Covid-19 | A dor das despedidas sem abraços nem beijos. O que muda nos funerais

Créditos: Getty Images

À dor da perda de alguém que nos é próximo junta-se agora a amargura das ausências, das distâncias, da falta de um abraço ou de um beijo. A pandemia da covid-19 veio alterar todo o ritual dos funerais e há quem tenha dificuldade em aceitar a nova realidade. O mediotejo.net foi falar com alguns agentes funerários para perceber o que mudou e o impacto que têm as novas restrições nas famílias dos defuntos.

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Qualquer despedida é dolorosa. E quando se trata de dizer o último adeus a alguém que nos é próximo, torna-se mais doloroso. Mais ainda nesta fase em que as restrições sanitárias impõem regras que vão contra aquilo que são as tradições e os rituais habituais nos funerais.

“Mudou todo o sistema”, começa por dizer Ricardo Mendes, da Funerária Mendes, de Tomar. “Agora não há velórios, não há missa, não há preparação do corpo, não há urna aberta, há limitações de pessoas nos cemitérios, que têm de estar distantes entre si, o corpo sai diretamente ou para o cemitério ou para o crematório”, explica. Uma nova realidade que, para quem é familiar do defunto, tem dificuldade em aceitar. Falta o lado humano, afetivo, na hora da despedida. Tudo é mais frio, mais distante.

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Apesar da resistência de alguns familiares, Ricardo Mendes refere que, a pouco e pouco, vão percebendo a necessidade das novas regras. Opinião que é corroborada por Vitor Freitas, da funerária A Nova, de Tomar.

“Limitamo-nos a cumprir regras com que as famílias, queiram ou não, terão de concordar. Nem sempre é fácil os familiares aceitarem isso. É mau para todos nós que andamos a fazer um esforço a nível geral para conseguirmos eliminar esta situação”, explica Vitor Freitas.

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Há restrição do número de pessoas nos funerais, devido à pandemia de covid-19. Foto: mediotejo.net

“Compreende-se que as famílias gostavam de se despedir do seu ente querido, mas as limitações começam logo nos hospitais e nos lares onde as visitas estão proibidas”, lembra o empresário.

Aquilo que era um ritual que durava, por norma, dois dias (velório e funeral), resume-se a poucos minutos com as cerimónias fúnebres celebradas pelo padre de forma rápida e feitas junto à sepultura.

A abertura da urna antes da inumação para que os familiares pudessem fazer a última despedida, está atualmente fora de questão, reforçam os dois empresários.

“As pessoas estão a colaborar muito bem e vão compreendendo. Mas outras nem por isso”, refere Vitor Freitas dando o exemplo de uma filha que se queria despedir da mãe e não aceitava que recusassem a abertura da urna.

Os cemitérios só abrem para os funerais. Foto: mediotejo.net

Para as funerárias, também alguns procedimentos mudaram. “É chegar ao hospital, tratar da documentação, mandar abrir a sepultura e combinar com a família e com o padre às tantas horas no cemitério”, explica Vitor Freitas.

No hospital, o corpo já está dentro de um sudário (saco) e os funcionários das agências, devidamente equipados e protegidos, colocam dentro de outro saco. Não há os habituais preparos dentro da urna. Apenas a roupa do defunto é colocada por cima do corpo.

Em certos casos ainda é possível organizar um cortejo fúnebre de carro, como nos relata Vitor Freitas. Aconteceu no funeral de um homem que morreu no hospital de Abrantes. A família, da freguesia de S. Pedro de Tomar, esperou pela chegada da carrinha mortuária junto à barragem de Castelo do Bode e daí formou-se o cortejo fúnebre de carro até ao cemitério de S. Pedro.

Aqui chegados, nem todos podem entrar. Por decisão da Junta de Freguesia de S. Pedro, no máximo são admitidas 25 pessoas ao mesmo tempo dentro do cemitério. Nos dois cemitérios da cidade, a restrição ainda é maior, esse número é limitado a 10 pessoas que se devem manter a uma distância de pelo menos dois metros umas das outras, conforme deliberou a câmara.

No respetivo edital acrescenta-se que “nos funerais de indivíduos confirmados com SARS-CoV-2 (COVID19), por orientações da Direção-Geral de Saúde, não é permitida a entrada de pessoas”. “Não sei onde é que os agentes funerários e os coveiros se encaixam”, ironiza Ricardo Mendes.

Seja como for, a participação nos funerais desde que foi declarado o estado de emergência, é mais reduzida. “A maior parte das pessoas já sabem destas restrições e optam por telefonar à família e explicar a sua ausência ao mesmo tempo que deixam a habitual mensagem de pêsames”, faz notar Vitor Freitas.

Há menos pessoas nos funerais, mas mais flores. Foto: mediotejo.net

O negócio das flores, que se poderia pensar estar a ser afetado por estas contingências, regista um crescimento, confirma Ricardo Mendes que, a par da agência funerária, gere uma loja de flores na mesma rua. É que as pessoas evitam ir aos funerais mas fazem questão de encomendar um ramo de flores com uma mensagem de pêsames.

Poder-se-ia pensar que, sendo os funerais mais simples e rápidos, seriam mais baratos. Mas tal não corresponde à verdade, como nos confirmam os agentes funerários com quem falámos. Se por um lado se poupa nos preparos da urna, no aluguer da casa mortuária e na missa, há gastos acrescidos com os sudários e o material de proteção para os profissionais. “Fica ela por ela”, reconhecem.

A pandemia promete durar e os hospitais preparam-se para um aumento do número de casos. Os empresários das agências funerárias não sentem que haja maior índice de mortalidade nesta altura, mas estão ansiosos que “tudo isto acabe” e que a vida (e a morte) possa voltar à normalidade.

Cemitério de Marmelais, Tomar. Foto: mediotejo.net

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