Covid-19 | Municípios e Instituições prometem apoiar famílias afetadas pela crise pandémica

Com a proliferação do novo coronavírus, a declaração de Estado de Emergência e renovadas situações de Calamidade, cresce a também chamada “crise pandémica” no que concerne às questões socioeconómicas. As estruturas de apoio social e combate à pobreza municipais ou de associações/IPSS tiveram de se adaptar a esta nova realidade, mantendo o acompanhamento às famílias carenciadas já sinalizadas, mas estando de olho nos novos casos que necessitam de apoio. Na região do Médio Tejo o desemprego aumentou já 28% mas os municípios e instituições de solidariedade social dizem estar prontos a dar a mão a quem precisar de ajuda.

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A economia condicionada e suspensa veio trazer instabilidade à maioria das famílias, muitas vendo os seus rendimentos diminuídos por regimes de lay-off, outras sem trabalho em setores como a construção civil, hotelaria e restauração, pequeno comércio ou oficinas de mecânica. Muitos a contarem poucas dezenas de euros em vendas diminutas num qualquer negócio local, muitos de empresas familiares, que têm tentado sobreviver entre as restrições das vendas ao público. Juntam-se a estes tantos outros trabalhadores que caíram no desemprego e não têm como sustentar a família e fazer face às despesas do quotidiano.

Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública revelou este mês que uma em cada quatro pessoas que ganham menos de 650 euros mensais (por agregado familiar) perderam totalmente o seu rendimento desde que se iniciou a pandemia em Portugal.

Tal como o mediotejo.net noticiou, nos 13 municípios do Médio Tejo verificou-se um aumento de 28% no desemprego, entre janeiro e abril de 2020, números que registaram um agravamento maior nos meses de março e abril devido à pandemia de covid-19.

É nestas situações de carência de ordem social e económica que municípios, instituições de solidariedade social e associações vão concentrando a sua atenção nas mais diversas ações, projetos e medidas de apoio aos mais carenciados. Multiplicam-se também os movimentos da sociedade civil, a nível local, lançando alertas e recolhendo fundos através das redes sociais.

Na Cáritas de Tomar, IPSS assente no voluntariado, a procura por ajuda e apoios fez-se notar assim que a pandemia se instalou

O grande objetivo é “oferecer apoio imediato quanto a bens de primeira necessidade e depois facultar as ferramentas adequadas para se tornarem autónomos. “‘Dar o peixe e ensinar a pescar’ é o que tentamos fazer”, explica ao mediotejo.net Célia Bonet, presidente da direção da Cáritas tomarense.

Esta instituição disponibiliza, além de bens alimentares, vestuário e roupa para casa, móveis e eletrodomésticos, apoio ao estudo, apoio psicológico, apoio na procura de emprego e apoio ao sobre-endividamento.

Com o estalar da pandemia, Célia Bonet refere que, mal se iniciou o isolamento e se encerraram empresas, comércio e serviços, notaram que iriam ter “grandes desafios” pela frente.

“Inicialmente os pedidos subiram de cerca de 480 para mais de 550 casos. Trata-se de pessoas que viviam razoavelmente bem, sem nunca terem recorrido a apoios. Com a crise pandémica a instalar-se, perderam as suas fontes de rendimento de forma abrupta, ficando sem qualquer margem financeira”, contextualiza.

A presidente da Cáritas de Tomar, Célia Bonet: “Estamos a ajudar mais pessoas e temos conseguido manter as quantidades de alimentos que damos aos nossos utentes”. Foto: DR

Por outro lado, outros procuraram ajuda por terem “trabalhos precários sem nenhum vínculo profissional, mas em que os seus rendimentos eram suficientes para sobreviverem sem necessitar de apoios. Assistimos a uma situação de desespero para muitas famílias”, assume a dirigente.

“muitos viviam razoavelmente bem, sem nunca terem recorrido a apoios. Com a crise pandémica a instalar-se, perderam as suas fontes de rendimento de forma abrupta”

Acontece que, apoiando centenas de pessoas em Tomar, a Cáritas viu-se numa situação  ainda delicada quando o seu armazém foi assaltado, a 8 de maio. “Retiraram do armazém da Cáritas 2680 latas de atum, mas recuperamos 784 que estavam abandonadas nas traseiras do armazém. Podemos dar como perdidas 1896 latas de atum, 151 garrafas de azeite e 120 embalagens de creme vegetal. Estes produtos faltarão às famílias carenciadas no próximo mês”, lamenta.

Quando questionada sobre se os assaltos podem estar relacionados com a crise provocada pela pandemia e se há risco de se intensificarem estes furtos, Célia Bonet crê que “os assaltos não foram realizados por pessoas por terem fome, mas sim para venderem os produtos”, pelo que este episódio não deverá estar relacionado com a pandemia “pois estas pessoas recebiam apoios e continuam a receber e não viram alterados os seus rendimentos”, nota.

Traçando um retrato das famílias e utentes apoiados, a Cáritas de Tomar refere que há um antes e um pós-pandemia, agora com diversos escalões de ajuda e diferentes necessidades.

“Antes da pandemia os nossos utentes eram essencialmente famílias mono-parentais com crianças e jovens, idosos com rendimentos muito reduzidos e algumas pessoas com dificuldades cognitivas sem possibilidade de conseguir emprego e, por isso, dependentes de apoio durante toda a sua vida”, começa por dar conta.

Havia ainda “algumas famílias com dificuldades temporárias causadas pelo desemprego por problemas de saúde, por baixa escolaridade, ou por outros motivos”, sendo que estes seriam utentes com “com uma ajuda temporária, trabalhando a auto estima, para incentivo e apoio na procura ativa de trabalho e acabavam por voltar ao mercado de trabalho”.

Atualmente, juntam-se “as famílias que sempre trabalharam mas que devido à pandemia ficaram desempregadas ou com rendimentos reduzidos. Temos agora um vasto leque de pessoas com características muito diferentes e a precisar de ajuda”, assume.

Cáritas de Tomar apoio mais de 550 pessoas atualmente. Traçando um retrato das famílias e utentes apoiados, a Cáritas de Tomar refere que há um antes e pós-pandemia, agora com diversos escalões de ajuda e diferentes necessidades Foto: DR

Quanto aos pedidos de ajuda, a instituição está particularmente atenta a casos de famílias que possam estar a passar dificuldades, mas que por qualquer motivo – seja receio, vergonha ou orgulho –, não procura formas de apoio social.

“Algumas pessoas fazem-nos chegar esses casos, que procuramos logo contactar e apoiar. Entendemos que num país onde muitas pessoas medem o sucesso da nossa vida pelos bens materiais que exibimos, seja difícil reconhecer que precisamos de ajuda financeira, ou seja, admitir o fracasso”, começa por dizer.

Já quanto ao pedido em si, acredita que “ninguém está livre de precisar de ajuda em alguma das fases da sua vida” e é aí que o papel das instituições ganha espaço, “para servir quem necessita”.

Mas deixa o alerta, para a sociedade em geral, pois olhar pelo outro é um ato de cidadania. “É muito importante que todas as pessoas estejam atentas a quem pode precisar de ajuda e não tem coragem de a pedir. Ouvir a família e os amigos e tentar perceber se têm problemas e agir rapidamente, antes que eles se agravem”, sublinha a responsável.

O futuro é incerto, com a reabertura gradual de serviços, comércio, e empresas, seguindo o plano de desconfinamento indicado pelo Governo. O que é certo, é que a economia está a sair abalada desta pandemia, e não se sabe quando se irá voltar a erguer.

“É muito importante que todas as pessoas estejam atentas a quem pode precisar de ajuda e não tem coragem de a pedir. Ouvir a família e os amigos e tentar perceber se têm problemas e agir rapidamente, antes que eles se agravem”

Por isso, as associações e instituições de solidariedade social e os mecanismo de ação social municipais e locais continuarão a desempenhar um papel fundamental para desbloquear situações de desespero e ajudar na procura de soluções, no terreno.

Tal depende “do precioso contributo de todos os voluntários e de todos os parceiros para responder de forma eficaz às necessidades que existem no concelho”.

“Estamos no meio de um problema que poderá prolongar-se no tempo e levar as instituições a situações de rutura. No entanto, sei que os portugueses são muito solidários e não permitirão que ao seu lado existam pessoas sem alimento na mesa. Podemos viver momentos mais difíceis, mas vamos ultrapassá-los se estivermos unidos”, conclui Célia Bonet.

A Cáritas de Tomar conta com o apoio da igreja, de mecenas (empresas e particulares, de onde se destacam os hipermercados do concelho que têm tido uma colaboração importante) que dão apoios em géneros alimentícios ou ajudas financeiras, e ainda com apoio do Banco Alimentar e da Câmara Municipal de Tomar.

A instituição costuma realizar inúmeros eventos, cujas receitas revertem para a Cáritas
para adquirir alimentos, mas que a pandemia adiou ou suspendeu. Fazendo fé na solidariedade e generosidade dos tomarenses, Célia Bonet diz ter “esperança que não será necessário recusar ajuda a ninguém que justifique a sua necessidade”.

Se em Tomar os casos de famílias a precisarem de ajuda aumentaram, e levaram a reforço de acompanhamento no terreno, em Abrantes, a Rede Social não tem tido mãos a medir.

Celeste Simão, vereadora com o pelouro Educação e Ação Social na CM Abrantes. Foto: mediotejo.net

Foi inclusivamente criado um novo programa de apoio alimentar para corresponder às necessidades das famílias. Celeste Simão, vereadora com o pelouro da Ação Social, deu conta na última reunião de Câmara de Abrantes que o executivo municipal “tem intensificado o seu trabalho” na área dos apoios sociais, no contexto da pandemia de covid-19.

A propósito da avaliação das “carências alimentares” na comunidade, Celeste Simão explica que na Rede Social, além das entidades que a integram por força da lei, está representada a Segurança Social, responsável pelo Rendimento Social de Inserção, o Banco Alimentar Contra a Fome, e o núcleo de Abrantes da Cruz Vermelha Portuguesa, que também distribui cabazes alimentares.

Abrantes teve de adaptar os serviços para assegurar o fornecimento de refeições aos alunos do concelho com escalão A e escalão B. “Onde não era possível fazer chegar as refeições completas transformámos em cabazes de alimentos”, diz Celeste Simão

Celeste Simão defende que “é preciso ir mais longe” e, por isso, foi criado um programa de ajuda alimentar para apoiar as famílias sinalizadas que precisem deste reforço alimentar. Um programa “que ainda não está completamente fechado”, sendo trabalhado em articulação com todas as entidades da Rede Social, avança.

Neste momento “não é possível avaliar todas as carências”, diz, admitindo que outros casos de carência alimentar podem surgir no futuro, considerando “crucial” o apoio na alimentação.

Apesar do programa ainda não estar terminado, Celeste Simão nota que a equipa já está no terreno, designadamente quanto ao fornecimento de refeições aos alunos do concelho com escalão A e escalão B. “Onde não era possível fazer chegar as refeições completas transformámos em cabazes de alimentos”, conclui.

No concelho de Mação, até ao momento, não se tem sentido oscilações de maior no número de apoios concedidos, mas teme-se que, no futuro, o aumento de carências venha a acontecer.

“No essencial, não sentimos aqui uma muita maior afluência para além do que já fazíamos”, diz Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação, referindo-se às situações sinalizadas.

Vasco Estrela, presidente da CM Mação, teme que a situação se complique nos próximos tempos se não houver recuperação da economia. Foto: mediotejo.net

“Da parte da Segurança Social não nos foi reportada nenhuma situação de extraordinária gravidade, mas não quero com isto dizer que está tudo bem. Há situações que já são acompanhadas e têm apoio, nomeadamente de cantinas sociais e RSI, mas até ao momento não sentimos incremento de mais casos e situações mais dramáticas, que tenham ocorrido fruto desta pandemia”, assume o autarca.

Contudo, Vasco Estrela teme que “a situação se complique daqui a algum tempo, se não houver recuperação da economia e, se alguns sinais persistirem em termos de degradação económica nalguns setores, posso antecipar que pode surgir algum problema”.

O Gabinete de Ação Social da CM Mação tem estado a tentar acompanhar as situações de maior vulnerabilidade e também idosos em situação de maior isolamento. “Temos estado atentos”, afirma.

Ainda assim, o edil reporta algumas situações vulneráveis no concelho, que já existiam, nomeadamente pelo facto de se tratar de um território com população extremamente envelhecida. Por isso, existem cerca de 500 idosos sinalizados, a receber contactos semanais, quer por estarem inscritos no Clube Sénior ou na Universidade Sénior, quer por terem sido sinalizados pela Guarda Nacional Republicana em serviço de patrulha de proximidade.

O Serviço de Ação Social deu ainda apoio a 8 munícipes que tiveram perda de rendimentos, para poderem ter apoio na aquisição de medicamentos ao abrigo do Protocolo de Emergência do COVID 19, celebrado entre o Município de Mação e a Associação Dignitude – programa aBem.

existem cerca de 500 idosos sinalizados em mação, a receber contactos semanais, quer por estarem inscritos no Clube Sénior ou na Universidade Sénior, quer por terem sido sinalizados pela Guarda Nacional Republicana em serviço de patrulha de proximidade

Além disto, mantém-se apoio na distribuição dos cabazes do Banco Alimentar a agregados familiares já referenciados em articulação com a Cáritas Paroquial, tendo ainda sido criada uma Bolsa de Voluntários para apoio em resposta de Lar de Idosos, em situação de necessidade, contando com cerca de 10 inscritos.

Desde 4 de maio, o SAS mantém atendimentos presenciais e visitas domiciliárias com caráter de urgência, fazendo ainda encaminhamento de situações de desemprego e outras para o IEFP, e procedendo a atendimentos a vitimas de violência doméstica no Espaço M de Mação, entre demais iniciativas que têm sido desenvolvidas em prol do bem-estar de toda a comunidade.

A nível nacional, desde início da pandemia e até maio, o Banco Alimentar recebeu 14.962 pedidos de ajuda que abrangem cerca de 59 mil pessoas. Na Cáritas Portuguesa há 48 mil novas pessoas a precisar de apoio. Ambas as instituições revelam preocupação com a duração desta crise social trazida pela covid-19, e que parece não ter fim à vista.

*Com Paula Mourato.

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