Covid-19 | Casar em 2020? A pandemia veio dizer “Não!”

Foto: Pixabay

Num ano normal, a época de casamentos estaria neste momento ao rubro. Maio é um mês muito requisitado e todas as quintas e restaurantes, empresas de catering, fotógrafos, maquilhadores e cabeleireiros não teriam folga aos fim-de-semana, até ao verão. Os noivos e as noivas teriam os fatos, vestidos e alianças gravadas. Os convidados estariam confirmados, bem como as reservas para a lua-de-mel. Mas a pandemia virou tudo do avesso e impossibilitou milhares de casais de dizerem o “Sim!” tão ansiado. O mediotejo.net foi ouvir alguns casais e empresários de um setor que movimenta mais de 900 milhões de euros, num ano que será claramente “Não”.

PUB

A pandemia apanhou todos de surpresa, quando chegou silenciosa de braço dado com uma nova e “estranha forma de vida”, obrigando-nos a um confinamento obrigatório. Seguiram-se os sucessivos Estados de Emergência decretados, e uma permanência em Situação de Calamidade com regras para um desconfinamento que se pretende gradual, com medidas restritivas, de proteção e segurança apertadas.

Desde março, quem tinha casamento marcado viu, de repente, este “elemento invisível” meter-se no meio das suas histórias de amor. Foi o caso de Nuno Santos e Rosária Bento, que tinham casamento marcado para 21 de março, em Abrantes. “Tínhamos tudo confirmado, mas começaram a surgir os casos em Portugal, começaram a surgir as discussões sobre restrições e sobre o fecho de escolas… E tivemos que optar, no fim-de-semana antes, por cancelar”, conta Nuno Santos.

PUB

Por outro lado, a noiva, Rosária Bento, lembrou que a própria Diocese, uma semana antes da data do casamento, também emitiu ordens para que não se realizassem atos religiosos, ainda que o pároco tivesse esperança que o matrimónio acontecesse, uma vez que seriam poucos os convidados.

Todos os casamentos marcados para março, abril, maio e junho tiveram de ser adiados, devido à pandemia de covid-19. Créditos: Unsplash

Mas não foram só as restrições a complicar o processo. “Depois começámos a perceber que as pessoas convidadas não estavam à vontade. Desde os nossos pais, familiares e amigos, notava-se em todos o receio de que a cerimónia fosse para a frente naquela altura”, notou.

“Iríamos estar juntos, mas ia ser complicado. Não podia haver afetos, nem ajuntamentos… Por isso, inicialmente, junto da quinta, em Alferrarede (Abrantes), desmarcámos para junho. Depois surgiu uma vaga em setembro e adiámos, não havendo já disponibilidade para a sala que queríamos. Agora vai depender da evolução da situação…. Mas se não melhorar, passaremos o casamento para 2021”, explicam os noivos.

A mágoa, ainda que por telefone, é impossível de esconder. Meses de preparativos foram postos em causa por algo invisível e que tirou o tapete ao casal.

“Ainda hoje custa. Tínhamos tudo pronto, as alianças gravadas com a data inicial, os convites, as lembranças… Foi um balde de água fria”, lamenta Rosária, lembrando que foi uma colaboradora da quinta onde iriam realizar o copo d’água que os alertou que a situação iria complicar-se e que a cerimónia não iria para a frente.

“O casamento ia ser no Dia da Árvore e íamos plantar uma árvore na quinta. Agora, em setembro, já não tem lógica”, menciona Nuno.

A pandemia de covid-19 veio trazer incerteza e angústia aos casais que já tinham preparativos concluídos ou adiantados para que o seu casamento acontecesse este ano. Viram adiadas datas, aguardam que possa concretizar-se até final do ano, mas apontam já para 2021. Foto: DR

Gastou-se “algum dinheiro” dos milhares de euros envolvidos, como é natural neste tipo de cerimónia, e maior parte das coisas foram os noivos que fizeram, desde brindes a convites. Os convites não vão ser refeitos, mas os brindes, esses, só voltam a ser feitos na altura da data efetiva. “Não passa pela cabeça de alguém preparar o casamento duas vezes…”, admite o casal.

Já Rosária nem tempo teve para recolher o seu vestido, que ficou “aprisionado” na loja, visto que o estabelecimento fechou portas devido às medidas de confinamento obrigatório e encerramento de estabelecimentos comerciais, por decreto do Estado de Emergência nacional.

As negociações com as quintas tornaram-se mais próximas, havendo compreensão de parte a parte. “Nunca nos exigiram nada, nem pagamentos, inclusive mantiveram contacto connosco para saber como estávamos a reagir… houve sempre abertura da parte da quinta e estivemos sempre em consonância. Aliás, acho que estavam dependentes de fechar a quinta se o nosso casamento se realizasse ou não. Como não se realizou, fecharam portas mais cedo”, conta Rosária.

A lua-de-mel também já estava marcada, e seria três dias depois do casamento, com destino a Cabo Verde. Conseguiram dentro dos prazos adiar para setembro, mas sem certezas de que poderão viajar nessa altura.

A nível emocional, não é fácil gerir o processo e a ansiedade ganha terreno. E isso afeta também o equilíbrio do casal. “Às vezes perdemos um bocadinho a paciência um com o outro, porque isto acaba por nos afetar…”, confessam.

Ainda que tenha custado aperceberem-se do “alívio” que foi o cancelamento do casamento para os convidados, o casal percebe agora que se trata de uma situação que a todos amedronta e que não há sinais de quando irá terminar.

Na mesma senda estão João Miguel Chorão e Cíntia Perestrelo, com casamento também pensado para junho, num espaço em Alferrarede, no concelho de Abrantes. João Miguel Chorão tem raízes familiares em Abrantes, apesar de ter nascido em Vila de Franca de Xira e viver em Alverca.

O casamento iria ser a 7 de junho e foi adiado para setembro, podendo ser ainda noutra data até final do ano.

“Consideramos a hipótese, se estiverem reunidas todas as condições de saúde pública, não só por nós, mas sobretudo pelas pessoas que queremos que partilhem esse momento e que o façam em segurança, extensível a si e aos seus. Não havendo condições ou garantia, não avançaremos com o casamento mesmo que haja disponibilidade no local”, conta o noivo ao nosso jornal.

Se no caso anterior o casamento já estava próximo e todos os preparativos estavam assegurados, a pandemia apanhou de surpresa João Miguel e Cíntia, interrompendo a planificação do casamento para junho.

“Com os anúncios de Estado de Emergência por parte do Governo, e estando nós em altura de prova de vestido e fato, já havia noção que qualquer atraso ao plano iria comprometer a data prevista. Porque com os estabelecimentos a encerrar era impossível fazer provas, conseguir reunir com floristas e pessoal da decoração. Tivemos logo noção de que não se iria realizar na data prevista”, admite o noivo.

Foto: Santos&Marçal

Existe ainda noção quanto ao aperto de agenda, quer pelos novos adiamentos devido à pandemia, quer pelas datas previamente agendadas para 2021, considerando que esta é uma questão “extremamente complicada”.

O sentimento é de quem sofreu “um golpe muito duro”, comum a todos os casais, que vêem iniciativas, planos, decisões e custos inerentes, a caírem por terra.

“Mas mais do que o impacto financeiro, a vertente emocional sai mais abalada, vendo todo o esforço deitado por terra. E ainda mais porque a data tinha uma relevância particular para nós, e assim sendo, não temos certeza de poder repetir essa data…”, confidencia João Miguel.

Este sentimento de incerteza trazido pelos tempos conturbados que se vivem, assolou ainda os preparativos de Catarina Mendes e Pedro Carita, de Gavião, que também iriam optar por fazer a cerimónia numa quinta em Abrantes.

Bombeiros de profissão, a preparar-se para casar na última semana de julho, o casal desde logo manifestou dúvidas quanto à realização da cerimónia com o renovar o decreto de Estado de Emergência e tendo em conta serem profissionais de primeira linha de socorro e proteção de pessoas e bens.

“Já tínhamos marcações feitas para as provas do vestido e dos fatos”, dizem, referindo que tudo ficou por fazer.

Um turbilhão de pensamentos e medos assolaram a noiva, porque não iria conseguir ir às provas, e mesmo que a loja reabrisse em junho teriam “muito pouco tempo” e nada iria garantir que a cerimónia se realizasse. Os preparativos ficaram em suspenso.

Na linha da frente, o casal deixou o casamento para segundo plano, pensando em adiar para 2021, contando ainda com familiares que viriam de França durante as suas férias, inclusive uma das madrinhas de casamento, sendo este outro fator de preocupação.

“Sabemos que temos de ajudar os outros, que temos de cumprir a nossa missão e somos mesmo necessários, e por mais que nos custe, teremos de adiar. É complicado. É algo que queríamos muito”, refere Catarina, dando conta do apoio fundamental da família.

Os contactos com os convidados e os amigos foram feitos por telefone, tendo em conta que na lista de convidados existem “pessoas de risco, pessoas desempregadas e em lay-off”, e há sensibilidade para agilizar a cerimónia não esquecendo este “novo normal”.

Agora aguardam alguma acalmia para poderem reiniciar os preparativos e pensar numa data efetiva, que possa garantir segurança na concretização de uma cerimónia muito ansiada.

Carlos Marçal, administrador da empresa Santos&Marçal, detentora da Quinta d’Oliveiras, em Alferrarede, e da Quinta de Santa Teresinha, na Sertã, teme um futuro muito negro para o setor da restauração e hotelaria. Foto: Santos&Marçal

Da parte das empresas detentoras de quintas destinadas a banquetes, o mediotejo.net falou com Carlos Marçal, administrador da Quinta d’Oliveiras, Alferrarede, e da Quinta de Santa Teresinha, na Sertã.

O responsável admite que houve mudanças imediatas de data, não tendo havido cancelamentos propriamente ditos.

“Algumas cerimónias transitaram para o final do ano, outras para 2021. O que é certo é que representa sempre uma perda de negócio”, admite, estimando um prejuízo da empresa, incluindo os dois restaurantes da qual é proprietária, de mais de 2 milhões de euros.

Uma empresa que estava habituada a gerir cerca de 1500 eventos anuais, de pequena e grande dimensão, teve de colocar os 70 trabalhadores em lay-off e a fechar os restaurantes.

“Em termos de hotelaria, o negócio está muito negro. E é impossível recuperar o prejuízo, porque a estrutura está preparada para fazer face ao dia-a-dia e à agenda de serviços. Se há uma época parada, as despesas vão continuando e não sabemos até quando vamos aguentar. Se não há receitas, não há lucros. É um prejuízo total”, afirma o administrador, muito apreensivo.

O ramo da hotelaria, segundo Carlos Marçal, não estava preparado para este golpe. “Ninguém está preparado para uma crise destas, e todas as empresas de hotelaria e restauração – todas  – vão perder, e muitas irão à falência, vai haver muito desemprego…”, faz notar.

Por outro lado, e mesmo com a reabertura de restaurantes, Carlos Marçal refere que o receio que as pessoas têm de estar em ajuntamento e ir a restaurantes é uma realidade. “Não é fácil começar a trabalhar. O nosso futuro está muito incerto…”, desabafa, num suspiro.

Fotógrafos não têm a vida facilitada, estando a perder trabalhos agendados para este ano, mas a não conseguir encaixar muitos outros no ano que vem por já terem marcações nas datas solicitadas para reagendamento. Foto: DR

Entre os vários prestadores de serviços em torno da cerimónia, surgem os fotógrafos como guardiões da memória futura, incumbidos da missão de registar os momentos de um dia único.

Hugo Esteves, fotógrafo de casamentos, de Tramagal, admite que em 20 anos de experiência nunca viu “um ano tão mau quanto este”, mesmo quando comparado com os anos de crise financeira do passado.

Perdeu todos os trabalhos agendados até agosto, sendo que alguns noivos estão a reagendar para o ano que vem. Na sua empresa familiar, onde conta com apoio da mulher e de um amigo, tinha 40 casamentos agendados para fazer a sua cobertura fotográfica.

“Vamos esperar que em 2021 isto melhore para todos. Tem sido uma situação mesmo muito complicada”, admite.

Hugo Esteves é ainda bombeiro voluntário, e essa tem sido a sua sorte. “Para conseguir equilibrar as contas e pagar as despesas, e garantir a atividade. Não é uma atividade barata, porque os investimento são muito grandes, as máquinas estão sempre a precisar de ser trocadas”, exemplifica.

Em parte, mostra alívio por ter uma empresa de estrutura pequena, onde se vão conseguindo aguentar, não tendo de pagar rendas de loja, pois é propriedade da empresa. “Se vivesse exclusivamente da fotografia, a pagar uma renda e a ter um estúdio aberto, estou convencido que este ano teria que arranjar outro trabalho para conseguir sobreviver”, assume o fotógrafo, acreditando que muitos colegas de profissão poderão não resistir a esta crise pandémica.

A sobreposição de trabalhos também acontece, com os adiamentos de casamentos, ficando a empresa “sem espaço livre para trabalhar”, e perdendo assim casamentos por não conseguir disponibilidade de agenda.

Enquanto bombeiro, estando na linha da frente, tem dúvidas de que, mesmo os casamentos reagendados para outubro, vão avante. “Estamos todos na incerteza. Como sou bombeiro também me apercebo da situação de evolução do vírus e da pandemia. Não sei se em outubro, com a chegada do tempo frio, não vai rebentar mais uma vaga. E sem tratamento à vista… vai ser complicado.”

Com tantas incertezas, o fotógrafo-bombeiro considera que 2020 “não é um bom ano para casar”. Na altura de dar um passo em frente na relação, os casais vão continuar de pé atrás, sem saber o que lhes poderá reservar o destino.

PUB
PUB

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser), através do IBAN PT50001800034049703402024 (conta da Médio Tejo Edições) ou usar o MB Way, com o telefone 962 393 324.

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here