Sábado, Fevereiro 27, 2021
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Covid-19 | Governo admite que vai ser necessário prolongar confinamento

Especialistas foram unânimes: serão necessários pelo menos dois meses para baixar os níveis de infeções e de internamentos em cuidados intensivos. Restrições atuais podem manter-se até à Páscoa e mesmo com alívio de medidas não teremos um Verão “normal”.

Esta terça-feira, no final da reunião com vários especialistas sobre a evolução da situação epidemiológica em Portugal, a ministra da Saúde revelou a sua concordância com a posição unânime dos peritos ouvidos: serão necessários pelo menos dois meses de confinamento para baixar os níveis de infeções e de internamentos em cuidados intensivos para valores que permitam alguma margem de manobra para levantar restrições.

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“É bastante evidente que o atual confinamento tem que ser prolongado por mais tempo, desde já durante o mês de fevereiro, e depois sujeito a uma avaliação, mas provavelmente por um período que os peritos hoje estimaram em 60 dias a contar do seu início”, explicou Marta Temido aos jornalistas, depois do encontro no Infarmed, em Lisboa.

O atual confinamento teve início a 15 de janeiro mas só a 21 de janeiro se impuseram mais restrições (com o fecho das escolas e a proibição de beber café mesmo em take away, por exemplo), pelo que a janela temporal prevista poderá estender-se até 22 de março – ou ainda um pouco mais, até à Páscoa, que este ano se celebra a 4 de abril, e que tradicionalmente é uma data em que muitas famílias se reunem.

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Pouco depois da reunião no Infarmed terminar, o primeiro-ministro também publicou no Twitter uma mensagem referindo que “o atual confinamento está a produzir resultados contra a covid-19, mas será necessário prolongá-lo face aos elevados níveis da pandemia”. António Costa acrescentou que os especialistas ouvidos pelo Governo concluíram que “quanto maior for a intensidade do confinamento mais rápidos são os resultados; que os elevados níveis da pandemia requerem o prolongamento do atual nível de confinamento e que é necessário continuar a investir na testagem massiva e na capacidade de rastreamento”.

Não há mais margem para arriscar qualquer passo em falso. Foi esta, em suma, a mensagem comum a todos os intervenientes na reunião do Infarmed. “É a maior crise de saúde pública dos últimos 100 anos, qualquer que seja a métrica usada”, frisou Manuel Carmo Gomes, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e uma das vozes mais críticas sobre a forma como o governo atuou em dezembro e nos primeiros dias de janeiro. O especialista expôs as razões pelas quais o confinamento gradual falhou e defendeu que Portugal precisa de ter critérios claros (e públicos) para confinar e desconfinar. 

“É a maior crise de saúde pública dos últimos 100 anos, qualquer que seja a métrica usada”, frisou Manuel Carmo Gomes, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e uma das vozes mais críticas sobre a forma como o governo respondeu à pandemia

Na apresentação no Infarmed – que foi a última em que participou, a seu pedido – Manuel Carmo Gomes lamentou que algumas formas de trabalhar ainda se mantenham. “Penso que é minha obrigação, como especialista, fazer uma reflexão sobre estratégia e o que podemos fazer melhor, para evitar chegar à situação de janeiro”, começou por dizer. “A forma como temos vindo a lidar com a epidemia consiste em ler indicadores que chegam com 7 dias de atraso, adotar medidas em resposta, esperar uma semana ou até 15 dias para ver o resultado das medidas, que normalmente não são suficientes… e continuamos nisto. O que acontece é que a partir de certa altura não conseguimos controlar o vírus. E a sociedade começa a dividir-se. É o resultado de andarmos atrás da epidemia”.

Mostrando os dados que indicam como “as medidas mais restritivas foram decisivas” para que a velocidade dos novos casos começasse a descer a partir de 30 de janeiro, Manuel Carmo Gomes prevê agora uma redução dos número de novos casos “para 3000/dia em duas semanas”. Contudo, e recorrendo a um grupo de mais de 800 cientistas que aconselham os diversos governos europeus, recomendou “uma ainda mais premente mudança de estratégia”, a exemplo do que fez, por exemplo, a Dinamarca.

“Quando o número de casos começou a subir, a Dinamarca respondeu com um aumento brutal da testagem. O resultado é que se em Portugal andamos atrás na incidência, a Dinamarca conseguiu manter a percentagem de testes positivos relativamente baixa.” O vírus comporta-se como uma mola, voltou a explicar. “O problema é: como retiramos a pressão da mola? A resposta é a testagem: pomos um peso igual ao confinamento para a mola não saltar. É esse o papel que a testagem tem”.

Baltazar Nunes, responsável pela Unidade de Investigação Epidemiológica do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, concordou com o colega e reforçou a necessidade de uma testagem em massa, pois “permite reduzir o tempo de contaminação, apanhando as pessoas ainda antes de terem sintomas”, e ganhando tempo “para vacinar o maior número possível de pessoas”.

A testagem em massa “permite reduzir o tempo de contaminação, apanhando as pessoas ainda antes de terem sintomas”, e ganhar tempo “para vacinar o maior número possível de pessoas”

Esse aumento da testagem, defendeu ainda Carmo Gomes, tem de ter “linhas vermelhas” claras para todos, que obriguem o Governo a atuar rapidamente. Essas linhas vermelhas, explicou, “são termos um R que não ultrapassa 1,1; uma percentagem de testes positivos que não permita positividade de 10%; e uma incidência que não ultrapasse a capacidade de gerir doentes covid e não covid. Sugiro os 2.000 casos por dia, 1.500 pessoas hospitalizadas, 200 em UCI [Cuidados Intensivos]”.

Marta Temido mencionou também esses valores no final da reunião, acrescentando que o patamar a atingir é ter “uma ocupação de unidades de cuidados intensivos abaixo das 200 camas e uma incidência acumulada a 14 dias abaixo dos 60 casos por 100 mil habitantes”. Ora os valores atuais estão ainda a “anos-luz”. Como também explicaram os técnicos da Direção-Geral de Saúde nesta terça-feira, o pico da terceira vaga terá sido atingido em Portugal a 29 de janeiro, com 1.669 casos por 100 mil habitantes – cerca de 25 vezes mais do que o valor pretendido para aliviar as medidas de confinamento.

O patamar a atingir é “uma ocupação de unidades de cuidados intensivos abaixo das 200 camas e uma incidência abaixo dos 60 casos por 100 mil habitantes”, revelou a ministra da Saúde.
Os valores atuais estão ainda a “anos-luz” – são 25 vezes superiores ao pretendido para aliviar as medidas de confinamento

Marta Temido indicou que foi pedido aos peritos que cheguem a um consenso sobre “um critério base para reavaliar decisões de alargamento das medidas” e indicou que o seu ministério já pediu à Direção-geral da Saúde que reavalie os critérios para testagem de contactos com pessoas infetadas no sentido de qualquer contacto, independentemente do risco, poder ter acesso a um teste.

Em relação à vacinação, cuja primeira fase vai ser prolongada para abril, assumiu dificuldades e constrangimentos. “Todos sabemos que o número de vacinas contratadas pela Comissão [Europeia] é superior àquele que nos está a chegar”, referiu, afirmando que Portugal, na presidência da União Europeia, dará “apoio à comissão para que os contratos realizados sejam cumpridos e as quantidades contratadas venham a ser entregues o mais brevemente possível”.

O vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, novo coordenador da ‘task force’ do plano de vacinação contra a covid-19 em Portugal, admitiu que, com a primeira fase de vacinação a estar apenas concluída no início de Abril, não será possível termos um Verão “normal”.

“Sem imunidade de grupo o Verão não deve ser normal, deve ser com todos os cuidados que temos mantido até agora. Um bocadinho mais tranquilo, mas sempre com todos os cuidados”, afirmou, em entrevista à TVI24. Gouveia e Melo avançou ainda que “há expectativa” de ter “a população praticamente toda vacinada​” no Natal, “se as vacinas encomendadas chegarem nas quantidades previstas e não houver mais atrasos”.

*Com Lusa

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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