Dia dos Monumentos e Sítios: Em Constância sinos e chocalhos animam Quinta D. Maria em Montalvo (C/VIDEO)

Para assinalar o Dia dos Monumentos e Sítios, a Câmara Municipal de Constância realizou no sábado, dia 16 de abril, a iniciativa “Sinos, chocalhos, campainhas e guizos – sonoridades de outros tempos”, evento que decorreu na Quinta da D. Maria, na freguesia de Montalvo.

PUB

Uma tarde marcada por apontamentos musicais com o chocalhofone, composto por 32 chocalhos, pelo Carrilhão LVSITANVS, composto por 63 sinos (Associação CICO) e ainda uma intervenção de Custódio Rodrigues, do Rancho Folclórico “Os Camponeses de Malpique”, que relembrou as sonoridades de outros tempos e a forma como os sons marcavam o ritmo das populações.

CONSTANCIAAna Elias, carrilhanista, disse ao mediotejo.net que “a génese do chocalho e do sino confunde-se um pouco, em termos históricos, porque quem construía chocalhos também construía sinos, para as ovelhas ou para as vacas”.

PUB

“Enquanto instrumento musical é que funcionam de forma diferente”, esclareceu, enquanto tocava ora chocalhofone ou no carrilhão.

CONSTANCIA1Anabela Cardoso, responsável pelo Museu dos Rios e das Artes Marítimas, e coordenadora da atividade no âmbito do Dia dos Monumentos e Sítios, disse ao mediotejo.net que a Quinta D. Maria já tinha bastante peças, que ali estão em exposição, e as sonoridades, como os chocalhos, as campainhas, os sinos e os guizos, “mais do que o objeto em si, o que se pretende é olhar para o significado desses sons, que as pessoas conheciam e que hoje se perdeu”.

PUB

Paralelamente às atividades musicais, no celeiro da Quinta esteve patente ao público uma exposição de objetos etnográficos representativas de algumas das atividades agrícolas exercidas pela população de Montalvo, com destaque especial para a exposição de chocalhos, campainhas e guizos, utensílios que são testemunhos vivos de memórias e de uma cultura identitária que a autarquia de Constância pretende recolher, preservar e divulgar.

CONSTANCIA4Manuela Arsénio, adjunta da presidente da Câmara Municipal para as áreas do património e museologia, disse, por sua vez, que “o objetivo da autarquia é diversificar as atividades pelas três freguesias do concelho”, sendo que, considerou, “a arte chocalheira, enquanto património imaterial cultural da Humanidade, se interliga com a Quinta D. Maria e com o futuro Museu Quintas do Tejo”, que para ali se perspetiva.

“Com esta atividade não vamos recuperar nenhuma parede da Quinta mas procuramos manter o espírito vivo para que, com estas atividades, irmos reconstruindo e requalificando este novo espaço em Montalvo”, destacou.

A história da Quinta Dona Maria

A Quinta Dona Maria, em Montalvo, no início do século XX, era uma das quintas mais prósperas do concelho de Constância. Composta por grandes propriedades na região, a Quinta Dona Maria dedicava-se ao cultivo do olival, da vinha e dos cereais. Com uma agricultura tradicional, ocupava grande número de homens e mulheres de Montalvo.

Os edifícios agrícolas da Quinta Dona Maria situam-se em frente à casa solarenga onde viviam os proprietários. Estes edifícios passaram a pertencer, no início do século XX, a Dona Maria de Serpa Pimentel, casada com Fernando Falcão Themudo. Por falta de descendência, as propriedades foram desmembradas, sendo a casa da família deixada à diocese de Portalegre e a Quinta Dona Maria à família Falcão Themudo.

DONA1
D. Maria Teresa Falcão, D. Adelaide Themudo de Sommer, Dona Maria de Serpa Pimentel Themudo e D. Helena Themudo de Castro

A quinta entrou em decadência na segunda metade do século XX, tendo sido o lagar o último a fechar ao público, nos anos 80. Tinha sido modernizado alguns anos antes, uma vez que a quinta sempre teve extensos olivais e muita azeitona, não faltando, por isso, matéria-prima para o lagar.

Há poucos anos, a Quinta Dona Maria passou a ser propriedade do município de Constância, que o transformou no Museu Quintas do Tejo, com o intuito de preservar a memória das antigas atividades agrícolas, através dos utensílios, equipamentos e ferramentas outrora utilizados pelas populações e que são testemunhos vivos de um tempo e espaço únicos e de uma cultura identitária que tende a desaparecer.

Dona, por extenso, porque, segundo dizem as gentes de Montalvo, seu pai, D. João, ainda era de sangue nobre. Dona Maria toda a sua vida demonstrou ser uma mulher muito religiosa, tanto que as pessoas de Montalvo recordam-na a dar a doutrina, catequese, às crianças numa casa da sua propriedade. Quando estas crianças faziam a primeira comunhão, pelo S. João, oferecia às meninas um vestido e aos meninos uma camisa do mesmo tecido de flanela e ainda lhes oferecia um almoço no telheiro do pátio da sua Quinta, constituído por sopa, carne de borrego guisado com batatas e muita melancia.

Também no dia de Todos os Santos era muito generosa com as crianças de Montalvo. Já os esperava e dava os bolinhos no pátio à frente da sua casa, hoje Convento das Clarissas, com a ajuda das criadas. As crianças entravam no pátio e faziam fila, esperando cada uma pela sua vez para receber os bolinhos, que, geralmente, compreendiam uma tigela de castanhas, nozes, tremoços, uma romã, uma broa, marmelos, passas e, às vezes, até um tostão.

Casada com Fernando Falcão Themudo, nunca tiveram filhos. Daí os seus bens passarem para os sobrinhos do marido, da família Falcão Themudo. Já com as propriedades entregues a esses familiares, passava longas temporadas em Lisboa, regressando a Montalvo unicamente no verão. Porém, regularmente, um carro da família transportava produtos da quinta para a casa onde vivia em Lisboa, como azeite, vinho, ovos, aves, etc.

DONA2
D. Maria Felismina Falcão, D. Manuel Falcão (Bispo de Beja), Dona Maria de Serpa Pimentel Themudo e D. Adelaide Themudo de Sommer

Dona Maria era uma pessoa muito querida em Montalvo, sendo recordada, ainda hoje, como alguém que tinha sempre algo para dar aos mais pobres e mais necessitados, bastando bater à sua porta.

Fernando Falcão Themudo faleceu em 1955, com 72 anos e Dona Maria viria a falecer em 1986, aos 89 anos.

O Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, que se assinala a 18 de abril, visa promover os monumentos e sítios históricos e valorizar o património, ao mesmo tempo que tenta alertar para a necessidade da sua conservação e proteção.

Fotos: CM Constância

 

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here