Quinta-feira, Março 4, 2021
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Constância | Casal de lésbicas luta pelo sonho da maternidade partilhada

São ainda raros os casos de maternidade partilhada em Portugal, em que uma criança é gerada com ADN das duas mães. Em Montalvo, no concelho de Constância, Ângela e Andreia lançaram uma campanha de donativos para financiar os tratamentos médicos que podem ajudar a concretizar esse sonho.

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Casaram há quatro anos e querem muito ter filhos. Mas Andreia Milagaia, de 30 anos, e Ângela Silva, 35, gostariam que os seus bebés fossem concebidos através de um processo de maternidade partilhada, com inseminação artificial do óvulo de uma e a posterior implantação do ovo fecundado no útero de outra.

O casal lamenta que nos hospitais públicos não exista esta técnica disponível, apenas no privado. “É preciso tanto dinheiro para ter um filho. Eu acho que só em Portugal é que isto acontece”, desabafa Ângela.

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Andreia trabalha como auxiliar num lar da Santa Casa da Misericórdia de Constância e Ângela é operária fabril numa empresa de tendas gigantes e pavilhões insufláveis, em Montalvo.Porque os seus salários são baixos e não dispõem da verba necessária (cerca de 5 mil euros), lançaram no Facebook uma campanha de angariação de fundos através da página “Impossível é não sonhar”.

Juntas há seis anos, recordam em entrevista ao mediotejo.net como se apaixonaram e decidiram criar juntas uma família. Ângela conta que sempre teve tendência para gostar de raparigas. Já Andreia teve namorados e foi durante uma crise numa relação que conheceu melhor Ângela e se apaixonaram.

Já se conheciam antes, até porque Montalvo é uma aldeia relativamente pequena, mas não tinham confiança uma com a outra. “Até que surgiu uma festa na terra, houve uma primeira dança e foi aí que se deu o click”, explica Ângela, a mais faladora.

Esse “click” aconteceu a 6 de setembro de 2014, recorda-se Andreia, que nessa altura mantinha uma relação heterossexual, mas que, reconhece, não estava a funcionar a 100 por cento. “Até porque se funcionasse não havia o tal click com a Ângela”, justifica. “Acabei essa relação e pouco tempo depois assumimos” o namoro.

Num meio pequeno como Montalvo, como é que as pessoas reagiram? “É complicado, mas surpreendentemente foram as pessoas de mais idade a aceitarem melhor do que os mais novos”, revela Ângela.

“O grupo de amigos da Andreia foi para esquecer, reagiram mal ao facto de ela ter assumido uma relação com uma pessoa do mesmo sexo”, lamenta. No início chegou a haver casos de humilhação e de faltas de respeito na praça pública.

O casal preza pela discrição mas recusa esconder-se. “Não temos necessidade de andar na rua a fazer espectáculo, mas também não vamos ficar fechadas em casa”, explica Ângela.

Imagens do casamento de Ângela e Andreia / DR

Em Montalvo dizem que sempre andaram de mão dada, um gesto natural. “Independentemente de nos criticarem, até porque se fossemos a dar importância a isso não saíamos de casa, sempre fizemos isso naturalmente. Temos de nos respeitar sobretudo a nós próprias e proteger-nos”, acrescenta. Se o círculo de amigos de Andreia reagiu mal à sua “saída do armário”, os de Ângela foram “um pilar”.

No início estiveram cerca de quatro meses a viver cada uma em sua casa, mas decidiram viver juntas a 21 de fevereiro de 2015, mais uma data que não esquecem na sua história de amor. Andreia mudou-se para casa de Ângela, que vive com a sua mãe, onde as três mulheres passaram a estar juntas, em harmonia.

Da parte de Ângela, a família sempre aceitou a relação “na boa”. Para a sua mãe, Andreia é mais uma filha. “Foi aceite de braços abertos.”

Dois anos depois de iniciado o namoro, veio o casamento. O pedido aconteceu em 2015, na praia, recordam com nostalgia e emoção.

Perante cerca de 40 convidados, casaram a 3 de setembro de 2016 na Quinta do Pinhal, entre Constância e Montalvo, sendo o primeiro casal homossexual a fazê-lo no concelho.

Andreia e Ângela começaram a namorar em 2014. Foto: DR

Com os anos a passarem, Andreia e Ângela têm atualmente como grande objetivo ter filhos. “Pelo menos um”, dizem. Mas querem fazê-lo as duas, em maternidade partilhada, um processo mais complexo do que a fertilização artificial.

Este método é pouco comum em Portugal e é caro para os rendimentos do casal. Consiste na retirada dos óvulos, neste caso de Ângela que, depois de fazer alguns tratamentos, serão inseminados com o esperma de um dador, que podem ou não vir a conhecer (não fazem questão disso). Com pelo menos um óvulo fecundado, far-se-á a transferência para o útero de Andreia.

Só o tratamento inicial numa clínica especializada em Coimbra custa 4.950 euros. A este valor acrescem todas as despesas inerentes, como análises e viagens. Se não conseguirem a verba necessária não põem de parte a hipótese de recorrer a um processo de inseminação artificial simplificado, apesar de isso também significar 3 ou 4 anos de espera nos hospitais.

Ângela, que completa 36 anos em maio, preocupa-se. Sente-se “em contra-relógio” e teme vir a ter problemas com os óvulos.

Ângela e Andreia enfrentaram tudo e todos para ficarem juntas. Foto: mediotejo.net

Foram entrevistadas na televisão e criaram uma conta bancária com o objetivo de recolher donativos, que já soma mais de 1.600 euros, mas ainda longe dos 5 mil necessários.

Falam do exemplo de um casal de mulheres de Torres Novas, a viver em Leiria, que conseguiu esse objetivo. Daniela e Isabel tiveram no verão passado uma menina através do processo de maternidade partilhada.

Ambas gostavam de ter mais do que um filho e ficariam felizes se nascessem gémeos, uma forte possibilidade dado haver vários casos quer na família de uma, quer na de outra.

“Sabemos que não será uma batalha fácil, mas desistir não faz parte do nosso lema de vida. Acreditamos que do pouco vamos conseguir fazer muito, e que só é impossível até acontecer.”

Até lá, acalentam o sonho. De mãos dadas, como sempre.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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