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Covid-19 | Apoio a idosos está assoberbado e perde-se na burocracia. Quais as respostas de emergência?

Um casal de idosos do concelho de Ourém viu-se sem assistência familiar ao fim da tarde de uma sexta-feira e acabaram a saltitar entre contactos sem encontrarem uma resposta urgente de apoio domiciliário para o fim de semana. Antevendo os problemas que ainda teriam pela frente, uma assistente social, Estela Ribeiro, assumiu pessoalmente o problema e encarregou-se de apoiar o casal. Ante as críticas à interferência inapropriada no processo de resposta definido a nível nacional, Estela Ribeiro explica ao mediotejo.net que os serviços de apoio estão assoberbados, com excesso de trabalho, funcionando cada um com as suas próprias limitações, e que as pessoas fragilizadas precisam simplesmente de melhores respostas. Fomos tentar saber quais são afinal as respostas de emergência que existem no Médio Tejo para idosos e dependentes afetados pela pandemia de covid-19.

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O tema gerou polémica nas últimas semanas. A vereadora socialista Estela Ribeiro, também assistente social numa IPSS do concelho de Ourém, alertou o município na reunião de 1 de fevereiro que é necessário criar mais respostas de emergência. A título de exemplo relatou um caso de um casal de idosos dependentes cuja família ficara em isolamento profilático e a quem acabara por acudir a uma sexta-feira ao fim da tarde, dada a ausência de uma resposta que garantisse o apoio domiciliário necessário nesse fim de semana. O casal precisava de apoio para fazer a medicação, a alimentação e acender a lareira, por exemplo.

O problema terá começado pela própria falta de informação do casal e respetiva família sobre como, onde ou a quem pedir ajuda. Inicialmente, explicou Estela Ribeiro, contactaram uma instituição onde tinham conhecimentos, mas estava fora da área de residência. Daqui foram encaminhados para a Proteção Civil Municipal, que os direcionou para a Ação Social do município. Neste departamento receberam indicação de duas instituições particulares de solidariedade social (IPSS) que dão apoio domiciliário. Contudo, nenhuma das IPSS prestava apoio domiciliário ao fim de semana.

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O caso estava assim às 18h30 de uma sexta-feira quando chegou ao conhecimento de Estela Ribeiro. “Registei toda a história, propus outras soluções, até de restaurantes levarem comida a casa”, explicou ao mediotejo.net, “mas o problema era a medicação”. Antevendo todo um conjunto de problemas e a hora tardia do contacto, a responsável não mandou o casal de volta para o sistema e assumiu ela própria a resposta ao fim de semana enquanto a família estava em isolamento. Na segunda-feira seguinte, a IPSS onde trabalha começou a prestar apoio domiciliário durante a semana.

A boa vontade de Estela Ribeiro interferiu, porém, com o processo de apoio de emergência e apanhou o presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, desprevenido. “Ninguém nos disse mais nada”, explicou ao nosso jornal após se colocar a par das respostas que tinham sido sugeridas aos idosos. Se não havia resposta domiciliária de fim de semana nas instituições indicadas, explicou, o casal tinha que ter contactado novamente a Proteção Civil Municipal, que os encaminharia para a distrital.

No Médio Tejo há 1.514 idosos a viverem isolados e que foram sinalizados pelas autoridades: 258 em Abrantes, 104 em Alcanena, 26 em Constância, 59 em Ferreira do Zêzere, 258 em Mação, 163 em Ourém, 97 no Sardoal, 130 em Tomar, 125 em Torres Novas, 94 na Barquinha, 121 na Sertã e 79 em Vila de Rei

A mesma resposta é apontada por Miguel Borges, presidente da comissão distrital Proteção Civil de Santarém. “O sistema de Proteção Civil tem vários patamares: primeiro é municipal e depois regional”, explicou ao mediotejo.net. “Há vagas reservadas e que não fecham ao fim de semana”, frisou, referindo que em último caso podia-se ter institucionalizado temporariamente os idosos. “As coisas resolvem-se.”

Há números de telefone municipais para o apoio à covid-19, apontaram tanto Miguel Borges face ao contacto do mediotejo.net como Luís Albuquerque, na reunião de 1 de fevereiro. O problema, constata Estela Ribeiro, é que estas camadas da população nem sempre têm o conhecimento necessário para saber onde e como pedir ajuda.

“Só quis saber qual o plano de emergência”, afirma Estela Ribeiro, “porque as IPSS estão assoberbadas e a maioria só dá apoio social durante a semana”. “Sou assistente social mas também sou política. E se há novas políticas de apoio do município, eu quis alertar que se calhar há outras necessidades. Eventualmente, colocar de alerta as farmácias, colocar instituições de alerta para respostas de emergência, haver uma equipa de prevenção…”, sugeriu.

“Estou na linha da frente, com muito trabalho, e nestas situações tem que se responder de imediato”, explica. “Falo com algumas colegas e as instituições que têm resposta de lar estão muito assoberbadas com a luta à covid-19. O nosso trabalho triplicou. São as higienes, as medicações, o trocar de roupa, as desinfeções, as máscaras. Os idosos têm que estar sempre a ser desinfetados, higienizados”, enumera. “Há um trabalho redobrado a todos os níveis.”

A assistente social constata que está toda a gente muito cansada e sob bastante pressão, além da sobrecarga de trabalho com toda a parte burocrática destes processos. Por isso não se arrepende da sua intervenção junto do casal de idosos ouriense.

Segurança Social já colocou 330 pessoas a dar apoio a lares no distrito de Santarém

O outro lado das respostas de emergência a idosos, e que causa alguma confusão entre quem precisa de apoio ou tenta prestar esse apoio, é que nem sempre se percebe bem quem é responsável pelo quê. O apoio mais visível tem sido a resposta da Cruz Vermelha aos surtos de covid-19 nos lares, mas, como frisa ao mediotejo.net o presidente da Segurança Social de Santarém, Renato Bento, há toda uma resposta concertada que parte essencialmente da Segurança Social.

Numa resposta por email ao nosso jornal, depois de questionado sobre as respostas de emergência para idosos e/ou com alguma dependência que vivem sozinhos, o responsável da Segurança Social de Santarém explica que “as respostas de emergência são variadas”. A primeira é a da rede de equipamentos sociais, através da resposta social de Serviço de Apoio Domiciliário em que se garante a prestação de múltiplos serviços, como higiene pessoal, alimentação, tratamento de roupa e outros serviços específicos, atendendo também às necessidades concretas dos utentes.

A resposta de emergência aos idosos que vivem sozinhos é ainda insuficiente e a maioria não sabe a quem pedir ajuda Créditos: Pixabay

“No período de pandemia alargou-se substancialmente a rede de oferta de Serviço de Apoio Domiciliário, através da domiciliação de serviços a todos aqueles que se encontravam a frequentar as respostas sociais de Centro de Dia, nas diferentes instituições, o que representou um encargo financeiro e orçamental muito expressivo, com o aumento do apoio financeiro a todas as instituições sociais que prosseguem esta resposta social. No caso de um cuidador de uma instituição social necessitar de ficar em isolamento, o serviço continua a ser garantido pela instituição através de outra equipa de cuidadores”, explica.

Caso o utente entre em isolamento profilático sem necessidade de hospitalização, “existem estruturas de apoio de retaguarda específicas que podem acolher estes utentes”. No distrito de Santarém há uma estrutura de retaguarda em Fátima, “sob a gestão técnica do Centro Distrital e com capacidade de acolhimento até 90 utentes em contexto covid-19, que compreende cuidadores, serviços de enfermagem e serviços clínicos e que acolhe utentes oriundos das unidades hospitalares, das instituições sociais e dos próprios utentes não institucionalizados, isto é, que se encontram no seu domicílio”. A Segurança Social refere que já foram acolhidos idosos a necessitar de apoio, sinalizados por instituições sociais, autoridades de saúde ou outras entidades referenciadoras.

No que toca à resposta de emergência devido a surtos em lares, há efetivamente protocolos estabelecidos entre a Segurança Social e várias instituições para ajudar, por exemplo, com recursos humanos.

Refere a Segurança Social de Santarém que “as brigadas de intervenção rápida foram constituídas no âmbito de um protocolo assinado a 4 de setembro entre o Instituto da Segurança Social e a Cruz Vermelha Portuguesa e visam a contenção e estabilização imediata de surtos em ERPI, lares residenciais e outras respostas de acolhimento residencial, designadamente em situações de falência do funcionamento da resposta social e durante o estrito espaço de tempo necessário para que a resposta se reorganize e consiga assegurar o seu regular funcionamento”.

Adianta a instituição que até ao momento foram ativados “recursos humanos para 40 equipamentos sociais no distrito de Santarém, onde se incluem alguns equipamentos não licenciados, com a alocação de um total de cerca de 330 cuidadores nessas estruturas residenciais, o que tem permitido garantir e estabilizar os cuidados assistenciais aos utentes”.

Foi ainda criado o Programa de Apoio ao Reforço de Emergência de Equipamentos Sociais e de Saúde (MAREESS), desenvolvido pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), “dirigido especialmente às instituições sociais e outras entidades da área da saúde e área social e que possibilita a contratação de cidadãos em situação de desemprego, com benefícios remuneratórios muito significativos para estes e para as próprias instituições, para contratação direta pelas entidades”.

A Segurança Social de Santarém salienta que existe “todo um Centro Distrital empenhado na atividade normal e corrente mas também nas medidas especificas no combate à crise pandémica, seja na área de desenvolvimento social, através das muitas medidas de natureza social que implementamos e estão em vigor, seja na área prestacional”, onde há “uma multiplicidade de medidas e prestações criadas especificamente para apoiar todos os cidadãos, todas as empresas e todas entidades que necessitam do apoio do sistema público de proteção social”.

Resposta local de emergência varia consoante o concelho

Os municípios têm planos de contingência para a covid-19 e alguns apostaram inclusive em linhas de emergência específicas para a pandemia, como Alcanena, Entroncamento, Ourém e Torres Novas.

A par deste trabalho, as Câmara Municipais e as juntas de freguesia podem decidir criar as suas próprias respostas de emergência à população idosa e vulnerável. A Câmara Municipal de Torres Novas, por exemplo, lançou recentemente uma bolsa de voluntariado para situações de emergência, que pretende ficar além da pandemia.

Em Abrantes, a Câmara e as juntas de freguesia assinaram um protocolo para um Fundo de Apoio de Emergência Social, destinado a apoiar munícipes da comunidade que se encontrem em situações de grande vulnerabilidade social. Este fundo apoia despesas de alimentos e produtos de higiene de primeira necessidade; medicação com receita médica ou considerada urgente; transportes para tratamento de doença ou questões de saúde, quando considerado urgente e inadiável; bem como outras situações pontuais que não possam aguardar decisão de programas e apoios sociais já existentes.

Em Mação foi criado em abril do ano passado um banco local de voluntariado, “Todos por Todos”. A ideia era ter recursos para prestar apoio a idosos, grupos de risco e cidadãos mais vulneráveis ao contágio por SARS CoV-2. Pela mesma altura, também Vila de Rei criou uma bolsa de voluntariada específica para a covid-19.

Em Alcanena, foi implementado em 2020 o “Cabaz Solidário”, disponível para famílias com carência económica e sem apoio de retaguarda. Entre abril e dezembro foram entregues 374 cabazes. Segundo o relatório do município, aumentaram o número de crianças e adultos que compõem as famílias necessitadas.

Um dos problemas da ajuda disponibilizada pelos municípios é que nem sempre os contactos a realizar estão facilmente acessíveis, sobretudo para quem tenha mais dificuldades em procurar informação na Internet.

GNR visita mais de 1500 idosos isolados na região

Segundo Miguel Borges, compete à GNR manter a vigilância a idosos que vivem sozinhos e/ou isolados, facultando posteriormente essa informação à Proteção Civil distrital. A Capitão Andreia Vieira explicou a mediotejo.net que desde 1999 existe um programa do Ministério da Administração Interna chamado “Apoio 65 – Idosos em Segurança”. Dentro deste programa a GNR já procura, fora de contexto pandémico, realizar um “policiamento de proximidade”, que visa alertar os mais idosos para situações de burlas e perigos variados.

A par disto, existe a “Operação Census Sénior”, em que a GNR faz uma sinalização dos idosos mais vulneráveis, nomeadamente a viver sozinhos e/ou isolados. No Médio Tejo, referiu a responsável, há um total de 1.514 idosos a viver nestas condições e que foram sinalizados pelas autoridades: 258 em Abrantes, 104 em Alcanena, 26 em Constância, 59 em Ferreira do Zêzere, 258 em Mação, 163 em Ourém, 97 no Sardoal, 130 em Tomar, 125 em Torres Novas, 94 na Barquinha, 121 na Sertã e 79 em Vila de Rei.

Dentro do contexto da pandemia, adiantou a Capitão, tem-se procurado sensibilizar para os falsos médicos e as falsas vacinas. A abordagem tende a ser didática, explicou, uma vez que os idosos nem sempre percebem o que veem na televisão. “A situação do Presidente da República, com um teste positivo e depois vários negativos, foi muito confusa para os idosos”, referiu.

Queixas nas redes sociais e respostas oficiais

As críticas à atuação das autoridades no que toca a resposta a idosos no âmbito da pandemia têm-se feito ouvir sobretudo nas redes sociais e em algumas notícias isoladas, mais ou menos polémicas, como o caso do casal de idosos acolhido por Estela Ribeiro. A informação veiculada por estas fontes e pelas entidades oficiais é, frequentemente, contraditória.

No âmbito do surto de covid-19 ocorrido em novembro no Centro de Bem Estar Social de Minde, no concelho de Alcanena, onde morreram pelo menos 18 pessoas, chegou a ser noticiado pela TVI que os idosos chegavam ao hospital em situação de negligência e maus tratos. No entanto, o lar e o município negaram a situação.

Em janeiro, um surto num lar ilegal em Samora Correia, no concelho de Benavente, conduziu à deslocação de cerca de 30 pessoas para o centro de retaguarda da Segurança Social do distrito em Fátima, localizado no Centro Espiritual Francisco e Jacinta Marto. As famílias, porém, rapidamente fizeram chegar às redes sociais e à comunicação social a sua insatisfação com a forma como os idosos foram acolhidos, apontando que não havia recursos humanos suficientes para fazer face às necessidade de higiene e medicação dos utentes.

Numa resposta à Lusa, o Instituto de Segurança Social referiu na altura que os utentes foram recebidos pela direção técnica em funções, pela equipa médica e de enfermagem e por elementos da Proteção Civil, sublinhando que, “por se tratar de um acolhimento em larga escala, o processo de admissão e acolhimento dos utentes foi naturalmente exigente”. Contudo, dizem, “foram garantidos todos os serviços assistenciais aos idosos, tais como avaliação clínica e de enfermagem, cuidados individuais ao nível da higiene, da alimentação, do conforto e segurança”.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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