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Domingo, Agosto 1, 2021

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“Conteúdos pagos para ter informação de qualidade?”, por Hália Santos

Queremos informação de confiança, credível, rigorosa, equilibrada e verificada? Sim! Até que ponto estamos dispostos a ser ‘vendidos’ para a ter? Sim, esta é a questão essencial. Habituámo-nos a conviver com a publicidade, encarando-a como um mal menor para termos canais de televisão e de rádio de acesso livre, para termos jornais e revistas em que apenas pagamos uma pequena parte dos custos de produção e, mais recentemente, para termos informação e entretenimento gratuitos nos computadores, telefones e afins.

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A qualidade em Comunicação Social é um conceito discutido desde sempre. Podem fazer-se aproximações teóricas sobre os conteúdos que supostamente as pessoas deviam receber para que a Comunicação Social cumprisse o seu tradicional papel de informar, formar e entreter. Podemos tentar encontrar fórmulas segundo as quais uma determinada quantidade de reportagens, mais equilíbrio nos painéis de comentadores, mais entretenimento não ofensivo, mais conteúdos educativos, mais, mais e mais coisas deste tipo dariam ‘aquilo que as pessoas deveriam ver, ouvir ou ler’. Mas uma qualquer fórmula deste género é sempre o resultado daquilo que alguém pensa que é o melhor para os outros. O que será sempre discutível.

Enquanto se andava a discutir estas questões da qualidade e daquilo que se deve oferecer aos consumidores de Comunicação, eis que a questão passa a ser desenvolvida num outro patamar. Se até há pouco se serviam conteúdos de bandeja, agora é que não se pode oferecer mesmo nada a custo zero. Ou os órgãos de Comunicação Social sobrevivem à custa do tradicional modelo sustentado na publicidade direta (cada vez mais em falência) ou produzem e apresentam conteúdos sob outras formas. E o problema reside aqui. Como sobreviver, mantendo uma génese jornalística, apresentando conteúdos que, não sendo informativos na tradicional aceção da ideia, parecem sê-lo? Até que ponto é que os atuais jornalistas estão dispostos a aceitar entrar noutros caminhos, que até há muito pouco tempo lhes eram completamente vedados mas que, agora, parecem ser a única solução? E como separam conteúdos jornalísticos de conteúdos encomendados?

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“Se queres informação de qualidade, ao lado tens que levar com outros conteúdos pagos por alguém, que suportam os ordenados dos jornalistas e todos os outros custos de produção de um órgão de Comunicação Social.” Parece óbvia, a solução. Mas, mesmo que assim seja, não pode ser o ‘vale tudo’.

Há mais de vinte anos, quando se começou a generalizar a Assessoria de Imprensa, que os jornalistas foram sendo confrontados com as prendas, viagens ou refeições para escrever sobre determinada empresa, instituição, produto, campanha, candidato, partido, clube… A gestão destas ‘pressões’ nunca foi fácil. Mas o Código Deontológico dos Jornalistas é claro. Como a respetiva ética profissional também deveria ser. Para, de alguma forma, balizar o que é aceitável e o que não é aceitável, houve quem determinasse limites (por exemplo, 150 euros) para o valor das prendas que um jornalista poderia receber. Até esse valor considera-se uma atenção, uma simpatia, mais do que isso seria suborno.

Agora, o ‘branded content’ (conteúdos com forte componente criativa e emocional concebidos por equipas de jornalistas e especialistas em audiovisual, tecnologias e estratégias de marketing, abordando assuntos relacionados com o produto, marca ou serviço que paga esses mesmos conteúdos) generalizam-se e parecem ser a única forma de viabilizar projetos jornalísticos. Esta é já uma prática em órgãos de Comunicação Social de referência, como jornal norte-americano New York Times. Produziu, por exemplo, conteúdos sobre a vida das mulheres nas prisões para promover uma nova temporada de uma série televisiva sobre o tema. E também conteúdos sobre a evolução da tecnologia relativa ao fogo para promover um aparelho que deteta incêndios.

Esta pode ser uma resposta à asfixia financeira. Mas terá que ser feita com profissionalismo e transparência. Ou seja, os conteúdos podem ser bons, ou mesmo muito bons, mas é essencial que o consumidor saiba que quem os está a financiar tem interesses específicos. Se estes conteúdos forem bem feitos e bem promovidos vão ser vistos. Se forem vistos, quem paga fica satisfeito. E quem os produz pode continuar a fazer o seu trabalho jornalístico, nos espaços próprios, com confiança, credibilidade, rigor, equilíbrio e de forma verificada.

Não diria isto há uns tempos, mas preferia continuar a poder ler o jornal “i” com conteúdos deste tipo e com tudo o resto, que aquela equipa foi fazendo ao longo dos últimos anos. Perder um produto inovador que constituiu uma lufada de ar fresco no panorama da Comunicação Social portuguesa por questões financeiras é duro, por todas as razões e mais alguma, desde a questão da democracia, até ao pluralismo e à diversidade, passando pela situação concreta e difícil dos profissionais que serão despedidos. Mas preferia, de longe, que o jornalismo de qualidade se conseguisse impor e que os consumidores de informação percebessem que a melhor solução seria estarem dispostos a pagar por ela em vez de serem ‘vendidos’ para a ter…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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