Constância | João Reis e a argila que se transforma em gente

João Reis e criação que está a terminar, Manuel Luís Goucha. Foto: mediotejo.net

Quem olha para duas montras no início da Rua José Silvério, transversal da Rua Annes de Oliveira, em Montalvo, dá de caras com caras famosas. Não se trata de um espaço comercial em voga, mas sim do local onde João Reis, um contabilista de 67 anos, expõe a veia artística recentemente descoberta através dos bustos em argila dos 20 Presidentes da República. No encontro com o artista e 106 anos da História nacional descobrimos que Saramago, Cristiano Ronaldo e Einstein também andam por ali.

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A família de João é conhecida em Montalvo pelos “Gomes” e pela carpintaria, mas este contabilista de 67 anos seguiu caminhos diferentes. O apelido é “Reis” e acabaria por descobrir na argila a melhor forma de se expressar artisticamente. Um autodidata que começou a criar pouco depois dos 60 anos de vida terem sido comemorados e que não gosta de se chamar artista.

A pedra e o gesso não o convenceram e o carvão começou a imortalizar caras, mas faltava algo. Seria o barro a revelar-se a matéria-prima de eleição e, por volta de 2011, passou a partilhar o apoio à esposa no escritório de contabilidade com o atelier criativo, cuja bancada também lhe saiu das mãos. Começou por ter os filhos como modelos e da história de casa passou para a História do país com a criação de uma exposição que integra os presidentes da República Portuguesa.

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Os 20 bustos foram criados em pouco mais de dois anos e apenas quis partilha-los com o público depois de concluídos na totalidade. A estes juntam-se outras caras facilmente reconhecíveis e na loja contígua à sua casa onde se encontram Teófilo Braga, Sidónio Pais, Bernardino Machado, Óscar Carmona, Francisco da Costa Gomes ou Mário Soares também nos cruzamos com Albert Einstein, José Saramago e Cristiano Ronaldo.

A exposição inclui os bustos dos 20 Presidentes da República Portuguesa. Foto: mediotejo.net
A exposição inclui os bustos dos 20 Presidentes da República Portuguesa. Foto: mediotejo.net

Os utensílios que utiliza são comprado no concelho vizinho de Abrantes e as barras de argila, da qual necessita de 6 quilos para cada criação, já se transformaram em personalidades das mais diversas áreas e épocas históricas, desde Jesus Cristo a Marcelo Rebelo de Sousa. O primeiro foi oferecido às Irmãs Clarissas do Desagravo e está agora no Mosteiro de Nossa Senhora da Boa Esperança, ali perto, e o segundo aguarda uma oportunidade para ser entregue em mãos e rumar à capital.

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No caso de Marcelo Rebelo de Sousa, à semelhança de outros bustos, existe a particularidade de conter no seu interior um recorte de revista selado que relata a tomada de posse do atual presidente. João Reis mostra fotografias do processo e refere que um dia, se o busto se partir, será encontrado um pedaço de História entre os pedaços de barro. Para já, Marcelo mantêm-se intacto e ao lado dos restantes 19 presidentes expostos no espaço da Rua Rua José Silvério, transversal da Rua Annes de Oliveira.

São quase 30 dos cerca de 80 perfis criados na companhia do gato Simba, que vai aparecendo durante os momentos em que João Reis molda a argila, de preferência com a luz do sol, no atelier ao lado da sala de exposições. João Reis desconhece a opinião do felino e ri-se quando atribui a crítica mais exigente a outra companhia do dia-a-dia, a esposa. As opiniões de quem visitou a exposição nos dias 3 e 4 de setembro e entre 5 e 8 de outubro são mais neutras e algumas ficaram registadas no livro de visitas, junto dos folhetos informativos que criou sobre o tema.

Alguns dos utensílios usados no atelier. Foto: mediotejo.net
Alguns dos utensílios usados no atelier. Foto: mediotejo.net

A agenda afixada na parede revela os nomes de Bob Dylan e Leonard Cohen como os próximos bustos a ganhar forma no atelier, depois de terminar o do apresentador de televisão Manuel Luís Goucha, que está quase concluído. Se o momento criativo depende da inspiração e pode oscilar entre dois dias e uma semana, o momento de secagem é preciso e no verão é necessário cerca de um mês para que a obra fique pronta.

No futuro está prevista a criação de bustos de dois nomes ligados ao concelho de Constância, o de Camões e o seu. A fama do poeta contrasta com a humildade do artista que não gosta de se apresentar como tal. O contabilista de Montalvo molda o barro simplesmente porque gosta. Se o “jeito” for reconhecido pelo público, espera ver realizado o desejo de ter a sua arte exposta noutros pontos do país e de deixar um legado às gerações vindouras através da argila que se transforma em gente.

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