Covid-19 | ACES assume erro nos relatórios e Abrantes tem afinal mais 110 casos do que os divulgados publicamente (c/áudio)

O presidente da Câmara de Abrantes reagiu com surpresa à inclusão do município na lista de risco muito elevado, tendo afinal havido mesmo um erro na contabilização dos casos positivos no concelho, tendo mais de uma centena de casos sido omitidos nos mapas diários das autoridades de saúde. A falha foi assumida este domingo pela delegada de Saúde Pública do Médio Tejo. O município de Abrantes, em vez de ter 93 novos doentes por covid-19 no período compreendido de 6 a 19 de novembro, teve, afinal, 203 casos, ou seja, mais 110, números que justificam assim a entrada de Abrantes na lista laranja do mapa nacional e que não coincidem com os dados apresentados diariamente pelas autoridades de saúde. Recorde-se que, recentemente, no Entroncamento, mais de 60 casos haviam sido omitidos nos mapas diários e atualizados posteriormente, sendo a atualização dos dados motivo para um pedido de esclarecimento por parte da autarquia local.

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Esta atualização de mais 110 casos em Abrantes só esta segunda-feira vai entrar nos relatórios diários da Saúde Pública do Médio Tejo, tendo Maria dos Anjos Esperança dado conta do que se passou, assumindo os erros na divulgação pública da contabilização dos dados no período que viria  a definir os critérios para a listagem dos concelhos de acordo com o seu nível de risco. Para surpresa de todos, Abrantes foi classificado como município de alto risco, com mais de 480 casos por cada 100 mil habitantes, quando, pelos números conhecidos, Abrantes apresentava no dia 19, dia em que fechou o período dos 14 dias para efeitos de contabilidade, um rácio de 265 casos por cada 100 mil pessoas.

ÁUDIO DELEGADA DE SAÚDE, MARIA DOS ANJOS ESPERANÇA:

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O caso suscitou muitas dúvidas na opinião pública e havia efetivamente motivos para tal. É que Abrantes não tinha casos registados em número suficiente para integrar este grupo de risco “muito elevado” e manteve sempre valores na casa das duas centenas de casos por cada 100 mil habitantes (265 a 19 de novembro), tendo a população e autarcas sido surpreendidos no dia em que foi conhecida a listagem nacional que colocou Abrantes não no nível amarelo mas no nível laranja e com medidas restritivas mais elevadas.

Com a adição dos 110 casos em falta nos boletins, Abrantes passa a ter um rácio de 578 casos por 100 mil habitantes no período compreendido de 6 a 19 de novembro, ultrapassando os 480 casos e entrando assim na listagem dos municípios de risco muito elevado.

A inclusão de Abrantes na listagem não fazia sentido, à luz dos dados conhecidos, e o próprio presidente da Câmara Municipal deu conta da sua surpresa pelo sucedido nas redes sociais:

“Foi com surpresa que vimos o nome do concelho de Abrantes ser incluído nos concelhos designados como de “risco muito elevado”, na nova avaliação divulgada ontem [sábado] pelo Governo. Uma surpresa que se baseia no facto de no período temporal que serviu de amostra para a definição destas novas designações de risco termos um número de infetados muito abaixo do número de casos definidos pelo Governo para esta categorização de “risco muito elevado”.

De imediato entramos em contato com as entidades de saúde e com o Governo para expressarmos a nossa discordância relativamente a esta decisão e para que nos sejam prestados esclarecimento adicionais. Entendemos que a implementação de medidas são importantes mas devem de ser em conformidade com o número de casos o que não é o nosso caso. Estamos a defender a nossa comunidade, nomeadamente, o comércio local e a restauração, que em função desta restrição são muitíssimo penalizados”, escreveu no domingo Manuel Jorge Valamatos, tendo a delegada de Saúde assumido no mesmo dia que havia um erro na contabilidade dada a conhecer publicamente.

Abrantes. Foto: Arlindo Homem

Maria dos Anjos Esperança assegurou ao mediotejo.net que os novos casos de doentes agora divulgados (110) e não contabilizados em Abrantes foram acompanhados pelas autoridades de Saúde Pública, um erro que disse ter sucedido por via de notificações laboratoriais atualizadas de casos antigos e por dados que não foram contabilizados pelo ACES Médio Tejo, tendo assegurado que todos os dados relativos aos outros municípios estão corretos.

Câmara de Abrantes pede apuramento de responsabilidades

No mesmo dia em que pediu esclarecimentos, Manuel Jorge Valamatos foi contactado pela delegada de Saúde do ACES Médio Tejo a dar conta do sucedido, informação que o autarca de Abrantes divulgou nas redes sociais, pedindo também apuramento de responsabilidades.

“Em virtude dos diversos contactos feitos com as autoridades competentes a pedir esclarecimentos sobre a entrada de Abrantes num novo nível pandémico, a Câmara Municipal recebeu há momentos o esclarecimento da delegada de saúde local da DGS, indicando que o número de infetados ativos no concelho foram mal contabilizados nas últimas semanas por esta entidade”, deu conta o presidente da Câmara.

“O total de casos ascende às 203 pessoas, o que na ponderação de casos por 100 mil habitantes corresponde a 570 casos, ou seja, dentro dos limites em que se enquadram os concelhos de risco muito elevado. De acordo com a delegada de saúde local da DGS, “todos os casos de doentes no concelho de Abrantes, foram alvo de avaliação de risco e acompanhados os seus contactos de acordo com as normas da DGS, contudo não tinham sido traduzidos em números no Resumo Infográfico diário”, informou.

“Infelizmente é uma situação à qual a Câmara Municipal de Abrantes era alheia e sobre a qual já pediu o apuramento de responsabilidades”, concluiu Valamatos.

Presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos. Foto: mediotejo.net

O governo divulgou ao início da noite deste sábado a listagem dos concelhos de acordo com o seu nível de risco e Alcanena é o concelho do Médio Tejo com valores mais preocupantes, acima dos 960 casos por cada 100 mil habitantes, integrando o grupo de 47 concelhos de “risco extremamente elevado” e que terão medidas (ainda) mais apertadas.

É, aliás, o único concelho do distrito de Santarém com esta classificação, o que se justifica devido a um surto iniciado num lar de Minde, e que é responsável já por mais de 150 casos positivos de covid-19.

 

Logo a seguir, num grupo considerado de “risco muito elevado” figuram Abrantes, Constância e Ourém, com mais de 480 casos por cada 100 mil habitantes.

No segundo de quatro níveis de risco (“elevado”, com valores acima dos 240 casos por cada 100 mil habitantes (mas abaixo de 480), encontram-se Entroncamento, Tomar, Torres Novas, Sardoal e Vila Nova da Barquinha.

Abaixo da “linha vermelha” traçada nos 240 casos por cada 100 mil habitantes permanecem apenas quatro concelhos: Ferreira do Zêzere, Mação, Sertã e Vila de Rei.

Há agora quatro níveis de risco a considerar (moderado, elevado, muito elevado e extremamente elevado)

O presidente da Câmara Municipal de Constância, Sérgio Oliveira, também contestou nas redes sociais a inclusão do concelho no grupo de “risco muito elevado”, não encontrando “uma razão objetiva” para esta decisão. “Parece-me que se anda a sobrepor datas e períodos para a contabilização dos casos positivos. Já fiz chegar o meu profundo desagrado ao Governo da República e pedi esclarecimentos. Exige-se clareza e objetividade nas informações e nas comunicações que são feitas”, considerou.

Entretanto, o autarca de Constância já disse ter obtido os esclarecimentos solicitados. “O nosso Concelho foi considerado de risco muito elevado porque foram contabilizados os casos positivos de 6/11/2020 a 19/11/2020 ( tivemos 21). Não concordo com o período temporal que foi considerado e manifestei- o a quem de direito. Considero isto uma injustiça. O período a considerar deveria ter tido início a 8/11 ou a 9/11 . Estou muito preocupado com a economia local”, afirmou.

Segundo as contas diárias realizadas pelo mediotejo.net, com base nos dados oficiais das Unidades de Saúde Pública da região, Constância tem estado efetivamente acima dos 480 casos por cada 100 mil habitantes nos últimos dias (sendo de 496, neste momento), tal como Ourém (613). Já Abrantes não tinha casos registados em número suficiente para integrar este grupo de risco “extremamente elevado”: manteve sempre valores na casa das duas centenas de casos por cada 100 mil habitantes (228, ao dia de sábado).

Chamusca, Gavião e Ponte de Sor, concelhos “vizinhos” do Médio Tejo, surgem integrados no nível de risco “elevado”, com valores pouco acima dos 240 casos por cada 100 mil habitantes.

As medidas aplicadas aos concelhos de risco “muito elevado” e “extremamente elevado” (Alcanena, Abrantes, Constância e Ourém) serão as mesmas, a partir de 24 de novembro e por um período de 15 dias.

  • Proibição de circulação na via pública entre as 23h00 e as 5h00 nos dias de semana;
  • Proibição de circulação na via pública aos sábados e domingos entre as 13h00 e as 5h00;
  • Proibição de circulação na via pública nos dias 1 e 8 de dezembro entre as 13h00 e as 5h00;
  • Nos dias 30 de novembro e 7 de dezembro, os estabelecimentos comerciais devem encerrar às 15h00;
  • Ação de fiscalização do cumprimento do teletrabalho obrigatório.

Pontes “obrigatórias” nos feriados de dezembro

Nos dias 30 de novembro e 7 de dezembro serão suspensas as atividades letivas em todos os níveis de ensino, em todo o país. Nas mesmas datas vai haver tolerância de ponto na função pública e o primeiro-ministro apelou às entidades privadas para seguirem o exemplo e dispensarem os trabalhadores nesses dois dias, para se conseguir, com esses dois fins de semana alargados, ter “um mês de dezembro o mais tranquilo possível”.

Haverá também uma nova proibição de circulação entre concelhos nesses dias, mais concretamente entre as 23h de 27 de novembro e as 5h de 2 de dezembro; e entre as 23h de 4 de dezembro e as 5h de 9 de dezembro.

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Mário Rui Fonseca
A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.
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1 COMENTÁRIO

  1. A falta de uma ação mais fiscalizadora sobre o comportamento e circulação da população por parte das autoridades competentes possivelmente teria evitado um nível de risco tão elevado para Abrantes. Será que a autarquia não pode exercer alguma “pressão” para que as forças de segurança tenham mais intervenção? Tenho conhecimento de um caso concreto (Domingo, 15 de Novembro 2020), em que foi solicitada a intervenção da GNR para uma ação fiscalizadora num estabelecimento/café na freguesia do Pego, pelo facto de várias pessoas não usarem máscara nem distanciamento social, e por estranho que pareça e apesar do agente que atendeu a chamada ter respondido que “vamos enviar uma patrulha para averiguar o que se passa”, essa mesma patrulha nunca apareceu em tal estabelecimento. Por conseguinte, não é para admirar que o concelho de Abrantes se encontre no escalão de alto risco. É necessário entender que fiscalizar não significa repressão, mas sim a verificação do cumprimento das normas.

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