Convento e Igreja de Santa Maria da Caridade – Sardoal – Parte II

Na entrada da igreja conventual, ao lado direito,situada na galilé, encontramos a pequena capela dos Senhor dos Remédios, tendo esta sido construída por volta de 1750. A sua localização primitiva era no interior do Convento, ao pé dos claustros, junto à cozinha dos frades.

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Possuindo um pequeno retábulo em talha dourada, é característica pelos pequenos apontamentos de folhas de acanto e alguns anjos tocheiro. No trono situa-se a imagem do Nosso Senhor dos Remédios, imagem do Século XVIII de roca, idealizada para ser utilizada em procissões, sendo a mesma de vestir, com trajes de tecido, com membros articulados, sendo só esculpidas as partes anatómicas que ficam à vista. Maioritariamente têm olhos de vidro, ou cristal e cabeleiras sintéticas ou até mesmo verdadeiras.

MARIAA imagem representa Jesus a caminho do Calvário, carregando o madeiro. É a imagem com mais devoção dos Sardoalenses, sendo inúmeros os fiéis que diariamente se deslocam ao local para orar junto da mesma. Em tempos idos o povo do Sardoal, em anos de muita seca, retirava a imagem do altar, convictos que desta forma choveria.

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No corpo da capela há um revestimento azulejar com cenas da paixão de Cristo, do Século XVIII, tendo essa encomenda sido feita juntamente com o retábulo e a imagem. Este conjunto de azulejos é de mestria pictórica exemplar, quer pelo tratamento anatómico das figuras, quer pela abordagem do tema em si. Estamos ainda em crer que por estas particularidades, os azulejos situados na capela-mor, da Igreja da Misericórdia do Sardoal são da mesma autoria.

Falemos agora da Sacristia, espaço arquitetónico normalmente anexo à igreja, onde são guardados os paramentos sacerdotais e as alfaias litúrgicas. É ainda nesse local que os sacerdotes se paramentam e se desparamentam, para os atos religiosos. Não estamos perante uma sacristia vulgar, mas sim perante uma requintada obra de arte, datada de 1720.

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Os tetos são em caixotão, com frisos em folha de ouro e motivos florais e vegetalistas, geometricamente enquadrados no espaço. Com um imponente arcaz decorado ao gosto nipónico, possui assim, nas suas portas e molduras, flores de pessegueiros do Japão, tal como aves e pagodes, típicos da paisagem japonesa. O espaldar em talha dourada tem seis pinturas a óleo sobre tábua, quatro do Século XVII e duas do Século XVI.

À entrada, do lado esquerdo do espaldar encontramos uma pintura de São João Batista, do Século XVII, com respetivo cordeiro, um riacho, simbolismo do batismo e uma paisagem fundeira; Em seguida está a pintura da Assunção de Nossa Senhora aos Céus, Século XVI, com a sua forma doce e melancólica, ajudada por anjos na sua subida aos Céus; Temos ainda duas pinturas que iconograficamente representam dois santos Bispos, cuja identificação é ainda desconhecida; Uma pintura representando a Natividade, do Século XVI, fantasticamente executada, cujas figuras principais são Maria, José e o menino Jesus, de um tratamento anatómico e expressões só ao alcance de um mestre ou de uma escola; Por último a pintura de São Jerónimo, do Século XVII, com a sua caveira, leão e crucifixo representativos deste santo, apresentando ainda uma expressão facial de quem solicita auxilio divino.

É ainda de referir que nenhuma destas pinturas são originais deste espaldar, porventura terão vindo de alguma capela ou igreja do Sardoal que não chegou até aos nossos dias.

Quanto à sua atribuição, as duas pinturas do Século XVI foram executadas por Diogo de Contreiras, pintor maneirista português ativo entre 1521 e 1562 e que era até algum tempo atrás identificado como o Mestre de São Quintino.

Ao fundo da sacristia temos um contador amituário, embutido na parede que servia para guardar os amitos dos frades celebrantes. É do Século XVIII, com pintura em fingimento de mármore, em tons azuis cobalto e verde. No lado direito da sacristia encontramos uma credência soberba do Século XVIII, em mármore vermelhão Sintra e em cima da mesma repousa uma caldeirinha de água benta, fabricada no Norte da Europa, do Século XVII, bem como um turíbulo e uma naveta do Século XVIII, todas estas peças em liga de bronze.

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Contador amituário, embutido na parede que servia para guardar os amitos dos frades celebrantes

Ao percorrermos estes espaços sentimos o recolhimento da alma, a alegria do simples e do belo. O ar à volta é de fragrâncias que nos transportam aos mais distantes lugares. Inala-se o aroma a flores de pessegueiro, ouvem-se preces e risos imaginários dos religiosos.

Os olhares suspensos desvanecem na luz azul das paredes. São  templos são vivência, onde se ouve o vento num zumbido alegre, reportando-nos aos mares e oceanos navegados pela vontade do Homem.

É neste reencontro de culturas que este convento preserva a memória e os factos perduram no tempo.

* Visita guiada, textos de João Soares e Maria Jorge Rocha, Técnicos Superiores de Conservação e Restauro do município de Sardoal

Fotos: Paulo Sousa

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