Covid-19 | Grupos de risco: Recomendações, alertas e esclarecimentos aos diabéticos

Diabetes (imagem ilustrativa). Créditos: Pixabay

A covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), está no centro das nossas vidas despertando ansiedades e preocupações. Entre os grupos de risco estão, além dos idosos, os doentes crónicos. A diabetes, que afeta mais de um milhão de portugueses, é uma das doenças que complica a recuperação – e todos os internados na Área Covid do hospital de Abrantes são diabéticos. O mediotejo.net falou com um médico e como uma diabética para perceber os cuidados especiais que estes doentes devem ter, no atual cenário de pandemia.

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Os diabéticos não correm mais riscos que a restante população na questão do contágio, contudo “uma vez doentes [infetados com SARS-CoV-2], apresentam um prognóstico mais complicado. Dados mostram que a combinação de diabetes e do novo coronavírus pode provocar sintomas mais severos e formas mais graves da doença”, explica Jorge Nepomuceno, médico Internista, na Medicina Interna do Hospital de Abrantes, que acompanha doentes diabéticos.

Inegável também é que doentes mais idosos, entre os diabéticos, causam maiores preocupações. “Os diabéticos têm de ter os mesmos cuidados das outras pessoas: isolamento social, lavar bem as mãos, distanciamento social… toda a gente tem de cumprir as regras para evitar a doença. Obviamente que os diabéticos adoecendo, e sendo idosos, têm maiores complicações”, diz o médico, manifestando-se contudo “mais preocupado” com os doentes autoimunes por serem medicados com imunosupressores. Ou seja, com maior risco de doença grave em caso infeção pelo novo coronavírus, sendo que a alguns doentes “a medicação não pode ser retirada porque ficam comprometidos órgãos vitais, como o rim ou o pulmão” em doentes com Lúpus, exemplifica o médico ao mediotejo.net.

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Um diabético deverá seguir as orientações dadas pela Direção-Geral da Saúde e pelas autoridades de uma forma ainda mais rigorosa para evitar a infeção: Lavar as mãos com frequência, se possível com um produto à base de álcool; procurar manter alguma distância de pessoas com sintomas de constipação ou gripe; evitar tocar com as mãos nos olhos, nariz e boca; ao espirrar ou tossir, cobrir sempre o nariz e a boca com o cotovelo dobrado ou com um lenço que deve, depois, deitar fora; não partilhar comida, utensílios, copos e toalhas, indica um artigo publicado no Diabetes 365º, um projeto multiplataforma de literacia sobre a patologia.

A proporção de pessoas com diabetes entre os infetados com SARS-CoV-2 é de 20%, subindo para 22% nos infetados internados em cuidados intensivos, revelam a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, o Núcleo de Diabetes Mellitus da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e a Sociedade Portuguesa de Diabetologia em comunicado.

Por outro lado, a diabetes descompensada pode diminuir as defesas do organismo e proporcionar o desenvolvimento de infeções. É por isso que estas entidades decidiram criar uma linha telefónica gratuita com o número 302 051 685. Nesta linha, entre as 08h00 e as 22h00, médicos especialistas respondem a todas as dúvidas sobre diabetes no contexto desta epidemia.

Diabetes (imagem ilustrativa). Créditos: Pixabay

Também, no sentido de acompanhar o mais próximo e atempadamente possível estes doentes, o Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) disponibiliza, através da sua Unidade de Diabetes e Obesidade, uma linha de apoio ao doente diabético: 918 768 164. Este telefone está disponível todos os dias, das 09h00 às 21h00 horas.

Para o apoio telefónico, o CHMT informa que o doente diabético deve ter consigo, no momento do contacto, o registo dos valores de glicemia e a informação sobre a medicação que está a fazer. Deve ter também papel e caneta, para poder escrever as indicações que lhe são dadas de modo a minimizar a hipótese de erro.

Recorda-se que, a diabetes mellitus atinge 13,6% da população portuguesa. No grupo das pessoas com mais de 80 anos atinge cerca de 28% da população.

Em Abrantes, Jorge Nepomuceno verificou esta terça-feira que dos 6 internados na Medicina 1 (enfermaria transformada em área covid) todos são diabéticos. Ou seja, “têm hipertensão, doença cardíaca, doença pulmonar e também diabetes. Significa que a diabetes só por si já predispõe para a forma mais grave da doença”, conclui. Os principais sintomas da doença são febre, tosse persistente, cansaço e sensação de falta de ar.

Observando os dados publicados pelo Worldometer (atualizados a 29 de fevereiro de 2020), o risco de mortalidade causada pelo novo coronavírus numa pessoa com mais de 80 anos é de 14,8%, comparativamente a 8% na faixa etária entre os 70 e os 79 anos, reduzindo ainda para 3,6% em pessoas entre os 60 e os 69 anos. Em pessoas com menos de 60 anos, o risco está, em todas as faixas etárias, abaixo dos 1,3%.

Já o risco de mortalidade calculado tendo em conta as condições de saúde subjacentes, o risco para quem não tem qualquer problema de saúde é de 0,9%. Entre as condições que parecem aumentar o risco de mortalidade pelo novo coronavírus estão as doenças cardiovasculares (10,5%), a diabetes (7,3%), doenças respiratórias crónicas (6,3%), hipertensão (6%), cancro (5,6%).

Na diabetes além do Tipo 1, Tipo 2 e Gestacional, existem outros tipos mas esses ocorrem com muito menor frequência. Por exemplo, diabetes Tipo LADA (Latent Autoimmune Diabetes in Adults) ou diabetes Tipo MODY (Maturity-Onset Diabetes of the Young) que afeta adultos jovens mas também adolescentes e crianças.

A diabetes Tipo 1 surge geralmente em crianças e adolescentes. Além disso, é chamada de doença autoimune. O pâncreas deixa de produzir insulina e dessa forma, pouca ou nenhuma insulina é libertada para o organismo. Como consequência, a glicose não é absorvida pelas células. A diabetes Tipo 2 é a apresentação mais comum da doença. Surge quando o organismo não consegue usar de forma correta a insulina que produz.

Neste momento não há qualquer estudo a indicar que certo Tipo de diabetes torna as pessoas mais vulneráveis, refere o clínico. “Não tenho dados sobre o Tipo 1. Porque 90% da população é Tipo 2”, diz, considerando a doença “complexa de perceber”, pois envolve muitos órgãos. “Está ainda tudo em estudo. O vírus não é um ser vivo nem um ser morto, não se reproduz e só existe dentro da célula. Sabe-se que os doentes cardiovasculares é o grupo onde a doença têm um pior prognóstico. Mas está em investigação.”

Os conselhos do médico passam por “fazer algum exercício físico, como caminhadas”, se não houver risco de contágio. “Para quem vive no mundo rural é mais fácil, pode ir até ao quintal e à horta sem risco de se contagiar. Fazer o fracionamento da comida, comer pouco de cada vez. E tentar manter a diabetes controlada, recorram ao médico assistente ou médico de família de preferência telefonicamente se houver alguma descompensação. Não é para viver em pânico mas devem viver com medo”, observa.

Esta situação de isolamento, provocando stress permanente, também pode aumentar o risco no sentido que aumenta a glicemia e a diabetes torna-se mais difícil de controlar, acrescenta o médico. “O stress permanente, por estarem confinados, é um fator que descompensa bastante. Existem substâncias que o organismo produz em stress que aumenta a glicemia. Se o diabético andar muito tempo stressado, por mais que queira não consegue controlar a diabetes”, conclui.

Vera Dias, nutricionista, reside no concelho da Sertã. Créditos: DR

Açambarcamento provoca falta de insulina nas farmácias

Vera Dias é diabética Tipo 1 e depende de insulina para viver. A doença surgiu quando tinha 17 anos (hoje tem 32) “numa idade em que já tinha maturidade, em que conseguimos compreender e já somos responsáveis” disse ao mediotejo.net. Essa responsabilidade que a doença exige a todos os diabéticos aumentou com outra doença: a pandemia de Covid-19. Um compromisso com as medidas de prevenção e de proteção individual bem como com a necessidade de manter a hidratação, o controlo da glicemia e vigiar regularmente a temperatura. As pessoas que sofrem de diabetes tipo 1 devem ainda controlar a presença de cetonas.

Para somar aos problemas, a “falta de insulina” preocupa Vera Dias, residente no concelho da Sertã. No dia 2 de março teve consulta de diabetes, pelo que dois dias depois comprou a medicação para um mês como habitualmente faz. Na altura, tinha insulina para 1 mês pelo que não trouxe mais. Mas percebe agora que ficou “com insulina só para 9 dias. Fui ontem à farmácia e não há insulina. Não estava à espera!”, afirma.

“Há um consumo exacerbado e isso preocupa-me. Se entretanto a medicação não for reposta na farmácia, vou mandar mensagem a pessoas que moram próximas que sei consumirem aquela insulina”, conta, mantendo a “esperança” na reposição dos medicamentos.

Em entrevista José Manuel Boavida, presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP), chegou a recomendar que os diabéticos tivessem medicação para três meses em casa. Depois perante a declaração do Estado de Emergência a APDP recomendou que todas as pessoas com diabetes deveriam ter em casa medicação suficiente para dois meses, dado ter aumentado a previsão de duração da epidemia, assim como material de autovigilância e toda a medicação que tomam habitualmente para outras doenças, nomeadamente para o aparelho cardiovascular e medicação para a febre, como o paracetamol.

Contudo, a mesma Associação encurtou a quantidade num guia entretanto publicado, aconselhando “ter em casa medicação para a diabetes em quantidade suficiente para um mês, assim como material de autovigilância” da doença.

“A recomendação é para ter em casa medicação para um mês ou mês e meio. Se toda a gente for buscar para três meses, é consumir três vezes mais que o normal e aí não vai chegar. A Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e a Sociedade Portuguesa de Diabetologia fizeram um comunicado dizendo que a medicação e os consumíveis para controlar diabetes não iam faltar e para as pessoas terem em casa para um mês, depois a APDP recomendou para dois meses. Acho que é demasiado tempo… as pessoas ficam com medo e vão buscar mais”, explica, defendendo a “limitação” na venda como responsabilidade social.

No entanto, a APDP garante que não há rutura de stock de insulina no País. Garantia também dada pela autoridade do medicamento, INFARMED, à Associação, mas considera que “o açambarcamento é grave no que toca aos produtos alimentares e também no que toca aos medicamentos”.

E quer “tranquilizar as pessoas com diabetes que possam temer não ter medicamentos para as próximas semanas. Perante a denúncia de escassez de insulina feita pela comunicação social, falámos com o INFARMED que nos garantiu que as empresas que fabricam este medicamento estão a reforçar os stocks de forma a garantir que não há falhas de fornecimento durante esta crise que atravessamos”, explica José Manuel Boavida.

No entanto, a Associação compromete-se em “continuar a acompanhar atentamente esta situação e aconselhar todas as pessoas com diabetes que nos contactem a adquirir apenas as quantidades de medicamentos de que realmente necessitam para que não se registem demoras na reposição de stocks nas farmácias”, refere José Manuel Boavida.

Para todos as pessoas que tenham dúvidas relacionadas com o acesso aos medicamentos ou outras questões relacionadas com o tratamento da diabetes, a APDP também disponibiliza uma linha telefónica gratuita de apoio que numa primeira fase, estará disponível das 08h00 às 20h00, incluindo fins de semana. O número de telefone é o 21 381 61 61.

Na lista das faltas Vera Dias contabiliza ainda os “medidores que aplicamos no braço e que substituem as picadas no dedo. Tenho para um mês, não estou preocupada porque se faltar vou picar o dedo, mas confesso que é completamente diferente para quem faz insulina 8 vezes por dia ou para quem faz três vezes ou medicação oral. É muito mais intensivo e a variação é muito maior” explica dizendo existir “muitos sítios no País onde falta”.

Diabetes (imagem ilustrativa). Créditos: Pixabay

Vera é nutricionista e trabalha a recibos verdes, ficou sem vencimento, mas escolheu ficar em casa sem trabalhar. “O risco de ficar infetada é igual a uma pessoa saudável mas se tivermos a doença covid-19 é mais difícil de controlar por causa da diabetes”, reforça.

Lembra ainda que “as pessoas com diabetes têm de ter em casa algo para subir os níveis de açúcar no sangue no caso de uma hipoglicemia (açúcar, mel, marmelada, gel de glicose ou pastilhas de glicose)”.

A hidratação é outra prática “fundamental durante o período de quarentena, nomeadamente se os valores estiverem mais altos ou se a pessoa estiver infetada” com o novo coronavírus.

Em relação ao controlo da diabetes, Vera monitoriza a doença também ao nível da alimentação. “Obviamente estamos mais parados e os valores têm tendência a elevar um bocadinho. Alguns de nós precisamos de adaptar o tratamento, ou seja, se os valores estão mais altos temos de fazer mais insulina. Ainda não precisei, tenho passadeira em casa e tenho conseguido correr”, diz.

Considera ideal ter em casa “alimentos para 15 dias. Não vamos conseguir ter frescos mas comprarmos alguns mais perecíveis e outras menos perecíveis. Consumir no início da quarentena aqueles que se estragam com mais facilidade. Consumir em primeiro lugar os vegetais, por exemplo brócolos, couve-flor e a couve deixar para o fim para evitar que as pessoas vão todas as semanas à compras”, aconselha.

A nutricionista conta com vegetais da sua horta mas aqueles que não planta, como cogumelos, são entregues em casa. Defende que as pessoas saiam de casa com uma lista quer para o supermercado quer para a farmácia, “para diminuir o tempo de exposição”.

Em situação de isolamento, e como consequência, “mais parados temos de moderar o consumo daquilo que faz subir mais os valores, como por exemplo alimentos ricos em hidratos de carbono como arroz, massa, batata, leguminosas, fruta, leite, pão, bolachas. Reduzir a quantidade e entre as opções escolher as mais saudáveis. Por exemplo leguminosas em vez de batatas. Como têm fibra são uma excelente estratégia a controlar melhor a diabetes”.

Vera confirma que o stress, com consequente aumento da adrenalina, aumenta os valores de açúcar no sangue. “Temos de tentar moderar a informação que nos chega e ser críticos com a que conseguimos” refere. Aconselha por isso atividades que permitam relaxar como a meditação ou o ioga. “Tentar ao máximo estar tranquilo”, reforça.

Durante o seu isolamento, Vera diz ter ido duas vezes à rua, levando álcool para passar nas mãos e um lenço à frente da boca e do nariz. “Não tenho máscara e tento manter o distanciamento das outras pessoas. Tenho um bocado de receio mas alguém tem de ir às compras. Optei por não comprar diariamente pão, faço em casa, não para mim mas para os meus pais” para evitar o risco de contágio.

Na comunicação com os familiares, opta pelas possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias. “Entre ir ali tomar um café podendo ficar em casa versus ficar agarrado a um ventilador é assustador. Acho que em Portugal ainda falta consciência quanto à gravidade da situação. As pessoas têm de pensar que tudo pode estar contaminado. Esta inconsciência é que causa estragos maiores do que aqueles que já temos”, considera.

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