“Contraordenação grave? Mesmo?”, por Hália Santos

Hoje tenho mesmo que falar sobre uma coisa que me irritou valentemente! Fiquei tão irritada que até as lágrimas me vieram aos olhos.

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Força! Estou aqui para te ouvir. Mas não penses que te passo a mão pelo lombo. Se não concordar contigo, logo perceberás!

É mesmo por isso que falo contigo, sobretudo sobre assuntos que podem ser vistos por diferentes perspetivas. Por acreditar que o mundo não é preto nem branco, por achar que há muitos tons de cinzento, é que gosto de ter estas conversas contigo.

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Então o que é que te irritou valentemente?

Parece que cometi uma contraordenação grave a conduzir. Fui apanhada numa reta onde circulo várias vezes por semana, ao longo dos últimos 15 anos, e onde nunca vi uma situação de perigo. Imagina tu que o meu ‘crime’ foi circular numa estrada destas a 76 kms por hora! Tiraram-me dois pontos na carta, paguei 120 euros e a punição ainda inclui um mês de inibição de condução.

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Imagino que seja a reta de Alferrarede, em Abrantes, em direção ao Rossio ao Sul do Tejo, depois da rotunda das oliveiras… Mas toda a gente sabe que eles põem lá a câmara. Como é que caíste nessa? Não sabias?

Claro que sabia. Até já fui lá multada, a 72 kms por hora, há uns quatro ou cinco anos, no meu primeiro dia de férias. Estava a iniciar a viagem para o Algarve. Já na altura fiquei furiosa porque me pareceu aquilo que toda a gente sabe… Desde aí que até tenho cuidado. Mas verdade é que os carros embalam e que, até inconscientemente, um condutor ou condutora responsável sabe que aquela reta não oferece qualquer tipo de perigo. Não há casas, não há pessoas a circular nas bermas, a estrada é larga, tem visibilidade total…

Eu percebo-te! Mas a verdade é que ali o limite é de 50 kms por hora. A tolerância é de 20 kms por hora. Já beneficiaste disso. Pelos vistos, duas vezes…

Verdade, mas uma das minhas questões de indignação reside precisamente aí: o limite de 50 kms por hora, naquele sítio, é ajustado? Circular ali ou circular entre a antiga escola primária de Alferrarede e a zona industrial de Abrantes é a mesma coisa? Os perigos são os mesmos? As condições são as mesmas? Não! Nessa estrada, sim, já vi inúmeras situações de perigo, imensos carros mal estacionados, muitos outros em excesso de velocidade, várias ultrapassagens perigosas, muita gente a caminhar fora do sítio! E nunca vi ninguém a ser multado! É por isso que fico irritada! Nem sequer vi ações de pedagogia, de motivação para condução responsável. É isso que faz falta!

Sabes, dizem que são as estatísticas. É fácil apanhar alguém a mais de 70 kms por hora numa reta que não apresenta perigos… E a pedagogia só dá resultados a longo prazo.

Pois, parece que são as estatísticas e a necessidade de aconchegar os cofres do Estado. A questão é que se eu tivesse sido multada numa situação de clara irresponsabilidade, calava-me e pronto! Mas não me parece que tenha sido nada disso… E não tenho feitio para ficar calada.

Sim, também me parece que é uma obrigação cívica denunciar o que está mal, mas nem toda a gente tem vontade ou capacidade para o fazer. Por isso concordo que tornes pública a tua indignação. Talvez chegue a algum lado…

É isso. Mas também tenho que frisar que os agentes que ali estão simplesmente cumprem ordens. Mesmo que não concordem, cumprem. E eu até aceito que os condutores portugueses tenham que ser mais disciplinados e mais responsabilizados. Até porque já fui vítima da irresponsabilidade extrema de uma condutora que parou o carro na faixa da esquerda da A23, de noite, com o triângulo colado ao carro. Dizia que estava avariado e não estava nada. Pura incompetência para conduzir. E eu, ou lhe batia por trás, ou me enfiava debaixo dos camiões que iam na faixa da direita. Bati-lhe claro! E não ia em excesso de velocidade, como ficou provado em tribunal. Por acaso, o juiz até encontrou uma solução bastante razoável para o acidente, justiça seja feita! Mas as pessoas incompetentes continuam a conduzir!

Para além das pessoas que claramente não deveriam ter carta de condução, ainda temos que nos cruzar, todos os dias, com aqueles que conduzem como loucos para descarregar as frustrações do dia a dia… A maioria ainda deve ter os pontinhos todos na carta. Quanto mais não seja porque sabem muito bem onde é que podem ser apanhados!

De certeza que não são apanhados a 76 kms por hora na reta de Alferrarede. Até porque sabem que se forem a 75 kms a multa é metade e não ficam sem pontos na carta. O que me faz voltar à questão inicial: faz algum sentido que uma velocidade destas, numa estrada como aquela, seja considerada uma contraordenação grave? Sinceramente, acho que não. Claro que estou irritada por te sido comigo, mas consigo olhar para a situação com distanciamento e concluir exatamente o mesmo. Não coloquei ninguém em perigo e fiquei sem dois pontos; quem for apanhado a conduzir embriagado, colocando, de facto, muita gente em perigo, fica sem três pontos. Não te parece claramente desproporcionado?

Parece! E mais importante do que multar para fazer boa figura nas estatísticas seria que quem manda decidisse colocar os agentes a explicar aos condutores, por exemplo, como se circula nas rotundas de acordo como no Novo Código da Estrada!

Ora aí está! E se precisam de estatísticas, nessas situações também conseguem multar, certo?

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2 COMENTÁRIOS

  1. Esta é uma questão que me traz sempre alguma estupefacção, mas que rapidamente a encaro com uma anormal normalidade pelo que me deparo pelas estradas fora. As pessoas “tiram” a carta porque é obrigatório… A partir daí ignoram as regras sejam ela as mais “básicas” e “inocentes” e demasiadamente frequente ignoram as mais gravosas. A maior gravidade disto é que o fazem conscientemente, sim, tal como nesta crónica a condutora sabia o limite de velocidade do local, e se não fosse por si só bastante, até sabia que é habitual ali tirarem uma “fotos”. Mas reitero, sabia que o limite era e é 50km/h isso deveria ser o suficiente para respeitar as regras. Deveria, mas não é… Nem desta condutora, nem da grande maioria dos condutores, onde me incluo obviamente, não sou nenhum “santo” do asfalto 😉 e nesse mesmo local que diz não ser perigoso, já apanhei alguns sustos( por minha culpa, pois não guardei uma a distancia de segurança e circulava a uma velocidade acima do estabelecido), desde veículos a travar de repente para entrar para os “chineses” ou “elefante azul”. Não é um local assim tão pouco perigoso. A normal irritação daqueles autuados, leva a esta linha de pensamento da qual discordo, mas como já disse não me espanta que aconteça, “no local “X” é só infractores e ninguém é autuado…” passa por lá os seus dias e noites para saber estes factos certamente, “os policias deveriam era fazer prevenção, acções de pedagogia…” é a meu ver como ensinar a missa ao padre, as pessoas, os condutores na sua grande maioria conhece as regras gerais e mais normais do código da estrada, escolhem não as cumprir, ignoram-nas conscientemente. E quando a “porca torce o rabo” vem a “lenga lenga” do forrar os cofres do estado, da caça à multa, das estatísticas, etc… A única estatística que se deveriam lembrar é a de mortos na estrada, que embora esteja gradualmente a descer ao longo dos anos, esta continua com mais de um morto por dia nas estradas portuguesas. E esta estatística está-se nas tintas para o facto de se infringiu mais ou menos que um condutor alcoolizado, ou se circulava a 76km/h ou a 150Km/h, ou se a sua infracção tira mais ou menos pontos na carta. Assumiu que conscientemente infringiu e foi autuada, o que é que há de anormal aqui…? Esconder um “erro” nosso com os “erros” de outros é que não me parece muito normal. Mas como já disse e infelizmente esta é uma linha de pensamento de tal forma enraizada que parece normal.

  2. Coitadinha!!!! Uma professora de comunicação social arranjar argumentos por ter sido multada! (licenciada, doutorada… o dom da escrita não lhe faltar!) e revoltada arranja muitos argumentos, até aqueles que pessoas com pouca cultura arranjam, “porque não vão os agentes para as rotundas explicar como se anda na estrada?!! “(só falta os agentes darem aulas de condução!) A verdade é que a sinalização está lá, bem ou mal é para cumprir.

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