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Covid-19 | Cabeleireiros desesperam sem apoios suficientes para sobreviverem de portas fechadas

A pandemia tem feito cabelos brancos a muita gente – mas a alguns de forma mais literal do que a outros. Por um lado, há os cabelos das clientes habitadas à coloração regular num salão de cabeleireiro; por outro, os dos próprios profissionais deste setor, que voltaram a ter de fechar as portas, apesar de todos os condicionalismos e investimentos feitos para assegurar a segurança sanitária. Se um cão pode ir tosquiar o pêlo, porque não pode o seu dono ir cortar o cabelo também? As reclamações multiplicam-se junto do governo, exigindo a reabertura destes pequenos negócios. As associações do setor alertaram já que mais de 50% destes estabelecimentos podem encerrar definitivamente se se mantiverem as atuais restrições até final de março. A maioria dos cabeleireiros e barbeiros são negócios de um só profissional, que têm nestes pequenos negócios o seu único sustento.

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O salão de cabeleireiro de Fátima Galiau, em Alvega, Abrantes, voltou a encerrar portas devido ao novo confinamento geral, e a situação que se arrasta, sem fim à vista, deixa-a indignada. Considera “injusto” que não deixem os cabeleireiros trabalhar, depois de todas as restrições e medidas impostas para o funcionamento da atividade após o primeiro confinamento, em 2020. Sente-se impotente a contar todos os minutos até que surja a noticia esperada: voltar a abrir ao público, continuando o trabalho que iniciou em 1997. Até lá resta-lhe ficar em casa, a fazer contas à vida.

O mesmo desespero é sentido por Rute Fernandes, 49 anos, com um cabeleireiro em Tramagal, Abrantes. É oficial de cabeleireira há 28 anos mas depois de ter fechar portas a 15 de janeiro, arregaçou as mangas e mudou de vida até que possa voltar a receber clientes. “Tenho trabalhado em part-time numa fábrica em Constância. Pela necessidade monetária, não pelo gosto”, sublinha.

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A porta do salão está como que entreaberta, e Rute Fernandes vai cultivando as relações e as formações profissionais à distância, mantendo tudo a postos para o tão desejado regresso à atividade que abraçou. “O estar encerrada não me impede de manter contacto telefónico, virtual com as minhas clientes, e saber se estão bem. Também tenho tido formações online, onde me mantenho sempre profissionalmente ativa”, diz.

“Amo o meu trabalho, sei que é um bem essencial, e algumas clientes sofrem de depressão e este cantinho é um céu para elas, onde são ouvidas, mimadas e cuidadas”, conta Rute, com orgulho.

Fátima Gailau também sabe a falta que faz às suas clientes. “Quase todos os dias me perguntam, pelo telefone ou por mensagem, quando é que o salão volta a abrir…” O confinamento, confessa, está a afetá-la psicologicamente. “A mim e a toda a gente!”, afirma, acrescentando ser essa a declaração das “muitas pessoas” com quem fala ao telefone. “Toda a gente está farta da mesma situação, mesmo pessoas que são domésticas… antigamente podiam sair, dar uma volta. Agora não”.

Os seus clientes são na grande maioria daquela freguesia do concelho de Abrantes, com uma população bastante envelhecida, embora também receba pessoas de Abrantes, do Rossio e de Mouriscas. A residir em Alvega há 20 anos, diz que “já nem são clientes, são amigos”.

A cabeleireira Fátima Galiau no seu salão em Alvega. Créditos: DR

De estabelecimento fechado significa ficar “sem rendimento, mas com a renda do salão por pagar, tal como as contas da luz e da água – se bem que, no ano passado, a Câmara Municipal apoiou os comerciantes isentando do pagamento da fatura da água durante três meses –, mas a Segurança Social foi igual… tenho de pagar tudo”, desabafa.

“Sinto-me revoltada! Os cabeleireiros gastaram muito dinheiro a cumprir todas as regras. Lembro-me que até caixotes do lixo novos tivemos de comprar para separar os descartáveis do lixo comum. Sacos de plástico com atilho para o mesmo efeito, aventais descartáveis, batas descartáveis, penteadores, toalhas descartáveis, desinfetantes, luvas”, entre outros produtos que, devido à corrida aos mesmos, resultou numa “considerável” inflação dos preços.

A cabeleireira aponta esta exigência como a primeira dificuldade durante a pandemia de covid-19. “Durante meses estive sem trabalhar, sem ganhar um cêntimo, e para regressar ainda fui obrigada a gastar dinheiro. Um frasco de desinfetante de 500 ml custava na altura 12,90 euros”, nota.

Fátima recorda que, antes da pandemia, “comprava luvas a 2,99 euros a caixa de 100, e depois cheguei a comprar a 17 euros. Tudo aumentou de preço. Os descartáveis para as tintas custavam 3 euros, cheguei a comprar a 7 euros porque estava tudo esgotado”, e houve “especulação e aproveitamento” por parte dos fornecedores.

A somar a essa conta, a quebra da faturação devido ao decréscimo de clientes, quer pelo número permitido no salão quer pelo “medo que a pandemia causou nas pessoas”. Aliás, o medo foi a segunda dificuldade que teve se ultrapassar no regresso ao trabalho. “Tive de convencer as pessoas que era seguro ir ao salão”. Além disso, Fátima não quis refletir o custo dos produtos no valor pago pelo cliente. “Pensei que muitas pessoas estão sem trabalho, muitas com dificuldades financeiras e decidi não aumentar os preços. Suportei os custos. Nem mesmo no início do ano aumentei os preços, já a pensar nisso”.

Fátima Galiau nunca pensou voltar à situação de inoperacionalidade, principalmente após todas as recomendações e medidas impostas, nomeadamente quanto aos protocolos de higiene, a limpeza mais frequente do salão, as desinfeções dos utensílios, das cadeiras e instalação de desinfetantes de mãos para os clientes.

“Até borrifava o tapete da porta com álcool para a pessoa limpar os pés. Com todos os produtos descartáveis, o cliente e eu estávamos seguros. Não houve um dia que tivesse medo de ir trabalhar. Por isso, nunca imaginei que a situação voltasse a ficar como está novamente”. Defende que ir ao supermercado comporta mais riscos do que ir ao cabeleireiro. “Ainda da última vez vi pessoas aglomeradas junto à balança da fruta, por exemplo.”

Fátima, à semelhança dos restantes profissionais de estética e cabeleiro, sente-se agora “à mercê do Estado” quanto a apoios financeiros.

No ano passado a faturação reduziu drasticamente. “Aqui na aldeia não houve festas, nem casamentos, nem batizados. Quando é que as pessoas vão arranjar o cabelo mais vezes? Nesses momentos de festa. Já não há festas quase há um ano. Antes de confinarmos tinha poucos clientes semanais regulares.”

Fátima Galiau trabalha sozinha mas admite que se tivesse funcionários as preocupações aumentariam. “Nem sei! Ficar sem salário é problemático mas falhar com o salário a outra pessoa seria complicadíssimo”.

Sobre o confinamento anterior, relata ter recebido como apoio governamental “pouco mais de 200 euros” pelo encerramento do salão e por ter ficado a cuidar dos dois filhos menores de 12 anos, “também cerca de 200 euros”. Ter o marido empregado ajuda mas não resolve na totalidade.

Financeiramente, Fátima depende do salário que retira do salão de cabeleireiro. “São meses muitos difíceis” economicamente e psicologicamente. “Detesto estar fechada em casa mas sei que estar doente no hospital é bem pior”, diz.

Resta-lhe fazer contas à vida e esperar que “o confinamento acabe rapidamente” porque para suportar financeiramente o salão encerrado, durante muito tempo, terá de socorrer-se das poupanças, admite. “Se o Estado der o mesmo apoio que deu no ano passado, só chega para pagar a renda. Vai ser muito complicado”. No entanto, o encerrar de portas definitivo é uma hipótese que descarta. “Não, isso nunca! Conto os minutos, os dias para voltar a trabalhar. Gosto do contacto com o público, de cortar cabelos, de conversar… nem consigo imaginar fazer outra coisa”.

Como apoio governamental, a cabeleireira de Alvega pede “alivio das prestações mensais da Segurança Social” e sugere a redução do IVA.

A cabeleireira Rute Fernandes, com salão em Tramagal, Abrantes, mal pode esperar para receber de novo clientes. Enquanto não pode fazê-lo, está a trabalhar numa fábrica, em Constância, para suportar as despesas familiares. Fotografia: mediotejo.net

Rute Fernandes também lamenta que existam tão poucos apoios do governo. “São insuficientes, especialmente para quem paga rendas, luz, água e outras despesas, incluindo a nossa prestação à Segurança Social feita ao dia 20 de cada mês, o que faço sempre”, vincou. Rute vai falando com outros profissionais do setor e diz que todos se têm queixado da falta de ajuda. “Muitas colegas estão a vender os seus móveis e materiais a preços mesmo muito baixos”, e a mudar de profissão. Ela não o quer fazer. Assim que for possível, diz estar pronta para voltar abraçar a profissão que abraçou, “com todas as condições e cumprindo todas as normas”, assegura.

Chega propõe reabrir cabeleireiros, barbearias e manicuras em 22 de fevereiro
O Chega entregou esta semana no Parlamento um projeto de resolução a recomendar ao Governo a reabertura de cabeleireiros, barbearias e manicuras a partir de 22 de fevereiro. O documento a que a Agência Lusa teve acesso interpela o executivo minoritário socialista para que “promova a reabertura de cabeleireiros e barbeiros, nos quais se incluem os profissionais de manicure” e “elabore um conjunto de medidas que devem ser cumpridas na efetivação desta reabertura”. Entre as referidas medidas, o partido da extrema-direita parlamentar incluiu: “Distanciamento entre o profissional e o cliente e entre os próprios clientes, os clientes só se poderão deslocar aos locais com marcação prévia, sendo proibido o atendimento a quem não tenha marcação, obrigatoriedade de janelas e portas abertas para garantir a renovação do ar, proibição de os clientes esperarem a sua vez no interior” e “obrigatoriedade de uso de máscara e higienização das mãos”.
*Com LUSA

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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