo teste já não tínhamos o vírus. Foi uma coisa que passou de leve.”

As suas rotinas praticamente não se alteraram e depressa voltou ao jardim para arrancar as ervas nos alegretes. “Gosto de estar sempre a mexer, a fazer qualquer coisa”, diz.

Reside no Centro Social há um ano, data em que ficou viúva. “Gosto de viver aqui, convivemos todos bem, sempre vamos conversando… faço malha e renda e estando ocupada com alguma coisa o tempo custa muito menos a passar.”

Durante o ano que passou garante que nunca teve medo do vírus, embora tenha ficado preocupada com a saúde de alguns moradores no lar, que “estiveram muito mal”.  Contudo, “ainda hoje não tenho medo da covid. Será o que for!”, afirma.

Os idosos do Pego não têm visitas há um ano, e essa é a parte que mais lhe tem custado. “Falamos pelo telefone, mas não é a mesma coisa que estar a ver as pessoas, é diferente. Tenho muitas saudades de ter visitas, de sentir os meus. Mas sendo a situação assim, temos de tolerar”, refere, conformada. Conta que no Natal passado sentiu particular falta “daqueles que já cá não estão”, como o marido, que morreu em junho, e o filho, que morreu em agosto de 2019.

Natural do Pego, onde cresceu e casou, Luísa Rosária trabalhou no campo e também como empregada doméstica. Teve dois filhos e tem duas netas. Uma permanece em Abrantes e outra vive em Inglaterra. O seu maior desejo é poder voltar a vê-las – não pelo telefone, mas ao vivo, à distância de um abraço.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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