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Sexta-feira, Setembro 24, 2021

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Covid-19 | Administração do Centro Hospitalar reajusta serviços mas diz que “ainda nada está ganho”

Carlos Andrade Costa faz, em entrevista, o balanço de um ano de pandemia no CHMT, naquele que foi o maior desafio de sempre para várias gerações de profissionais de saúde. O Hospital de Abrantes passa agora, por determinação do Ministério da Saúde, a ser unidade de referência de cuidados intensivos covid para todo o distrito de Santarém, estendendo-se ainda até à zona de Vila Franca de Xira. Com este trabalho encerramos a publicação de uma série de artigos sobre os efeitos da covid-19 na região desde a notificação do primeiro caso positivo, a 16 de março de 2020 (dossier disponível na secção "Especiais")

Um ano depois de terem recebido os primeiros pacientes de covid-19 no Centro Hospitalar do Médio Tejo, os profissionais de saúde parecem ter, finalmente, uns dias de tréguas. Foi levantada inclusive a proibição de tirarem férias – mas todos sabem que conseguir uns momentos para respirar fundo é muito diferente de poder respirar de alívio. A pandemia não acabou e, como refere o administrador Carlos Andrade Costa numa entrevista conjunta com meios de comunicação social da região, “ainda nada está ganho”. Foram vencidas algumas batalhas mas a guerra, tudo o indica, será longa.

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O CHMT reorganiza-se agora para dar resposta aos doentes não-covid que têm consultas e cirurgias em atraso, tendo já reposto todos os serviços nos seus respetivos hospitais. Ao longo dos últimos meses, de forma a conseguir criar novas enfermarias preparadas para receber doentes covid em Abrantes foi necessário movimentar blocos de serviço, como peças de um puzzle que, apesar de reconfigurado, tinha de continuar a fazer sentido. Foi o caso do serviço de Ginecologia e Obstetrícia, que saiu de Abrantes para Torres Novas, ou do serviço de Ortopedia, que passou de Abrantes para Tomar. 

No Hospital de Abrantes chegaram a estar em funcionamento sete enfermarias para doentes covid. Neste momento subsistem apenas duas, com capacidade para 26 pacientes, além da unidade de cuidados intensivos, com 10 camas. “Temos uma terceira enfermaria [para casos covid] que ficará em stand by e que a qualquer momento, em poucas horas, pode ser ativada”, adianta o administrador hospitalar.

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As três unidades hospitalares do CHMT reabriram também já as suas urgências gerais em pleno, funcionando novamente 24 horas por dia.

Enfermaria de doentes covid, no Hospital de Abrantes. Fotografia: mediotejo.net

De qualquer forma, este reajuste das antigas peças no seu lugar não significa que o panorama seja o mesmo que existia antigamente. É preciso garantir que há um circuito covid e um não-covid em todos os hospitais, ao longo dos próximos meses. E essa é também uma das razões para que a Administração não queira dispensar nenhum dos cerca de 150 profissionais de saúde contratados ao longo do último ano. “Vamos continuar a precisar de todos. Já integrámos nos quadros mais de 80 pessoas e prosseguimos nesse processo” com os restantes, adianta Carlos Andrade Costa.

“Quando me perguntam se os médicos e enfermeiros contratados durante este ano de pandemia agora vão embora, eu volto a dizer: ‘Não, não vão. Porque vão continuar a ser necessários'”

Até porque, revela, além da possibilidade de surgir uma nova vaga da doença, há todas as sequelas pós-covid para tratar. “Depois da pandemia vamos começar a ter um novo tipo de doentes – e que serão em número muito elevado, porque tivemos números muito altos de infetados”, considera Carlos Andrade Costa.

“Estamos a ver já sequelas muito graves e muito fortes. São doentes que já não estão positivos, já têm cura clínica da infecção, mas dois meses depois, três meses depois, ou mesmo em linha contínua com a infecção que tiveram, começam a evidenciar um quadro clínico que requer muitos cuidados especializados”, revela.

“Áreas como a neurologia, cardiologia, reabilitação, pneumologia… são áreas que vão estar durante anos a ter de assegurar a prestação de cuidados a doentes que tiveram covid. Vamos passar a ter uma multidão de doentes crónicos, de todas as idades, com sequelas bastante severas. São doentes que vão trazer outro desafio enorme ao Serviço Nacional de Saúde. É preciso ter essa consciência e começar já a trabalhar para aquilo que vão ser as exigências assistenciais destes doentes. Por isso, quando me perguntam se os médicos e enfermeiros contratados durante este ano de pandemia agora vão embora, eu volto a dizer: ‘Não, não vão. Porque vão continuar a ser necessários.'”

O CHMT passa agora a ser unidade de referência de cuidados intensivos covid para todo o distrito de Santarém, estendendo-se ainda até à zona de Vila Franca de Xira, integrado no chamado Eixo 2, em parceria com o Centro Hospitalar de Lisboa Central

Na área covid as equipas do Hospital de Abrantes continuam também a ter responsabilidades acrescidas no âmbito da resposta desenhada pelo governo, a nível nacional. O CHMT passa agora a ser unidade de referência de cuidados intensivos covid para todo o distrito de Santarém, estendendo-se ainda até à zona de Vila Franca de Xira, integrado no chamado Eixo 2, em parceria com o Centro Hospitalar de Lisboa Central, nomeadamente com os hospitais de São José, Capuchos, Curry Cabral, Dona Estefânia e Maternidade Alfredo da Costa.

No total, os hospitais do Eixo 2 têm de assegurar 30 camas de “reserva” para cuidados intensivos covid: 20 ficam a cargo do Centro Hospitalar de Lisboa e 10 são da responsabilidade do Centro Hospitalar do Médio Tejo.

ÁUDIO | CHMT integrado no Eixo 2 da resposta nacional de cuidados intensivos covid-19

Mas, além dessas 10 camas de cuidados intensivos para doentes covid, há que manter a resposta para os doentes com outras patologias que necessitem de cuidados intensivos, o que representa um número muito grande de profissionais afetos a estas unidades.

E depois há todo um universo de doentes não-covid à espera da normalização dos serviços. As listas de espera para consultas e cirurgias foram crescendo e será preciso recuperar o passo. Contudo, a administração do CHMT está confiante de que o fará rapidamente. “Houve uma situação que nos ajudou um bocadinho, e que tem a ver com o facto de termos terminado o ano de 2019 com os tempos de espera bastante controlados, conseguindo [no caso das consultas externas] dar resposta no limite do tempo definido pelo ministério da Saúde, que é de 9 meses de espera. Portanto, entrámos em 2020 com tempos médios de espera aceitáveis. Na área oncológica, mesmo em tempo de pandemia conseguimos sempre salvaguardar a resposta, quer em termos de consultas quer em termos cirúrgicos. Em Tomar mantivemos sempre atividade cirúrgica e em Torres Novas também se realizaram ao longo do ano de 2020 muitas cirurgias, e isso permitiu-nos não degradar muito as nossas listas de espera. Fizemos um esforço enorme desde setembro do ano passado, até 31 de dezembro, e fechámos o ano com um controlo das nossas listas de espera para cirurgias. Obviamente que agora janeiro e fevereiro já não foi assim, mas desde dia 6 de março o CHMT retomou toda a atividade cirúrgica adicional, o que permitirá compensar o que se perdeu nos meses mais duros da pandemia”, explica.

“Agora temos um programa de cirurgia adicional, que irá até 30 de junho, e aí faremos um balanço mais ampliado de como correu, mas estou confiante de que nessa altura as nossas listas de espera voltarão a estar dentro dos valores preconizados.”

Reconhece, contudo, que existem algumas excepções – nomeadamente na Ortopedia, que é a especialidade com maior lista de espera em todo o país.

“Na área oncológica, mesmo em tempo de pandemia conseguimos sempre salvaguardar a resposta, quer em termos de consultas quer em termos cirúrgicos”

Neste periodo de um ano de pandemia, se há unidade que estive sob uma pressão quase tão grande como a dos cuidados intensivos foi a área da análise patológica.

A nível nacional, o trabalho do Laboratório de Patologia do CHMT afirmou-se como uma referência, sendo atualmente o único que, além do Instituto Ricardo Jorge, consegue realizar testes para todas as variantes conhecidas do SARS-Cov-2.

“Investimos muito na área do laboratório, em material e em meios humanos. Contratámos 17 novos técnicos de patologia clínica, cientes de que não se consegue combater uma doença infecciosa sem conseguir saber se uma pessoa está infetada ou não. Portanto, num cenário de pandemia, o investimento tinha de ser muito expressivo”, explica Carlos Andrade Costa.

“O CHMT foi o primeiro hospital do país a avançar com a possibilidade de identificação de todas as variantes do coronavírus, de forma autónoma”

“Depois surgiu ainda a dificuldade de identificar as diferentes estirpes e variantes deste vírus. Elas não têm todas o mesmo impacto nos doentes e, por isso, é muito importante saber desde o início qual é a variante que infetou determinada pessoa, no sentido de ajudar a decidir qual a abordagem clínica mais correta. O CHMT foi o primeiro hospital do país a avançar com esta possibilidade de identificação, de forma autónoma. A resposta estava apenas centrada no Instituto Ricardo Jorge, que é a autoridade nacional nesta matéria e com quem temos mantido uma colaboração muito grande, o que nos permite ir recolhendo informação quase em tempo real”, nota.

“Acabámos de começar a identificar também a estirpe californiana, ou seja, passámos a ser capazes de testar todas as estirpes que estão oficialmente classificadas”, revela. Uma vez mais, o CHMT é o único hospital do país que já o faz, além do Ricardo Jorge. “Continuamos a fazer muitos testes para Lisboa e para todo o distrito de Santarém e sabemos que esta nossa capacidade de resposta é uma ajuda enorme”, congratula-se o administrador do CHMT.

Carlos Andrade Costa, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo, numa entrevista conjunta com jornalistas da região. Créditos: mediotejo.net

O Laboratório de Patologia tem também desenvolvido estudos sobre a prevalência das variantes na população e o desenvolvimento de anticorpos ao SARS-Cov-2.

Numa altura em que mais de 90% dos profissionais do CHMT já estão vacinados, e o plano nacional de vacinação avança entre as camadas mais vulneráveis da população, Carlos Andrade Costa faz questão de deixar uma mensagem bem clara: “Termos vacina não nos dá mais nenhuma liberdade. Uma coisa é segurança, outra coisa é liberdade. Termos vacina pode dar-nos um pouco mais de segurança – mas mesmo esse grau de segurança tem de ser aferido.

ÁUDIO | Estudo do CHMT sobre resposta do organismo após toma da vacina 

“Nós ainda precisamos de tempo para perceber o impacto da vacina naquilo que são as faculdades de defesa do nosso próprio organismo. As pessoas não reagem todas da mesma forma à vacina. Um pequeno exemplo que pode ser útil para nos ajudar a perceber como ainda há tantas zonas cinzentas nisto tudo: houve três hospitais no país que fizeram um estudo sobre o impacto da vacina e a capacidade desta gerar anticorpos, antes, após a primeira toma e após a segunda toma. Esses três hospitais foram o Hospital Universitário de Coimbra, o Hospital de São João, no Porto, e fomos nós. No CHMT houve uma colheita de sangue imediatamente antes de levarmos a vacina, para ver se algum de nós alguma vez tinha estado em contacto com o vírus. Depois houve uma segunda colheita imediatamente antes de levarmos a segunda dose da vacina, para percebermos o impacto no nosso organismo e que anticorpos tínhamos conseguido gerar apenas com uma dose. E o resultado de pessoa para pessoa é muito diferente. No caso do CHMT estamos a falar de 1.800 pessoas e, após uma toma, as diferenças que se encontram são muito significativas.”

“Termos vacina não nos dá mais nenhuma liberdade. Uma coisa é segurança, outra coisa é liberdade. Termos vacina pode dar-nos um pouco mais de segurança – mas mesmo esse grau de segurança tem de ser aferido

Carlos Andrade Costa não esconde que viveu momentos particularmente difíceis ao longo do último ano. “Um deles foi, a dada altura, não sabermos quando é que a escalada de doentes parava… Essa era uma grande incógnita, e que nos causava uma grande angústia. Tínhamos 160 doentes internados quando abrimos a sétima enfermaria, e perguntávamo-nos: ‘Quando é que isto parará?'” E continuávamos a fechar outras valências, e a deslocar os nossos profissionais para conseguir dar resposta [aos doentes covid], mas não podíamos ir muito mais longe. Há um limite para tudo e essa era a pergunta que nos angustiava: qual é o nosso limite?”

No início da pandemia, tendas de campanha militares reforçaram a capacidade de triagem de casos suspeitos de covid-19 no hospital de Abrantes. Foto: mediotejo.net

O cenário repetia-se de norte a sul, em todas as unidades covid. O Serviço Nacional de Saúde viu os seus limites serem verdadeiramente testados, e o CHMT orgulha-se de ter contribuído sempre para apoiar outras unidades que estivessem em maior esforço.

“O CHMT foi o hospital do país que mais doentes recebeu de outras unidades, sem termos referenciação especial para isso. Ou seja, nós não somos ‘fim de linha’ para nenhum hospital e fizemos verdadeiramente esse papel, recebendo doentes quer para enfermaria quer para cuidados continuados. Mas a determinado momento percebemos que não tínhamos capacidade para continuar a ajudar os outros hospitais, e começámos a ter de dizer “não” aos nossos colegas, a quem tínhamos durante quase um ano sempre dito ‘sim’… foi difícil”, admite o administrador.

Tínhamos 160 doentes internados quando abrimos a sétima enfermaria, e perguntávamo-nos: ‘Quando é que isto parará?'”

“Chegámos a ter 24 camas de cuidados intensivos, o que representou um esforço enorme de recursos. Só foi mesmo possível porque nós nos preparámos para esta pandemia sem saber que a pandemia vinha aí. Ou seja, os investimentos feitos no CHMT nos últimos quatro anos permitiram-nos ser, durante um ano, ‘fim de linha’ de muitos hospitais que não tinham mais capacidade para continuar a receber doentes – nomeadamente nos cuidados intensivos, onde investimos muito porque entendemos que era uma área de que o país precisava. Mal sabíamos nós para o que nos estávamos a preparar…”

O uso de equipamentos de proteção individual passou a fazer parte do dia-a-dia no Hospital de Abrantes Créditos: mediotejo.net

Desafiado a considerar o que mudaria na resposta inicial à pandemia, sabendo o que sabe hoje, Carlos Andrade Costa responde sem hesitar: nada.

“Desculpe a imodéstia da minha resposta, mas acho que o CHMT foi absolutamente exemplar na forma como lidou com esta pandemia, na forma como ajudou tantos e tantos hospitais, na forma como contribuiu para a realização de testes massivos em toda a região de Lisboa e Vale do Tejo, na forma como deu capacidade de testagem a todas as instituições do distrito de Santarém… honestamente, há sempre forma de fazer melhor, mas se houvesse uma máquina do tempo que nos colocasse outra vez em janeiro de 2000, não faríamos nada radicalmente diferente”, explica.

“O mérito não é meu, é dos 2.000 profissionais desta casa”, acrescenta. “Foram inexcedíveis, apesar do cansaço que a determinada altura começou a pesar, e de também terem famílias e outros problemas fora daqui… estiveram sempre disponíveis, a lidar com esta realidade tão dura.”

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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