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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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Constância | Jardim-Horto renovado com 52 flores e frutos cantados por Camões

A requalificação do Jardim-Horto Camões, em Constância, com as 52 flores e frutos cantados por Camões nos Lusíadas, está concluída com as respetivas placas identificativas, anunciou o presidente da Associação Casa Memória de Camões, que está de saída da instituição, após cumprir três anos de mandato.

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“Cumprindo uma vontade da nossa fundadora Manuela de Azevedo, concluiu-se agora a renovação do Jardim-Horto de Camões no que respeita às plantas, com recurso a uma empresa da especialidade que procedeu a replantações, repondo espécies que faltavam, mudando outras de canteiro por não estarem no lugar adequado, ajustando outras em função da luz solar e da humidade”, disse António Matias Coelho.

O Jardim-Horto de Camões, implantado há cerca de 30 anos em Constância, “nunca tinha beneficiado de qualquer intervenção de fundo”, notou Matias Coelho, tendo feito notar ainda que, naquele espaço que acolhe cerca de três mil visitantes por ano, “substituíram-se as placas identificadoras das espécies vegetais por outras novas e esteticamente mais interessantes, graciosamente projetadas pelo nosso associado arquiteto Álvaro Lacerda-Machado, que contêm informação mais detalhada e mais rigorosa”.

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Entrada do Jardim-Horto de Camões. Foto: DR

Depois de se ter substituído, no ano passado, a parte mais degradada do piso por calçada à portuguesa e de se ter colocado um grande tabuleiro de xadrez, também em calçada à portuguesa, “este conjunto de intervenções importou em cerca de 22 000 euros”, disse o presidente da Associação Casa Memória, que cessa mandato este mês de dezembro, não se recandidatando ao cargo.

Desenhado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles e inaugurado em 1990, o Jardim-Horto, que acompanha a estátua de Camões no centro histórico de Constância, reúne toda a flora referida na obra do poeta através de 52 espécies, sendo uma homenagem a Luís Vaz de Camões.

O espaço, na zona ribeirinha, inclui o Jardim de Macau, um Planetário de Ptolomeu, um auditório ao ar livre, um painel de azulejos que representa todas as partes do mundo que Camões pisou, de Lisboa a Macau, passando por África e pela Índia, e uma enorme esfera armilar de Portugal, que assinala os 500 anos dos Descobrimentos, eternizados pelo poeta em “Os Lusíadas”.

Esfera armilar no Jardim Horto. Foto: DR

“Respeitando, no essencial, o projeto inicial do arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, temos agora um Jardim-Horto de Camões renovado e merecedor da visita de todos os que pretendam apreciar o mais vivo e singular monumento erguido no mundo a um poeta”, destacou Matias Coelho, que lamentou não ter conseguido apoios para cumprir todos os objetivos delineados para o mandato de três ano que termina no dia 22 de dezembro.

Dos projetos em curso, o responsável destaca a renovação da face exterior do Jardim-Horto com a construção de um novo edifício de entrada, com “melhores condições para acolher os visitantes e para expor materiais e para o trabalho da funcionária”, um investimento de cerca de 20.000 euros.

Jardim-Horto de Camões. Foto: mediotejo.net

“Um outro projeto, da maior importância e com alguma urgência no Jardim-Horto, é o da renovação do Pavilhão de Macau e da zona envolvente”, notou, um investimento de cerca de 45.000 euros e que conta, até ao momento, apenas com um subsídio de 2.000 euros.

A criação de um centro de documentação e a abertura ao público da casa dedicada ao poeta são, dos objetivos não cumpridos, os que mais “amarguram” a direção da Associação Casa-Memória de Camões.

“O investimento necessário para se conseguir o objetivo de abrir a Casa-Memória como pretendemos é muitíssimo avultado – várias centenas de milhar de euros – e não está ao alcance dos escassos meios da Associação, nem sequer de soluções que se procurasse alcançar a nível local, num concelho pequeno e interior como Constância é”, disse Matias Coelho, tendo feito notar que, “para abrir a Casa-Memória de Camões, que se reveste de óbvia importância nacional, terá de se encontrar uma solução a outra escala, ao nível do Estado português”.

O arquiteto-paisagista Gonçalo Ribeiro Telles esteve recentemente de visita ao Jardim-Horto de Camões, quase 30 anos depois de o ter projetado. Foto: DR

Nestes quase três anos de mandato, frisou, “a direção realizou inúmeros contactos aos mais diversos níveis, e é com mágoa que o reconheço, neste aspeto avançou-se muito pouco”.

“Lamentavelmente, tenho de concluir que, para além da Direção da Associação, ninguém está verdadeiramente empenhado na abertura da Casa-Memória de Camões em Constância. Ou, se está, não tem feito grande coisa nesse sentido”.

Casa-Memória de Camões (Constância). Foto: mediotejo.net

A Casa-Memória e a presença de Camões em Constância

A presença de Luís de Camões em Constância é “afirmada pela tradição popular” e nas referências de vários estudiosos. “Os indícios da sua presença em Constância (antiga Punhete) são consistentes”, assentando na “tradição oral e popular que tem perdurado nos tempos”, disse ao mediotejo.net António Matias Coelho.

“Camões descreve em alguns dos seus poemas paisagens que se enquadram com Constância, nomeadamente na “Elegia do Desterro”, onde fala do outeiro, dos penedos banhados pelas águas, das côncavas barcas e do eco dos rios que se abraçam, sendo uma óbvia ligação à confluência dos rios Tejo e Zêzere”, acrescentou.

O professor e investigador lembrou ainda uma ata de uma sessão solene de 1880 segundo a qual a Câmara havia decidido promover uma homenagem a Luís de Camões por ocasião do tricentenário da sua morte. Na altura era já referido que Camões tinha residido em Punhete.

A Casa-Memória é um edifício com projeto da Faculdade de Arquitetura de Lisboa que “começou a ser construído num processo muito difícil nos anos 1980, sobre as ruínas da casa onde terá residido Luís Vaz de Camões”.

Desde os meados do século passado, o médico Adriano Burguette e, depois, a jornalista e camonista Manuela de Azevedo, dedicaram a sua vida a recuperar a casa e a preservar e a divulgar a sua obra.

Matias Coelho afirmou ainda que do património da Casa-Memória fazem parte, além de outras obras, alguns “livros de inestimável valor”, como edições de “Os Lusíadas”, um painel do pintor Espiga Pinto, a escultura “Amor”, de Lagoa Henriques, uma casula e cartas de jogar do século XVI, entre outros.

Ilha dos Amores, escultura de Mestre Lagoa Henriques existente na Casa Memória de Camões em Constância.

mediotejo.net – A Associação tem outros projetos em curso e/ou projetados para o jardim horto camoniano. Qual o ponto de situação dos mesmo?

AMC – Além da requalificação do Jardim-Horto, agora concluída, vai ser renovada também a sua face exterior com a construção de um novo edifício de entrada, com melhores condições para acolher os visitantes, para expor materiais e para o trabalho da funcionária. Por se encontrar em território de reserva ecológica e em zona de cheia, são necessários pareceres favoráveis de entidades superiores que demoraram tempo mas já foram concedidos.

Neste momento o processo encontra-se em fase de licenciamento pela Câmara Municipal, sendo previsível que a obra se realize nos primeiros meses do próximo ano. Apesar de termos conseguido graciosamente os projetos de arquitetura e de engenharia, o custo do investimento é elevado: cerca de 20 000 euros, em parte comparticipado – esperamos – por fundos comunitários a que nos candidatámos.

Um outro projeto, da maior importância e com alguma urgência no Jardim-Horto, é o da renovação do Pavilhão de Macau e da zona envolvente. O Pavilhão de Macau é uma peça de grande beleza e significado, única no seu género em Portugal, que foi construída há 30 anos e se encontra a precisar de obras de restauro e beneficiação.

Trata-se de um trabalho delicado e especializado – e, portanto, caro: cerca de 45 000 euros. Fizemos um esforço enorme com vista à angariação de apoios, contactámos inúmeras instituições, públicas e privadas (institutos, fundações, empresas) e o que conseguimos foi apenas um subsídio de 2000 euros. Faltam os restantes 43 000… É preciso não desanimar e procurar outras formas de conseguir o financiamento porque o Pavilhão de Macau tem de ser restaurado e não pode esperar muito tempo. Estamos a trabalhar para isso.

Busto do poeta presente na Casa-Memória de Camões. Foto: mediotejo.net

E a Casa Memória de Camões… quais as dificuldades que tem sentido neste processo?

Foram precisos uns 20 anos para erguer a Casa-Memória de Camões, um edifício novo, amplo e funcional que se desenvolve pela colina ao longo de cinco pisos que ocupam todo um quarteirão, com excelentes condições para ser a Casa de Camões que Portugal não tem. Já passaram 12 anos desde que ficou concluído e ainda não foi aberto ao público porque não dispõe dos conteúdos necessários para, com dignidade, honrar Camões e a profunda relação afetiva de Constância com a memória do épico.

O investimento necessário para se conseguir o objetivo de abrir a Casa-Memória como pretendemos é muitíssimo avultado – várias centenas de milhar de euros – e não está ao alcance dos escassos meios da Associação, nem sequer de soluções que se procurasse alcançar a nível local, num concelho pequeno e interior como Constância é. Para abrir a Casa-Memória de Camões, que se reveste de óbvia importância nacional, terá de se encontrar uma solução a outra escala, ao nível do Estado português.

Nestes quase três anos de mandato, a Direção realizou inúmeros contactos aos mais diversos níveis, nomeadamente com o senhor Presidente da República, com a Assembleia da República, com os deputados dos diversos partidos políticos eleitos pelo distrito de Santarém, com o Ministério da Cultura e com personalidades várias.

Recebemos boas palavras e algumas promessas, mas, como diz o povo, prometer custa pouco e faltar ainda custa menos… Ao cabo de todo este tempo – é com pena e alguma mágoa que o reconheço – neste aspeto avançou-se muito pouco. Lamentavelmente e não obstante essas boas palavras e essas promessas, tenho de concluir que, para além da Direção da Associação, ninguém está verdadeiramente empenhado na abertura da Casa-Memória de Camões em Constância. Ou, se está, não tem feito grande coisa nesse sentido.

António Matias Coelho e Manuela de Azevedo. Foto: Câmara Municipal de Constância

Prestes a terminar o mandato, o atual presidente, e a equipa que o acompanha, recandidatam-se a um novo mandato?

Devo recordar as três razões que me levaram, em abril de 2016, a dar o passo (que nunca antes tinha admitido) no sentido de assumir a presidência da Associação: antes de mais, evitar a dissolução da Associação que estava iminente face à crise diretiva resultante da legítima indisponibilidade da Direção anterior para prosseguir em funções; depois, poupar a nossa fundadora Manuela de Azevedo, que então ainda estava viva, ao desgosto que significaria para ela saber que a sua Associação morria antes dela; e, finalmente, dar à Associação e à causa de Camões em Constância um novo impulso, em termos de atividades desenvolvidas, de visibilidade pública, de renovação e animação do Jardim-Horto e de esforço com vista ao desenvolvimento do processo de abertura ao público da Casa-Memória.

Esses três propósitos estão cumpridos: a Associação não se dissolveu, Manuela de Azevedo morreu descansada e, como todos reconhecerão, estes quase três anos assistiram a um diversificado conjunto de iniciativas, aos mais diversos níveis, que imprimiram à Associação e à temática camoniana em Constância uma dinâmica como há muito não se via. Neste momento o caminho está reaberto e, comparativamente com o que se passava em 2016, é muito menos difícil prossegui-lo.

Com uma antecedência muito grande – de um ano – tive o cuidado de informar a Assembleia Geral de que não seria candidato a novo mandato. Disse-o em dezembro passado e reafirmei-o na Assembleia seguinte, em março. E expliquei porquê: porque, tendo, com a colaboração das minhas colegas da Direção, alcançado os três propósitos referidos, a minha missão está cumprida. É desejável que as pessoas sirvam as instituições – sejam elas quais forem – pelo período de tempo estabelecido (neste caso, três anos) e depois saiam para que outros prossigam, renovando e imprimindo novas dinâmicas.

O que gostaria de ter conseguido fazer e não foi possível? porquê?

Gostaria de ter visto construído o novo edifício de entrada do Jardim-Horto, mas a lentidão dos procedimentos administrativas foi mais forte do que a minha vontade. Mas fico feliz por deixar tudo pronto para que a obra de faça nos próximos meses.

Gostaria de ter visto restaurado o Pavilhão de Macau e reabilitada a sua envolvente, mas a verba necessária é avultada e a resposta dos potenciais patrocinadores foi muito escassa. Mas creio que ainda conseguirei, antes do final do mandato, um apoio substancial para se poder concretizar pelo menos parte da intervenção.

Gostaria de ter visto aberta ao público a Casa-Memória de Camões, mas infelizmente não foram cumpridas as promessas que nos foram feitas e não vi, fora da Direção da Associação, grande empenhamento nesta causa.

Mas vi – e é importante sublinhar isso – uma Associação que não apenas não se dissolveu como duplicou o número dos seus associados, que desenvolveu considerável quantidade e variedade de atividades, que recuperou o Jardim-Horto de Camões, que tem em perspetiva obras e projetos e que relançou e reforçou a relação afetiva de Constância com a memória de Camões.

Pavilhão de Macau do Jardim-Horto de Camões
onde decorrerá a homenagem da Associação Casa-Memória de Camões à sua fundadora Manuela de Azevedo

Que mensagem ou apelo deixaria ao mundo cultural português e aos decisores políticos, locais e nacionais, sobre o projeto da Associação Casa Memória de Camões?

É a mesma mensagem de sempre, que venho repetindo insistentemente desde que assumi a presidência da Direção: Constância – que tem com Camões uma relação de afeto como nenhuma outra terra no nosso país – dispõe de uma Casa-Memória nova e com condições excelentes para ser a Casa de Camões que Portugal, lamentavelmente, não tem.

Se os poderes públicos nos apoiassem, como prometeram apoiar, poderíamos cumprir o sonho de Manuela de Azevedo e ganharíamos todos: Constância, o Médio Tejo e o país. Bem sei que é à Associação que compete batalhar nesse sentido. É isso que, como espero, irá continuar a fazer, com paciência e persistência.

c/LUSA

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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