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Terça-feira, Maio 11, 2021

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Covid-19 | Músicos fazem contas à vida e não conseguem ver luz ao fundo do túnel

Para músicos, produtores, técnicos e todos os profissionais ligados à música, a vida está suspensa enquanto durar a pandemia. À angústia da paragem forçada no presente, junta-se a incerteza quanto ao futuro. Alguns vivem no fio da navalha e estão a ser colocados à prova na sua capacidade de sobrevivência. Sem espetáculos nem atuações nada recebem e alguns, que não têm poupanças, estão a passar mal, garantem-nos. O mediotejo.net foi ouvir alguns profissionais do mundo da música na região para tomar o pulso de como estão a viver esta fase difícil das suas vidas.

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“O nosso futuro não pode ser cancelado” é o slogan adotado pelos profissionais desta área da cultura. Mas os números avançados pela APEFE (Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos) revelam uma razia em tudo o que é produção cultural. Pelas contas desta associação, entre 8 de março e 31 de maio, foram cancelados, adiados ou suspensos mais de 24 mil espetáculos.

Os dados, apurados em conjunto com as principais empresas de bilhética nacionais – Ticketline, Blueticket e BOL, dão a conhecer o impacto da covid-19 neste setor. Do total de espetáculos, 7.866 foram cancelados, 15.412 adiados e 1.537 suspensos.

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Fernando Espanhol
Músico e professor na Quadras e Partituras – Escola de Música de Vila Nova da Barquinha

Um vídeo por dia porque “quem não aparece…esquece”.

Devido à atual situação, sendo eu um músico de bares, fiquei naturalmente sem trabalho e consequentemente sem fonte de rendimento pois todas as atuações foram canceladas até agosto o que representa um enorme prejuízo, ou seja, pior ainda, uma enorme incerteza acerca do meu futuro como músico.

Acerca de como sobrevivem os profissionais que nesta altura estão parados sinceramente não sei responder.  Se apenas fizerem da música profissão tal como eu vai ser um grande problema, possivelmente teremos que arranjar outra fonte de rendimento porque neste momento o futuro é completamente incerto e o apoio que o estado disponibiliza para os músicos é quase nulo pois a profissão de músico já por si não é uma grande fonte de rendimento e tendo em conta que o estado irá desbloquear uma pequeníssima percentagem relativamente a uma pequeníssima fonte de rendimento pode se dizer não vamos ganhar sequer para comer.

Acerca das live sessions que os músicos fazem nas redes sociais apoio completamente porque para além de ser uma forma de dizermos ao mundo que existimos, não deixa de ser a nossa forma de expressão e poderá ser também ou vir a ser uma forma de rendimento, quem sabe…ainda não fiz nenhuma live session mas comprometi-me comigo mesmo a gravar e publicar em vídeo a tocar uma música por dia durante esta altura em que estamos em casa de quarentena, o que não deixa de ser para mim um enorme desafio além de me fazer manter ligado à música e ter a cabeça e o tempo ocupados com aquilo que mais gosto de fazer tentando também desta forma chegar às pessoas e não ser esquecido pois como diz o ditado “quem não aparece…esquece”.

Cada vez mais o futuro aponta para este tipo de interação online. Não acredito que tão depressa as coisas voltem à normalidade e penso que tudo vai mudar. As pessoas irão ver uma outra realidade e o dia a dia vai ser completamente diferente, irão ter outros valores e outra forma de estar e de pensar. Apesar de toda esta incerteza espero que tudo mude para melhor! Acerca da escola de música, “idem idem, aspas aspas”, zero alunos.

A escola disponibiliza aulas por videochamada, mas as pessoas ficaram sem poder trabalhar, nem ganhar dinheiro e muito menos com cabeça para pensar em aulas online a pagar com tanta oferta grátis de vídeo, aulas no youtube…

Acredito que as pessoas neste momento pensem em tudo menos em aulas de música. Acredito que tudo isto seja uma fase de mudança e que daqui a um ano e meio a dois anos possamos ter uma base para começar a caminhar.

João Cabral
FrentMaster – Aluguer de equipamentos e produção de espetáculos

Mais de 50 espetáculos cancelados

A atual situação que vivemos afeta a 100% a nossa atividade tendo em conta que é a partir de março e até outubro que temos a totalidade dos nossos trabalhos: festivais, concertos, festas populares, etc.

As consequências desta paragem são várias. É a perda de uma grande parte da nossa faturação, são investimentos que tivemos que fazer em equipamento novo para estar a altura das Tournées das Bandas, que nesta altura não conseguimos pagar os empréstimos bancários que fizemos. As pessoas que trabalham para nós direta e indiretamente, técnicos de som, técnicos de luz, técnicos de montagem que ficam sem nenhuma forma de rendimento, porque toda esta malta trabalha por conta própria a recibos Verdes.

Até ao momento, a nossa empresa registou o cancelamento de 54 espetáculos, incluindo festivais, festas de cidades e algumas semanas académicas. Isto representa uma perda em cerca de 80% do valor da faturação anual.

Alguns profissionais que nesta altura estão parados recorrem às linhas de apoio do Governo, no entanto o que se verifica é que ainda não está nada aprovado a 100% o que torna a situação mais dramática.

Defendemos um apoio a nível do Estado, de financiamentos a fundo perdido para nos aguentarmos com os nossos compromissos durante estes meses de crise.

Acredito que talvez possamos voltar a trabalhar a partir do mês de agosto e recuperar uma pequena parte da nossa faturação, mas esta é uma perda muito grande que vai demorar bastante a recuperar.

O que posso garantir é que a empresa Frentmaster-Audiovisuias irá lutar para conseguir passar esta crise e voltar ainda mais forte.

Nuno Ricky
Músico de Tomar

“Quem vai precisar de solidariedade serão os músicos e artistas”

Como músico esta situação afeta em 100% a minha atividade. O meu sector foi o primeiro a parar com cancelamentos de eventos e concertos e será provavelmente o último a começar depois desta pandemia passar. Todo o investimento que fiz este ano em músicas novas, novos videoclipes, foi tudo em vão, de um momento para o outro.

As consequências são muito graves, isto porque a maior parte dos músicos ou artistas profissionais começam a trabalhar “a sério” a partir de maio até final de setembro. Para mim o verão é o que me costuma garantir o rendimento para todo o ano. Na época de inverno costumo fazer comunidades lá fora ou pequenos showcases, mas isso não chega para pagar as contas. Tem que haver aqui uma grande gestão dos rendimentos.

Eu vou sobrevivendo com poupanças que vou fazendo ao longo do ano, mas estamos a falar de poupanças curtas porque vimos de uma época de inverno com poucas atuações. Limito-me a gastar dinheiro só nos bens essenciais. Mas acredito que haja mesmo muitos músicos e artistas que estejam a passar muito mal neste momento porque as ajudas no nosso ramo não existem.

As consequências desta crise são graves porque paramos numa fase em que eu e muitos artistas em Portugal iríamos começar a trabalhar e devido a cancelamentos de atuações e eventos, o ano avizinha-se muito complicado.

De momento tenho todas as atuações de maio e de junho canceladas, mas acho que não vai ficar por aqui, pois os emails a cancelar atuações está a crescer de semana para semana.

Defendo um apoio por parte do Estado. Nós, músicos profissionais, somos trabalhadores independentes a recibos verdes e acho que a taxa de ajuda que o governo propôs é simplesmente ridícula, deveria ser no mínimo os 66% como um trabalhador por conta de outrem recebe e já deveríamos estar a receber isso, pois as contas não param.

Infelizmente também não existe muita união por parte dos profissionais desta área o que faz com que também não seja fácil todos termos a mesmo opinião, pois se todos rumássemos no mesmo sentido, provavelmente seriamos mais ouvidos pelo governo.

Acredito que este verão será muito complicado para todos nós nesta área. Há muitos concertos desmarcados e mesmo que os festivais ou festas comecem só em agosto, como vamos conseguir sobreviver com um mês ou dois de rendimento? Isto porque, assim que começar o ano letivo em meados de setembro, irá começar a nossa época baixa de novo. As perspetivas este ano não são muito boas, mas espero estar enganado.

Eu não acredito muito na mensagem que anda a correr nas redes sociais de “não desmarcar” mas sim “adiar”. Adiar para o ano que vem para mim é desmarcar este ano, é bonito, mas na realidade não é assim.

Espero para bem de todos que isto passe muito rápido e que a economia volte a crescer devagarinho para todos nós, se todos cumprirmos as regras a risca também voltaremos ao ativo mais rápido. E visto que somos muitas vezes contactados para eventos de solidariedade, não se esqueçam que quando isto tudo passar, quem vai precisar de solidariedade serão mesmo os músicos e artistas, pois nós estamos lá sempre que é preciso, mas também vamos precisar que todos vocês estejam lá para nos ajudar quando pudermos voltar.

Renato Antunes
Músico e responsável pelos grupos À-Part e R&A Music

“Agora há um certo vazio”

Enquanto músico do Grupo À-Part e co-responsável pelos projetos musicais de covers (À-Part e R&A Music), é importante referir que, tendo começado nesta vida da música no ano 2000, sempre tive bem presente, que, por não me sentir um tipo com um talento extraordinário e pela minha educação de tentar ter sempre os pés bem assentes no chão, tentei sempre direcionar a minha vida profissional, para não depender da música para viver, sendo que é sem dúvida um extra importante financeiramente e algo que encaro da forma mais profissional possível e que vivo e penso quase 24h por dia, pois o “bichinho” está sempre cá.

Mas estou sempre ciente de que, se por um motivo ou por outro, esta espécie de “carreira musical” tiver que acabar, tenho a sustentação de uma carreira profissional humilde, mas com alguma estabilidade. Sendo que posso considerar-me um privilegiado por poder aliar as 2 vertentes na minha vida.

Falando pelo Grupo À-Part o espírito é basicamente o mesmo. Os músicos e elementos da equipa técnica não dependem exclusivamente da música, e a nível de logística, investimentos, é tudo feito sem entrar em loucuras e com algum dinheiro que se consiga juntar.

Tenta-se sim, rentabilizar ao máximo aquilo que já temos e ignorar ao máximo se é considerado obsoleto ou desatualizado.

Esta situação afecta talvez, falando por mim e pela banda em geral, a autoestima, o bem estar psicológico, pois andamos nesta vida com muito sacrifício é certo, mas com muito gosto. E faz-nos falta o convívio entre a malta da banda, com o público, amigos, elementos das comissões de festas, a adrenalina do palco. Há toda uma nostalgia e tristeza que fica, pois a música, mais que a parte financeira, representa também um escape e um desafio fantástico para muitos de nós.

O Grupo À-Part, representa uma parte importante das vidas de muitos de nós, elementos da banda, e não falo só dos músicos mas também do pessoal da equipa técnica, e agora há um certo vazio.

Consequências, além das financeiras e do nosso bem estar psicológico, são o facto de perdermos o “balanço” que levávamos, na preparação da época de 2020, é a “ferrugem” que se cria, tanto na nossa musicalidade como também na parte logística.

E na época de 2021 será mais difícil financeiramente preparar novas coisas, tecnicamente falando, a nível de cenário e som. Mas temos que continuar a seguir esta trilha, passo a passo, sem loucuras e endividamento. Fazer o possível com o que se tem.

Esta época de 2020 seria aquela com mais atuações de sempre, tínhamos cerca de 56 espetáculos marcados. Até agora temos mais de 10 cancelamentos. Mas estou ciente de que haverá muitos mais, infelizmente. Sendo que no momento, não é isso o mais importante.

Praticamente todas atuações canceladas ficaram, no entanto, agendadas para 2021.

Defendo que o Estado deve dar sempre a mão a quem “faz pela vida” e está a passar mal. Sei que talvez seja uma perspetiva sonhadora. Mas sinceramente, não sendo um músico profissional, desconheço os melhores meios de apoio. Não sei qual é o enquadramento da maior parte dos músicos profissionais enquanto contribuintes e enquanto beneficiários da segurança social.

Se acredito que até ao verão tudo volte à normalidade? Muito sinceramente penso que este é um ano definitivamente para esquecer. Mas o mais importante é que fiquemos todos bem. Que voltem as festas, mas apenas quando for seguro para todos.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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