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Constância | Senhora da Boa Viagem: uma imagem, uma devoção, uma história

Remonta a 1788 o primeiro documento escrito que confirma a devoção à Senhora da Boa Viagem em Constância. Graças aos trabalhos de pesquisa de António Matias Coelho, licenciado em história e há muitos anos ligado à bênção dos barcos, descobriu-se esse documento histórico que refere a devoção há 230 anos.

Trata-se de uma provisão da rainha D. Maria I que foi publicada, transcrita e contextualizada num artigo que o investigador publicou em 1994 num Boletim Informativo da Câmara Municipal de Constância.

Procissão de Nossa Senhora da Boa Viagem |
Foto: CM de Constância

Numa altura em que a vila ainda se chamava Punhete, há mais de dois séculos, era um porto fluvial estratégico (confluência dos rios Zêzere e Tejo), com uma importância crucial para o tráfego de mercadorias entre o interior e Lisboa.

“Da navegação vieram também os perigos e os receios, as aflições e a necessidade de proteção que gerou a devoção à Senhora da Boa Viagem e a Festa em cada Páscoa, para abençoar os barcos e agradecer o amparo da Senhora”, explica António Matias Coelho.

E, mesmo já com poucos barcos e cada vez menos gente ligada aos rios, o ritual repete-se todos os anos. Agradece-se as graças recebidas e renova-se o pedido de proteção até à Páscoa seguinte, numa “das manifestações religiosas e culturais provavelmente mais antigas de todo o Ribatejo”.

A imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, adquirida pelos próprios marítimos, data do séc. XVIII, numa altura em que já existiria a Confraria de Nª Srª da Boa Viagem.

Imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem na igreja matriz de Constância (Foto: mediotejo.net)

Segundo o historiador, a imagem teve altar próprio na igreja de S. João Baptista mas, quando esta ruiu, teve de ser transferida para a igreja Paroquial de S. Julião, situada no espaço onde atualmente se localiza a Praça. Aí, contudo, não dispunha de altar permanecendo como “hóspede” à espera de mais adequada e condigna situação. Além disso, a igreja de S. Julião, frequentemente assolada pelas cheias, estava também bastante degradada e havia muita gente na terra que gostaria de ver a Matriz mudada para a nova Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, situada na parte alta da Vila.

Nessa altura, os responsáveis da Confraria e os marítimos em geral pensaram em construir um altar na igreja dos Mártires para colocarem nela a imagem e aí lhe prestarem culto.

Provisão da Rainha D. Maria I sobre a imagem da Senhora da Boa Viagem datada de 1788 (Foto: Boletim informativo da CM Constância)

O problema é que esse templo pertencia a outra confraria e estava sob a direta proteção da rainha. Por isso tiveram de pedir autorização a uma e a outra para executarem a obra. Da parte da confraria a resposta foi positiva e a decisão da rainha é a que consta no tal documento de 1788.

Na Provisão da Rainha, datada de I4 de agosto de 1788, D. Maria I colocou duas condições: a primeira era que o altar ficasse do lado do Evangelho, ou seja, do lado esquerdo de quem entra na Igreja; a segunda era que respeitasse o estilo dos altares já existentes, enquadrando-se na harmonia do conjunto.

O resultado final, 230 anos depois, pode constatar-se hoje na igreja Matriz. Lá está, no primeiro altar do lado esquerdo quando se entra na igreja, a imagem da sua devoção, imagem que continua a sair todos os anos na procissão para abençoar os rios, os barcos e as pessoas.

A imagem, em madeira, aparentemente bem conservada, está à guarda da igreja. Não há dados quanto ao peso e altura da peça. “Vamos tentando proteger, preservar, dentro das nossas limitações financeiras”, garante o padre Nuno Miguel Lopes da Silva.

O padre Nuno Lopes da Silva, em frente à igreja matriz (Foto: mediotejo.net)

Este ano, o pároco de 37 anos pretende a participação de uma representação dos marítimos na missa. Para isso, apelou a que viessem vestidos com os seus trajes tradicionais. “Era de uma beleza maior que pudessem subir à colina, engalanados, porque nós reunimo-nos pela Senhora, pela devoção, mas também por eles, os marítimos”, defende o pároco, sensibilizado com os “testemunhos dos homens de barba rija”.

A pouco e pouco, o Padre Nuno pretende recuperar as tradições e dar mais visibilidade ao lado religioso da festa, valorizando os depoimentos emotivos dos marítimos.

José Gaio
Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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