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Terça-feira, Setembro 28, 2021

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Covid-19 | “A pandemia quase que me tirou a vontade de viver”

O primeiro caso de covid-19 foi registado na região do Médio Tejo a 16 de março. Assinalando 1 ano de pandemia, preparámos uma série especial de artigos que serão publicados num Dossier Especial ao longo desta semana.

“Foi duro demais”, é a expressão que ecoa nas entrelinhas destas entrevista. Maria da Graça Sousa, 79 anos, reside numa instituição social no concelho de Ourém. Devido à pandemia, há um ano que não pode sair do espaço. Testou positivo para a covid-19 e viu morrer várias pessoas à sua volta. Os confinamentos não a convencem, pois não impediram que o vírus entrasse nos lares, nem que os mais vulneráveis morressem. O desgaste mental de um ano de isolamento levou-a ao extremo de pensar que, nestas circunstâncias, não valia a pena viver. Quiseram proteger os mais idosos, argumenta, mas ninguém pensou realmente neles.

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Natural do Porto, Maria da Graça foi professora primária em Angola, tendo regressado a Portugal dois anos antes do 25 de abril. Acabaria a trabalhar numa secção de Finanças até à reforma. Dos tempos de docência, lembra as crianças que chegavam à escola sem nunca terem pegado num lápis ou numa caneta e do processo de aprendizagem até finalmente conseguirem descodificar letras e números. “Era umas das coisas mais maravilhosas”, afirma.

Atualmente vive num lar, mas está perfeitamente lúcida e antes da pandemia levava uma vida ativa, fazendo caminhadas com regularidade. A instituição onde reside, não obstante seja um espaço devidamente regulamentado e tenha respeitado sempre as normas da Direção-geral de Saúde (DGS), viu-se a braços com dois surtos durante o último ano, o segundo inclusive após a toma da primeira dose de vacina. Maria da Graça testou positivo, mas esteve assintomática. Restou-lhe ficar confinada ao próprio quarto, durante várias semanas.

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Inicialmente, recorda ao mediotejo.net numa conversa por videoconferência, “pensei que era um vírus como outro qualquer, como é a gripe”, e que iria passar. “Nunca pensei que demorasse tanto tempo”, reflete.

A partir de 13 de março de 2020, lembra, os idosos ficaram confinados ao espaço da instituição. Maria da Graça saiu apenas uma vez no último ano, para assistir ao funeral da irmã (que não morreu de covid-19), tendo ficado 11 dias na casa de uma sobrinha para “desanuviar”. Depois regressou ao concelho de Ourém e nunca mais tornou a sair.

“Isto é um pesadelo”, desabafa, “um pesadelo para os idosos… nunca mais saímos daqui”. O pior período, salienta, foram as duas vezes que ficaram confinados apenas aos quartos, durante semanas, devido aos surtos. A maior circulação que pode fazer atualmente pela instituição não lhe retira a sensação de estar presa entre quatro paredes.

“Isto está-nos a atrofiar os membros. A cabeça nem se fala”, refere. “A pandemia quase que me tirou a vontade de viver. Nem me apetece arranjar-me porque não vale a pena, estamos metidos num quarto”, admite. “A gente perde o interesse por tudo com isto do confinamento”.

“Isto está-nos a atrofiar os membros. A cabeça nem se fala. A gente perde o interesse por tudo com isto do confinamento”

Dona Graça, como é tratada, considera que foi um erro lidar com todos os idosos por igual. No espaço onde vive há pessoas acamados, deficientes, outros mais velhos já acabados física e psicologicamente, e pessoas como ela, ainda lúcidas e ativas. “Somos todos tratados da mesma maneira”, constata, porque essas são as regras e a instituição tem que respeitar. “Acho duro demais para qualquer pessoa”, reflete, mas particularmente para quem já está no fim da vida.

Os idosos não são realmente “vistos”, reflete. “Pensou-se em protegê-los, mas não os protegeram nada”, constata. “É muito duro estarmos dentro de quatro paredes dia e noite”, sem poder ver nada nem conversar com ninguém. Sobretudo para quem, como ela, saía com frequência, fazia caminhadas, ia ao café, ao cabeleireiro. “Acho que foi duro demais”, reitera, “não estão a compreender bem o lado dos idosos que estão a ter um fim de vida muito amargo. Para termos assim um fim de vida, não vale a pena viver.”

No primeiro surto, que se resumiu a poucos casos positivos e assintomáticos, fez vários testes e nunca testou positivo. O segundo, que atingiu quase toda a instituição, sucedeu logo após a primeira dose de vacina. Dona Graça foi vacinada, testou positivo, mas nunca sentiu nada. “Só perguntava quantos tinham morrido”, comenta.

Do ano de pandemia, na prática, traz sobretudo o transtorno mental. “Emagreci imenso, envelheci imenso”, comenta, referindo que perdeu muito cabelo. “Dou muitas vezes comigo a falar alto, sozinha”, continua, “este isolamento tirou-me anos de vida”.

Viu morrer várias pessoas dos seus conhecimentos com covid-19, dentro e fora da instituição, a maioria de avançada idade. As mortes, não obstante a entristeçam, não a fazem mudar de posição. “A vida é assim.”

“Emagreci imenso, envelheci imenso. Dou muitas vezes comigo a falar alto, sozinha. este isolamento tirou-me anos de vida”

Numa entrevista realizada a 11 de março, antes da apresentação do plano de desconfinamento, Dona Graça apenas desejava que lhe permitissem ter um pouco de liberdade. “Gostava que abrissem os cabeleireiros”, dizia, explicando que gosta de andar arranjada e o confinamento tem dado azo a algum desmazelo. Gostava também de poder voltar a fazer algumas compras. Concorda ainda com a reabertura da escolas.

Terminou a conversa apelando a que pensem mais na posição particular dos idosos, a quem o isolamento pode fazer tanto mal como a covid-19.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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