Constância preserva aromas e cheiros da lírica de Camões no Jardim-Horto (c/vídeo e fotos)

É no recanto mais visitado da Vila de Constância, na confluência dos rios Tejo e Zêzere, que reina o verde, a frescura e a calmaria. Da zona ribeirinha chegam-nos vozes alegres entre mergulhos e toalhas estendidas no cascalho. Mais em cima, entre plantas, árvores, flores, frutos e ervas aromáticas, embarcamos numa viagem pela vida e obra de Camões, embalados pela brisa e o chilrear da passarada, decifrando em cada canteiro excertos da sua obra, que evocam as 52 espécies do singular e único monumento vivo alguma vez erguido a um poeta: o Jardim-Horto de Camões.

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Ali, entre as margens verdejantes e espaços ajardinados, nasceu um jardim maior que todos os jardins do mundo. Só ali podemos encontrar, visitar e absorver entre cores, aromas, cheiros e sabores que nos entram pelos olhos e pelo olfacto sem ser preciso permissão, a História de Portugal e recordar a coragem e valentia dos “Heróis do Mar” que cruzaram mares nunca navegados, dobraram cabos, ultrapassaram a tormenta.

O mediotejo.net convidou António Matias Coelho, presidente da direção da Associação Casa-Memória de Camões, detentora do espaço, para nos guiar nessa viagem para relembrar este pedaço de História e visitar um património cultural cujo legado tem sido caro a Constância, Vila Poema, uma terra intimamente ligada a Luís Vaz de Camões, que se diz ali ter vivido na então “Casa dos Arcos”, agora sede da Associação local.

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Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

O ponto de partida é junto ao Monumento a Camões, com a estátua que todos reconhecem, que anseiam tocar, sentar-se e tirar uma fotografia, com o poeta a admirar a paisagem de olhos prostrados sobre o Zêzere.

Atrás do monumento do mestre Lagoa Henriques, inaugurado pelo presidente da República, General Ramalho Eanes, em 1981, um enorme painel, uma obra de Dália Lacerda Machado, de 2019, contando as viagens de Camões pelo mundo, desenhando as rotas de Lisboa a Macau, avançando por África e pela Índia. O mesmo se pode verificar num painel de azulejos de Adelino Lage, primo de Manuela de Azevedo, logo após o edifício da receção, à direita da entrada no jardim.

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O Jardim-Horto, desenhado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles e aberto ao público em 1990, reúne toda a flora mencionada na obra camoniana, totalizando 52 espécies representadas.

Entrando no jardim, inicia-se um percurso feito de plantas de dois tipos: mediterrânicas e exóticas. Cruzando as influências dos Descobrimentos com a cultura portuguesa e fazendo recuar no tempo, aos livros de História e ao estudo dos cantos d’ “Os Lusíadas” e outras obras da lírica camoniana.

Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

Ao chegar, encontramos o monumento a Manuela de Azevedo, falecida em 2017. Jornalista, mulher de armas, fundadora da Associação Casa-Memória de Camões e a principal responsável pela luta para instalar na vila os três patrimónios a Camões. A Casa-Memória, por exemplo, demorou 20 anos a ser concluída, num processo moroso que durou até 2005.

O seu objetivo era abrir aquele equipamento ao público, dando a conhecer a vida e obra de Camões, que diz a comunidade, viveu a certa altura em Punhete (Constância). Uma luta que ainda hoje dura, tendo já a Casa-Memória conseguido o reconhecimento de Interesse Cultural por parte do Ministério da Cultura, mas aguardando-se financiamentos e apoios para apetrechar com equipamentos aquele edifício e abrir-se as portas, dando-lhe a ansiada e merecida utilidade.

Mas voltemos ao jardim, onde entoam a esta altura o chilrear e cantar dos pássaros, numa banda sonora singela mas num enquadramento perfeito. Era ali, num dos espaços que gostava de ver imaculado e preservado, que Manuela Azevedo costumava estar, sentada à sombra da oliveira, já nos seus últimos anos de vida ali contava as horas enquanto acompanhava a Dona São, funcionária responsável pela manutenção do jardim e cuidado das plantas.

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A Dona São diz que deve a Manuela de Azevedo tudo o que sabe e que aprendeu com ela a perceber e conhecer de outro modo Camões. Ficou ali, comprometida com o trabalho e missão de guardiã do Jardim-Horto, após o falecimento do marido, que ali prestava serviço antes de falecer.

Hoje recebe, bem-disposta, todos os que queiram saber um pouco mais sobre Camões e a sua obra, e, com sorte, a Dona São consegue acompanhar os visitantes e contar-lhes tudo o que sabe e que foi aprendendo com os entendidos, entre as horas que ali passa a regar, podar, ajeitando e embelezando os canteiros.

A cânfora, uma das grandes árvores do Jardim-Horto. Veio do Oriente e conta já 30 anos. Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

A frondosa cânfora já nos acolhe a atenção, do alto dos seus 30 anos – os mesmos que o jardim já conta – e com muitos metros de altura. Veio diretamente do Oriente e é uma das plantas exóticas em destaque, juntando-se à pimenta, ali perto.

Atrás, também a caneleira disputa o céu, com a sua larga copa e robusto tronco, cujos galhos, raspados e secos dão origem ao pau de canela tão usado nas receitas de bolaria portuguesa.

Salta-nos aos olhos o longo corredor de roseiral, com rosas de todas as cores e feitios, ao comprimento do Jardim. A rosa é a planta mais vezes mencionada por Camões na sua obra, e por isso, não é de somenos importância este espaço a si dedicado.

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Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

Vamos avançando e encontramos até a silva, o aloé, a hera, a cana-da-índia, a violeta, as coroas imperias e as açucenas, o medronheiro, o loureiro, o craveiro e as maravilhas, o goivo, a hortênsia, a salva, o rosmaninho, o alecrim…

No Jardim Horto encontramos ainda as plantas aromáticas e as árvores de fruto, caso da hortelã, da macieira, da salsa e dos coentros, do alecrim e do rosmaninho, da manjerona. E logo a seguir um mar de trevos, por entre os canais antigos, compostos na calçada portuguesa.

O castanheiro faz sombra a praticamente todo o horto após o meio dia, com uma copa gigante e a perder de vista, que nos rouba algum tempo para podermos observar e analisar cada galho, folha e toda a dimensão da árvore. O tronco é quase tão grosso como o do freixo, e faz inveja ao medronheiro e à pequena amoreira.

De tão grande que é, quase faz passar despercebida a maior esfera armilar de Portugal, ali colocada a assinalar os 500 anos dos Descobrimentos, trazida por um helicóptero da Força Aérea pelos seus 500 kg, em 1998.

Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

Avista-se um poço árabe, conservado e acarinhado por ser um dos poucos poços descobertos nos arredores da região. E vamos passando, olhando os canaletes, quando nos cruzamos com a romãzeira, florida de um laranja elétrico.

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Nisto, um tabuleiro de xadrez em ponto grande. Cumprindo a vontade de Manuela de Azevedo que sempre quis colocar este elemento no jardim. A particularidade? As peças gigantes, com o tabuleiro desenhado na calçada, permitem ser movidas para um combate que adivinha durar horas a fio, exigindo paciência e sabedoria. Quem sabe o caro leitor não estará interessado numa partida de xadrez?

No meio de tanto arvoredo, e para troca, a laranjeira, ali junto ao anfiteatro do Planetário de Ptolomeu, está carregada de laranjas, e aos seus pés, entre um manto de hera, surgem os enamorados da estátua “A Ilha dos Amores”, de Lagoa Henriques.

“A Ilha dos Amores”, uma obra de Lagoa Henriques integrada junto ao anfiteatro ao ar livre, e que é das mais importantes da escultura portuguesa. Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

No anfiteatro, além das questões astronómicas com representação dos 7 Céus, pondo a Terra como centro do Universo. Representada a teoria geocêntrica e os signos do zodíaco, pode ainda fazer-se a experiência de, a certo ponto e pousando o pé no centro do auditório, falar e ouvir o eco da nossa voz, que se amplifica naquela construção.

Nisto há o corredor central, paralelo aos vários canteiros que vamos espreitando. Forrado a videira, e acompanhado com oliveiras pluricentenárias, muitas com os ramos a serem enleados pelas vides.

Entramos pois, ladeados pelas paredes de cana-da-índia, no esplendoroso Pavilhão de Macau, recentemente requalificado com materiais vindos daquela região. Com muros ondeados, a lembrar o simbolismo do Dragão Chinês, a branco, e a contrastar com o vermelho das paredes e pilares e com o telhado em tons de verde azulado.

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Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

O repuxo leva a água a escorrer entre as pedras da cascata, formando uma ligeira queda de água. Vêem-se peixes no lago habitado por nenúfares de flores amarelas ou rosadas. Despontam as plantas do papiro, em tufos plantados nos cantos daquele ponto oriental.

O Jardim-Horto, que é uma ode ao Poeta, é uma sugestão para a escapadinha de fim-de-semana ou num feriado, quer seja romântica, ou em família, e onde não pode deixar de se incluir o passeio à beira-rio e pelas ruas do centro histórico da Constância.

Sabe o mediotejo.net que o grande desafio deste espaço é conquistar as gentes do concelho e da região, pois muitos são os que nunca conheceram este precioso monumento vivo… Siga a nossa sugestão, parta à descoberta. Prepare o telemóvel ou a máquina fotográfica, pois não faltam motivos a valer o registo para a posteridade. Incluindo aquele, estilo postal, junto à estátua de Luís Vaz de Camões.

Espreite aqui a fotogaleria com alguns dos detalhes e recantos deste monumento vivo a Camões

Jardim-Horto de Camões
Coordenadas GPS: 39° 28′ 28,2″ N / 8° 20′ 22,8″ W 

HORÁRIO
Funciona todos os dias: das 9.00 às 12.30 e das 14.00 às 17.00 horas

PREÇÁRIO
Adultos: 1,50 €
Jovens dos 10 aos 17 anos: 1 €
Estudantes: 1 €
Terceira idade (a partir dos 65 anos): 1 €
Crianças até aos 9 anos: gratuito
Preços para escolas e grupos sob consulta no Posto de Turismo
(Abre gratuitamente ao público no feriado do 10 de junho, todos os anos)

Contactos:
telefone: 249 730 052
fax: 249 730 289
e-mail: turismo@cm-constancia.pt

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