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Covid-19 | Laurinda de Jesus superou o vírus aos 90 anos e agora só anseia por “um bocadinho” junto da família

O primeiro caso de covid-19 foi registado na região do Médio Tejo a 16 de março. Assinalando 1 ano de pandemia, estamos a publicar uma série de artigos num Dossier Especial, ao longo desta semana.

Laurinda de Jesus foi uma das utentes do Centro de Acolhimento de São João do Peso, em Vila de Rei, infetadas com covid-19 no surto que afetou a instituição entre janeiro e fevereiro deste ano. Aos 90 anos, esta sobrevivente da pandemia conta ao mediotejo.net que não sentiu “assim muito medo” do vírus mas sim tristeza por “estar fechada” e não poder abraçar a filha desde o ano passado.

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Com a simpatia na voz mas com as lágrimas escondidas a quererem sobressair a cada palavra, interrompemos aquele que seria “mais um dia” de Laurinda de Jesus naquela que é a sua casa desde 2017, o Centro de Acolhimento de São João do Peso, em Vila de Rei.

“Boa tarde, Dona Laurinda. Está boazinha?”, perguntamos. “Cá vou estando, tenho que ir devagar”, responde-nos. A conversa acontece por telefone, de modo a garantir a segurança de todos. Mulher de palavras parcas mas certeiras, conta-nos que é de Palhais, localidade no concelho da Sertã. Mais especificamente do lugar de Tira, porque “Palhais há muitos”, explica-nos convictamente.

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Capaz de andar pelo próprio pé e com uma cabeça “orientadinha”, a única chatice que a idade lhe trouxe foi a perda de audição. “Ouço algumas coisas, mas não ouço tudo”, avisa-nos. Ao seu lado está a enfermeira Carolina, do Centro de Acolhimento, que nos ajuda quando a voz elevada não é suficiente para fazer chegar a pergunta ao outro lado da linha.

E foi precisamente a “ajuda das raparigas” da instituição que Laurinda de Jesus confessa ter sido o segredo para vencer o vírus. “Fizeram-me muito bem”, diz, provocando um breve riso de satisfação na voz da enfermeira que a acompanha nesta conversa.

Aos 90 anos, Laurinda de Jesus é um dos rostos daqueles que sobreviveram à pandemia. Testou positivo à covid-19 no mês passado, a 11 de fevereiro de 2021. “Claro que uma doença ruim é pior mas não tive assim muito medo”, diz-nos, como quem não faz grande caso do que já lá vai. “Mesmo assim, não estive muito mal. (…) Tinha assim um bocadito de tosse na garganta, o corpo doía-me, mas era só assim o que sentia, mais nada”, explica-nos, com um à-vontade que se vai alargando à medida que a conversa avança.

A parte mais difícil é aguentar o coração apertado com saudades da filha. “Ah, muitas saudades”, suspira. “É muito difícil estar longe dela”, diz-nos, com o choro embargado na voz. “São muito chegadas”, acrescenta a enfermeira Carolina.

Após vinte dias de isolamento, a boa notícia chegou a 2 de março, quando Laurinda de Jesus testou negativo. “Já estava muito triste de estar ali o tempo todo”, desabafa. A nonagenária passou o tempo de isolamento num quarto partilhado com outra utente, também infetada.

Agora, diz, “graças a Deus, já está tudo um bocadinho melhor”. Os idosos já podem, com as devidas regras, estar juntos no mesmo espaço como antigamente e trocar dois dedos de conversa para ajudar a passar o tempo. A recuperar do susto do surto que afetou a instituição entre janeiro e fevereiro últimos, o Centro de Acolhimento de São João do Peso retomou também na semana passada o regime de visitas de familiares, à distância.

Centro de Acolhimento de São João do Peso, em Vila de Rei. Foto: mediotejo.net

E foi a partir da varanda da instituição que Laurinda de Jesus teve na terça-feira, 16 de março, uma surpresa de encher o coração: a primeira visita da filha após ter passado pela covid-19. “Ai, foi uma alegria que eu tive, e ela também”, expressa, com o pensamento a viajar para aqueles minutos já longínquos de acenos à distância e beijinhos enviados pelo ar.

Laurinda de Jesus está “muito cansada de estar fechada”. No entanto, não perde a esperança de que melhores dias estão por vir. Dias que têm mesmo que chegar porque ainda há um sonho para concretizar: “Sair daqui de dentro e ir um bocadinho para o pé da minha filha”

Abrantina mas orgulhosa da sua costela maçaense, rumou a Lisboa com o objetivo de se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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