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Sábado, Julho 24, 2021

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Constância: Ser Irmã Clarissa do Desagravo

A maioria das crianças de seis anos querem ser princesas, bombeiros, cantores, aviadores, bailarinas ou astronautas, mas uma menina do Louriçal (Pombal) decidiu que queria dedicar a vida a “ajudar os outros”. Sentiu a vocação como “um dom tão claro” e nunca mais a abandonou. Essa menina é hoje a Madre Abadessa das Irmãs Clarissas do Desagravo no Mosteiro de Nossa Senhora da Boa Esperança em Montalvo (Constância), um dos doze existentes no país dedicado a esta ordem franciscana mendicante em Portugal.

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A Irmã Maria, assim é conhecida a Madre Abadessa, cedo soube que “queria tudo” e não se tratava de uma birra típica da idade. Inicialmente pensou ser missionária em África, mas não lhe pareceu suficiente porque “se fosse professora só podia evangelizar nas escolas, se fosse enfermeira só podia evangelizar junto dos doentes, se fosse itinerante era muito vago…”. O “tudo” era uma causa nobre. “Não queria só os meus pais e os meus irmãos como família, eu queria que todo o mundo fosse a minha família”.

Não soube como materializar o dom até a “resposta” chegar aos dez anos. Iria integrar a Comunidade das Irmãs Clarissas do Desagravo no Convento do Louriçal (Pombal), que entrou no terceiro século de existência em 2009. A decisão estava tomada.

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A mãe encarou o pedido como “um sonho de criança” e a Irmã Maria deixou o tempo passar, mas a resiliência manteve-se durante a adolescência. Lutou contra os pais, os irmãos (dois rapazes e uma rapariga), o pároco local e até a própria Madre Abadessa do Convento do Louriçal, que a achavam demasiado nova para entrar no convento.

A história quase parece o enredo de uma peça de Shakespeare, em que os amores nunca são aceites. No caso da Irmã Maria, existe uma “pequena” diferença. A adolescente não estava apaixonada por rapaz com quem se tinha cruzado, mas sim pela fé e a entrega total aos outros. A jovem não queria conquistar o mundo, queria simplesmente ajudá-lo.

Fez uma greve de fome e os pais deixaram-na entrar no convento convictos de que “regressaria dentro de uns meses”. Enganaram-se. Uma vez lá dentro, confirmou que queria seguir a Regra de Santa Clara de Assis e depois da formação fez “o compromisso perpétuo”, aos 24 anos, que implica os votos de obediência, pobreza, castidade e clausura.

Santa Clara antes de ser Santa foi Clara de Offreduccio e, tal como a Irmã Maria, “lutou para ser pobre”. Nascida em Assis, Itália, em finais do século XII no seio de uma família nobre, cedo “se fartou de viver em palácios” e optou pela pobreza evangélica professada por Francisco de Assis. Foi este que na noite de 18 de março de 1212 a recebeu na Igrejinha de Santa Maria dos Anjos, lhe cortou os cabelos e cobriu lhe a cabeça com um véu, consagrando-a Esposa de Cristo.

No século XIII não existia uma ordem feminina que seguisse os valores de São Francisco e a luta de Santa Clara durou a vida inteira, tornando-se na primeira mulher a escrever uma Regra (Forma de Vida). Viria a morrer a 11 de agosto de 1253, um dia depois do Papa Inocêncio IV lhe entregar a sua Regra aprovada, e canonizada dois anos depois pelo Papa Alexandre IV.

Quando perguntamos se se revê na faceta lutadora da Santa responde que sim. Santa Clara de Assis “não cedeu, era aquilo que ela queria e lutou” e acrescenta: “Hoje não é fácil optarmos por esta vocação” porque a maioria das pessoas “não compreende”. Ser Irmã Pobre é uma opção de vida. “Nós estamos aqui porque queremos estar.” O desapego dos bens materiais é encarado como uma missão. Para a Irmã Maria “a pobreza é a pessoa estar livre e disponível”. As mãos querem-se “vazias” para “levar as pessoas e as suas necessidades a Deus” e trazer-lhes o que Ele entender.

Aficionada de História, conta-nos que a casa senhorial onde nos encontramos, antiga Casa de Montalvo, foi cedida à Diocese de Portalegre pela Dona Maria Serpa Pimentel, casada com Fernando Falcão Themudo e conhecida na vila pela devoção religiosa e generosidade. As Irmãs começaram a habitar o espaço a 5 de outubro de 1980, passando a designar-se Mosteiro de Nossa Senhora da Boa Esperança.

Na altura, oito das 27 Clarissas do Convento do Louriçal mudaram-se para Montalvo. Ela chegou em 1993, no ano em que foi eleita Madre Abadessa por votação para o primeiro mandato de três anos. Ao longo de mais de duas décadas, o cargo que Santa Clara de Assis apelidava de “a serva de todas” foi sendo intercalado com os mandatos de outras Irmãs do mosteiro, cujo número oscilou até voltar ao mesmo do início. A mais velha está quase a fazer 90 anos e a mais nova tem 50, mas poderia ter 17/18.

Estas mulheres vestidas com hábitos de cor castanha não passam os dias a rezar em silêncio pelos corredores. Acordam às 6h30 da manhã nos quartos compostos por uma cama, uma mesinha de cabeceira, uma mesa “para escrever” e um crucifixo e às 07h00 seguem para a capela, onde iniciam o primeiro dos vários momentos de “oração comunitária” do dia. Além destes tempos de oração, com intervalos médios de três horas, intercedem junto do “Santíssimo Exposto, onde está sempre uma irmã”.

Quando recolhem aos quartos, por volta das 20h00, o dia incluiu ainda a “Leitura de Deus” e “dos Escritos de Santa Clara”, assim como a formação e o trabalho. Este último, segundo o pergaminho original da Regra de Santa Clara de Assis encontrado em 1893, deve ser feito pelas mãos das Irmãs e a cada Clarissa é atribuída uma tarefa. É esta a forma de subsistência do mosteiro e a feliz causa dos Queijinhos do Céu, afamados doces conventuais. A agricultura e os bordados para as igrejas também contribuem para o sustento.

A “casa de apoio” contígua ao edifício onde conversamos recebe regularmente pessoas e grupos que ali fazem retiros em busca da tão almejada paz de espírito, mas não recebem dinheiro pela estadia. Uma vez que apenas nos lembramos de Deus, dos médicos e dos bombeiros quando as coisas correm mal, perguntamos à Irmã Maria se nota diferença naqueles que ali acorrem nos tempos conturbados que o país atravessa. A resposta é positiva e surpreende “noto diferença nas pessoas, para melhor”. Num mundo que apelida de “barulhento”, sem silêncio nem espaço para reflexão, estes retiros são importantes para aqueles que “até podem não procurar Deus, mas procuram o silêncio. As pessoas procuram encontrar-se consigo próprias”.

A azáfama dos retiros durante o Verão contrasta com a escassa procura diária no horário de atendimento, ao qual estão afetas algumas Irmãs. Pouca fé? Pouco tempo? A Irmã Maria justifica com a cultura ribatejana, as necessidades das pessoas e o facto de serem pouco conhecidas. O último confirma-se, em parte porque quem ouve falar num mosteiro em Montalvo terá tendência para procurar um monumento de proporções consideráveis e não um solar setecentista mandado construir por João Marques Ferreira e a esposa Ana Páscoa de Oliveira. Além disso, a primeira tentativa de o encontrar não seria na rua principal da vila, Rua Annes de Oliveira, que deve o nome aos descendentes daquele capitão-mor de Abrantes.

Permanece a dúvida se nos retiros a pessoa se encontra primeiro a si própria e depois a Deus ou se o processo decorre na ordem inversa. A Irmã Maria simplifica “depende de cada pessoa, mas o normal é encontrar Deus em si próprio” e acrescenta com um sorriso “porque se o encontra no exterior ele pode fugir. Tem de o encontrar dentro de si”.

As Clarissas podem sair, mas apenas algumas aceitam a tarefa e são elas quem trata das compras e outros afazeres necessários à vida do mosteiro. As saídas das restantes Irmãs resumem-se às idas ao médico e questões “civis”. Em pleno período de campanha eleitoral para as presidenciais associamos o próximo dia 24 a uma dessas saídas, ao que a Irmã Maria responde “Qualquer cidadão tem o direito de ir votar e nós enquanto cidadãs sentimo-nos nessa obrigação”.

A clausura não é total e, ao contrário do que muitos pensam, esta vida religiosa não é sinónimo de solidão e obsoletismo. No Mosteiro de Nossa Senhora da Boa Esperança vê-se televisão, em cadeiras porque os sofás são um luxo, e o zapping privilegia a informação em detrimento do entretenimento. Não chocaria se o aparelho estivesse sempre ligado uma vez que Santa Clara de Assis foi proclamada padroeira da televisão pelo Papa Pio XII, a 14 de fevereiro de 1958.

Algures lá dentro, no espaço que não podemos visitar, também se utiliza o computador “para trabalhar” e navegar na internet. A Irmã Maria refere que apenas o fazem “em situações especiais” e dá o exemplo das declarações eletrónicas “já não se faz nada em papel”. Além disso, as Clarissas de Montalvo têm a sua página de facebook atualizada e um espaço de convívio onde se juntam no chamado “recreio”, momento diário que considera “importante para quem vive em silêncio e oração”.

A vida de silêncio é um conceito estranho para quem vive no mundo “exterior”, marcado pelo atropelo das palavras e dos sons. A ideia de que alguém consegue fazê-lo horas, dias, anos a fio é desconcertante. A Irmã Maria acaba por apaziguar o desconforto ao referir que as estas Irmãs se comprometem “a uma vida de silêncio para andar em oração”, mas que a Regra de Santa Clara de Assis permite que “falem em todo o lado o que for necessário, em voz baixa para não perturbar o silêncio das outras”.

Antes de passarmos do antigo escritório de Fernando Falcão Themudo para a capela ainda abordamos a existência da dúvida e a forma como encara o ateísmo. À primeira questão responde que se trata de “uma virtude de qualquer humano, mas temos que ter convicção daquilo que queremos para o nosso futuro, para a nossa vida”. Em relação à segunda foca o respeito que sente “por cada pessoa” e acrescenta que os outros são tão livres em “não acreditar” como ela é livre para optar “por uma vida de fé”.

A conversa continua na capela de São João Baptista, construída como templo privativo e panteão da família. O espaço é aberto ao público duas vezes por ano e por pouco tempo. A comunidade local e os visitantes apenas podem entrar durante a missa celebrada a 24 de junho, no dia de São João Baptista, e a 15 de agosto durante a procissão que conserva o costume de levar a imagem de Nossa Senhora da Assunção no seu andor a visitar o orago da capela.

Aqui dentro o amor celestial mistura-se aqui com o amor humano. A Irmã Maria fala-nos sobre as pequenas imagens religiosas no retábulo, junto de São João Baptista, que Fernando Falcão Themudo adquiria em antiquários sempre que viajava e trazia para a esposa, Dona Maria Serpa Pimentel. No interior da única nave que forma o templo também se encontram azulejos setecentistas, três túmulos da família de João Marques Ferreira e um brasão da Ordem de Cristo, à qual pertencia.

No entanto, o que gera maior curiosidade é a imagem do Senhor da Paciência, em pedra maciça, que representa Cristo sentado com uma expressão contemplativa. A imagem terá sido escondida durante as invasões francesas e encontrada anos mais tarde nas terras da propriedade. Quem enterrou o Senhor da Paciência esqueceu-se dele.

Séculos volvidos, a tendência de esquecermos a Paciência mantém-se, a diferença é que já não precisamos de escavar muito. Facilmente conseguimos encontrá-la na expressão serena da Irmã Maria, a Madre Abadessa que quando sorri revela a rapariguinha de seis anos que não queria alimentar bonecas, mas sim as almas do mundo inteiro.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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