Covid-19 | Creches reabrem a meio gás com tentativa de adaptação “utópica”

Foto: Pixabay

Várias creches da região reabrem na segunda-feira, 18 de maio, com poucas crianças e um grande esforço de adaptação à nova realidade. A Direção Geral de Saúde criou orientações para organizar o espaço e a interação entre menores de 3 anos, mas as medidas estão longe de serem consensuais para especialistas e educadores e algumas exigências, dizem-nos, serão impossíveis de cumprir. 

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*Texto de Cláudia Gameiro, com Joana Rita Santos, José Gaio, Mário Rui Fonseca e Paula Mourato 

Sapatos sempre à porta. E os pais também. A horas marcadas e desfasadas, já agora. Levar brinquedos de casa, nem pensar. Partilhar brinquedos na sala também não vai ser permitido, e todos terão de ser lavados diariamente. As educadoras têm de usar sempre máscara. As crianças não podem tocar umas nas outras. À hora da sesta, além dos colchões ficarem mais distanciados uns dos outros, os mais pequenos devem ser dispostos de forma alternada, cabeça com pés. “Sem pés nem cabeça”, é o que muitos dizem das medidas impostas pela Direção-Geral de Saúde, mas será este o “novo normal” para as crianças com menos de 3 anos que regressem às creches na próxima segunda-feira.

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Em Ourém, a APDAF – Associação para a Promoção e Dinamização do Apoio à Família vai abrir portas no dia 18 de maio apenas com 5 das suas 72 crianças. “Vai-nos permitir entrar devagarinho”, refere a diretora, Fátima Duarte, constatando que, com tão poucas crianças, será uma reabertura “pacífica”. A 1 de junho “vai ser muito mais complicado”, salienta, referindo que há apenas 10 crianças cujo regresso nessa altura permanece ainda uma incerteza.

A instituição fez os possíveis por ajustar o espaço às novas medidas, estando esta semana a desinfetar tudo e a preparar os equipamentos para que sejam manuseados pelo mínimo de pessoas. Mas “é muito complicado não partilhar um brinquedo”, reflete a responsável, frisando que as funcionários farão os possíveis por estar mais atentas, mas “é tudo muito utópico”. “Quem trabalha com crianças sabe, o mimo é essencial”, sublinha.

As 31 funcionárias da creche fizeram análises à covid-19, aguardando-se ainda os resultados ao final da manhã de sexta-feira, dia 15. Havia apenas um resultado negativo conhecido.

Da parte dos pais, comenta, a grande preocupação neste momento é a contaminação com o vírus. “Quem tem crianças pequenas sabe bem como elas são. Mas as indicações da DGS são que os casos com crianças são menos agressivos”, refere.

Em Torres Novas, o mediotejo.net falou com a creche do Abrigo Do Menino Jesus. Também aqui a instituição vai receber na segunda-feira apenas 4 das suas 30 crianças inscritas, sendo que alguns pais tomaram já a decisão de manter os filhos em casa até ao final do ano letivo.

O número reduzido de crianças “é uma forma de nos irmos adaptando”, confessou a responsável, Irmã Almerinda Alves, adiantando que desde o princípio da crise pandémica a instituição procurou logo adaptar as instalações a eventuais necessidades de distanciamento social, antevendo inclusive algumas das medidas da DGS. “Estou muito confiante”, frisou a religiosa, não obstante reconheça que a reabertura será um “grande desafio”. No entanto, frisou, a casa tem muito boas condições e vai ser possível as crianças e funcionários circularem por espaços amplos, reduzindo o contacto.

Também aqui as 16 funcionárias foram testadas à covid-19, tendo os resultados dado negativo.

As crianças não devem partilhar brinquedos, algo que será difícil cumprir nestas idades Créditos: Unsplash

O mesmo cenário foi relatado ao mediotejo.net pela diretora técnica de creche, jardim de infância e apoio domiciliário da Santa Casa da Misericórdia de Ferreira do Zêzere, Marisa Gomes. “Tem sido um desafio, é muito informação, muitos requisitos, muitos deles impraticáveis”, constatou. Ao nível da creche, apenas 30% das crianças vão regressar na segunda-feira, 50% no que toca ao berçário, sendo que a instituição possui cerca de 60 inscritos, adiantou.

“O segredo é procurar um equilíbrio”, refletiu a responsável, constatando que a DGS deu simplesmente indicações de trabalho. Toda a situação, referiu porém, acaba por trazer alguma ansiedade, quer para os pais, quer para funcionários. “Vamos deixar de permitir a entrada dos pais e isso é uma fonte de ansiedade, até para nós”, admitiu.

Todas as 18 funcionárias foram testadas à covid-19, tendo os resultados sido negativos.

No Infantário Arco-Íris, uma valência da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, apenas 8 dos 35 inscritos regressam. Neste momento “procedemos a desinfeções, no exterior e no interior do Infantário. Temos um Plano de Contingência que vamos seguir” e as orientações da DGS, explica ao mediotejo.net o provedor da Santa Casa, Alberto Margarido.

“Os pais não podem entrar nas instalações, as funcionárias vão usar máscara e no interior haverá embalagens de desinfetante álcool gel”, refere.

Quanto ao distanciamento de dois metros entre colchões, o responsável garante que será cumprido, até pelo número mínimo de crianças que voltará segunda-feira a frequentar o Infantário. “Já tivemos 10 inscrições, agora são 8… alguns pais optam por ficar com as crianças em casa, até porque alguns tinham um filho na creche e outro no pré-escolar e ficam em casa até 1 de junho. Estou convencido que nessa data regressam mais crianças”.

Segundo Alberto Margarido, “as salas são bastante grandes e há salas vazias para quarentena, que funcionarão como áreas de isolamento”. Quanto aos funcionários, até agora em lay-off simplificado, no Infantário trabalhará “uma cozinheira para confecionar as refeições para essas 8 crianças e duas educadoras”. Os restantes funcionários continuam em lay-off até dia 1 de junho. “Temos de nos adaptar. Este é um ano atípico, mais difícil”, nota.

Relativamente aos testes de diagnóstico, “todos os funcionários que voltam ao trabalho fizeram o despiste no início desta semana, e os testes resultaram todos negativos. E já tinham feito testes antes”, com os mesmos resultados, indica.

Muita da aprendizagem na creche faz-se através da exploração – e isso inclui contacto com muitos materiais Créditos: Unsplash

Na creche da Santa Casa da Misericórdia de Constância, todos os 11 funcionários já foram testados à covid-19. Com 53 crianças a frequentar a creche ‘Os Pequenos Poetas’ antes do fecho, a 16 de março, o provedor da instituição, António Teixeira, fala em alguns “receios normais” pelo enfrentar de uma nova situação e acredita que a retoma em termos de admissão e de reorganização será feita de forma gradual.

“Antes do fecho tínhamos 53 crianças na creche, dos três meses aos três anos, e ainda não sabemos ao dia de hoje quantas crianças irão já na segunda-feira, sendo normal que alguns pais se mostrem receosos e queiram primeiro ver e perguntar como vai ser”, disse António Teixeira ao mediotejo.net, afirmando ter um “equipamento com espaço, qualidade e segurança” e convicto que os profissionais estão também “preparados” para a retoma da atividade e para uma “fase de adaptação” às novas condições.

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“Vai ser forma gradual, muitos pais vão avaliar ainda as novas medidas indicadas pela DGS e que implementámos, e as principais questões, para nós, prendem-se com a parte pedagógica e o relacionamento humano. Não vai ser fácil para ninguém, sendo este um espaço de crianças, de afetos e carinhos, mas temos bons profissionais e vamos adaptar-nos gradualmente até ao dia 1 de junho”, fase de transição da abertura destes equipamentos e de adaptação às novas diretivas.

Já Ricardo Aires, presidente da Câmara Municipal de Vila de Rei, admitiu ao mediotejo.net que são muito poucas as crianças inscritas para frequentarem na próxima semana a Creche Municipal, ficando os números muito aquém do habitual. “Para a reabertura estão inscritos muito poucos, sendo que se contam 2 bebés e mais cerca de 7 meninos e meninas”, indicou o autarca, referindo que as medidas divulgadas não convenceram os pais e famílias, à semelhança do que acontece na generalidade do país.

A Câmara Municipal assegura que “todos os funcionários destes estabelecimentos educativos foram sujeitos a testes de despiste à covid-19”, todos com resultados negativos, segundo o autarca Ricardo Aires em declarações à comunicação social esta sexta-feira, após a reunião de Câmara Municipal.

Nestas reaberturas a Câmara Municipal informa que “será garantido o cumprimento de todas as normas de higiene, proteção e segurança para crianças e funcionários, de acordo com o manual de boas práticas elaborado pela DGS que pretende minimizar o risco de contágio neste tipo de equipamentos”.

Na segunda feira reabrem também as quatro creches que funcionam no Entroncamento: Centro Social e Paroquial, Encoprof, Jardim-Escola João de Deus e Colégio dos Navegantes, este último sem protocolo com a Segurança Social. Todas as funcionárias das creches fizeram testes à covid-19 e todos deram negativo.

Da ronda feita no dia 15 pela equipa da Vereadora Tília Nunes, constata-se que há poucas crianças inscritas. Por exemplo, no Centro Social e Paroquial há 11 crianças inscritas e na Encoprof apenas sete. Prevê-se que o número venha a aumentar a partir de 1 de junho, data em que está prevista a abertura do pré-escolar e termina o programa de proteção à infância que tem permitido aos pais ficarem em casa com os filhos.

Regras proíbem pais de entrar nas creches 

Segundo as orientações da DGS, conhecidas esta quarta-feira, 13 de maio, as creches e as amas devem reduzir o número de crianças por sala para maximizar o distanciamento entre elas, mas sem comprometer o normal funcionamento das atividades lúdico-pedagógicas.

Não usar o calçado que se traz da rua, não permitir a entrada dos pais dentro dos estabelecimentos, definir horários de entrada e de saída desfasados assim como criar circuitos de entrada e saída da sala de atividades para cada grupo de crianças são algumas das medidas que as creches estão a trabalhar para pôr em prática.

Em relação ao processo de reabertura das creches, o primeiro-ministro António Costa disse que, ao longo das últimas semanas, o Governo foi confrontado com posições díspares, com algumas famílias a pedirem a reabertura rápida, alegando urgência no regresso ao trabalho, e outras a pedirem para que continuassem encerradas.

“Desde o princípio que percebemos que, para darmos este passo, era necessário que os pais se sentissem seguros. Por isso, as creches não foram colocadas na primeira leva de reabertura, mas, antes, na segunda, dando tempo às instituições para assimilarem as novas orientações e fazerem necessário o esforço de adaptação”, declarou.

Ainda de acordo com o primeiro-ministro, para dar tempo de decisão aos pais, o Governo decidiu “manter os apoios para as famílias com crianças em creches” durante a primeira quinzena de reabertura.

“Assim, os pais podem escolher se ainda ficam em casa, se colocam já os seus filhos nas creches ou, ainda se os põem apenas algumas horas para se irem adaptando. É uma solução para que todos sintam maior conforto, desde logo os pais, mas também os profissionais que trabalham nas creches, que passarão a estar em contacto com dezenas de crianças”, acrescentou.

C/LUSA

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