Constância | Casa-Museu Vasco de Lima Couto, um espaço com mundo (entrevista c/ fotogaleria)

Vasco de Lima Couto granjeou-lhe a alcunha “Zé Brasileiro”. José Ramoa retribuiu criando uma Casa-Museu que coloca o seu nome ao lado dos poetas que Constância gosta de tratar por “tu”. O “português de Braga” veio para a vila na década de 70, depois de passar pelo Brasil, e transformou um palacete do século XVIII num canto histórico onde as dedicatórias revelam os autores das peças. Quisemos conhecer o museu por quem o criou e percebemos que ali cabe o mundo inteiro, apesar das histórias serem maiores do que o espaço e a obra do amigo homenageado.

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José Ramoa é mais do que um habitante de Constância. É um “português do mundo”, segundo as palavras de Vasco de Lima Couto escritas na toalha de mesa em papel que tem exposta entre os milhares de objetos que compõem a Casa-Museu dedicada ao poeta. No entanto, não se considera o único pois do mundo são “todos” os portugueses que partiram à aventura, revelando lugares desconhecidos e adaptando-se ao que encontraram no destino. No seu caso, o destino ditou que uma viagem a Constância se transformasse num projeto de vida.

Viajar é um traço da identidade nacional que ainda hoje se mantém, diz, e que o próprio acaba por representar. José Ramoa nasceu em Braga e entre as primeiras jornadas estão as que fez a pé para a antiga escola, que hoje pertence à Universidade do Minho, na companhia dos amigos e alguns dos 19 irmãos. Aos 20 anos, a terra deu lugar ao ar e foi de avião para o Brasil por insistência do pai, que queria afastar os filhos do serviço militar. No outro lado do Atlântico, no Rio de Janeiro, entrou no mercado das antiguidades a convite de um amigo e devido ao interesse pelos azulejos portugueses.

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Os versos de Vasco de Lima Couto que criaram o “Zé Brasileiro, português de Braga”. Foto: mediotejo.net

Surgiram os primeiros contactos com nomes de relevo em diversas áreas com quem se habituou a conviver desde cedo a nível pessoal e profissional. Entre eles estavam as atrizes Irene Isidro e Laura Alves e, quando regressou a Portugal, em 1969, tinha amigos à espera em Lisboa. Foi através da última que conheceu Vasco de Lima Couto, a quem dedicou a Casa-Museu um ano depois da sua morte. O espaço foi inaugurado em 1981 por Ramalho Eanes, o então Presidente da República, e continuou a “tradição” de ser frequentado por personalidades.

Na confluência de muitas histórias

O general Junot ali ficou durante as Invasões Francesas (1807) e quando o caudal dos rios levantou a barreira das cheias, as tropas seguiram para Lisboa deixando para trás destruição, descendência (defendem alguns) e a toalha de mesa em veludo que José Ramoa guarda. Nessa altura, Constância conhecia-se por Punhete e ainda não se tinha tornado “Notável Vila” por ordem de D. Maria II (1836). A rainha levou-lhe o nome e o ministro Passos Manuel, que também se instalou na habitação depois de casar.

Muitas pessoas famosas conheceram as divisões do palacete construído nos finais do século XVIII e o último inquilino oficial antes de José Ramoa foi o pintor e professor José Campas. A casa foi comprada em 1975 aos herdeiros deste artista, que representou o Governo Português na Exposição Internacional de Paris, em 1937, e juntou-se às alugadas em Lisboa e Estremoz. Vasco de Lima Couto era companhia frequente e, além de o acompanhar na primeira visita e nas mudanças, acabou por se instalar no andar de baixo.

José Ramoa criou a Casa-Museu para homenagear o amigo Vasco de Lima Couto. Foto: mediotejo.net

As letras de quem fez Amália questionar “Que povo é este, que povo” através do Fado Menor passaram a fazer parte da “Vila Poema” devido ao interesse de José Ramoa pelas antiguidades. O “Zé Brasileiro” assistiu ao primeiro encontro dos rios Zêzere e Tejo motivado pela profissão que trouxe do Rio de Janeiro.

A profissão, e também a amizade com o arquiteto paisagista Roberto Burle Marx, com quem teve aulas e que vinha à vila quando estava neste lado do oceano Atlântico, deixando obra exposta no Salão Nobre da Câmara Municipal. As plantas que vemos preparadas em cima da mesa regressam temporariamente ao outro lado para uma exposição em Nova Iorque.

Mais rápidas eram as viagens de Francisco Relógio ou Mário Cesariny, que foram deixando registos nas visitas regulares aos pátios com vistas privilegiadas das quais o gato usufruía no dia da nossa visita.

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Outros ficaram mais tempo, como Alexandre O’Neill, que habitou a casa durante dois anos antes de alugar uma na vizinhança e continuar a marcar presença nas tertúlias que juntavam intelectuais portugueses e estrangeiros na casa situada no Largo Avelar Machado.

As plantas arquitetónicas de Burle Marx a aguardar viagem até uma exposição em Nova Iorque. Foto: mediotejo.net

Apesar de José Ramoa considerar que a vila “tem perdido muito nestes últimos oito anos”, relembra que quando chegou o local era “uma maravilha de mundo” que assegurava a constância de muitas pessoas pelo antigo palacete e as ruas, que agora se encontram “vazias”. O cenário mudou, ficaram as memórias das saídas noturnas e dos recantos floridos, na altura em que ainda não se tinha reformado da vida ligada à comunicação e relações públicas, artes e organização de exposições.

O museu que recebeu no ano passado mais de 4000 visitantes é dedicado a Vasco de Lima Couto, mas diz muito sobre o seu dono. Obras originais pintadas ou escritas por diversos artistas são facilmente encontradas pelo espaço. Dedicatória surge atrás de dedicatória e são elas que identificam uma parte significativa das peças expostas, sem necessidade de placas informativas. Assinaturas com histórias, muitas associadas a momentos passados entre aquelas paredes, que podem ser conhecidas de forma gratuita, mediante marcação.

José Ramoa não consegue associar um número ao espólio, mas de poemas inéditos de Vasco de Lima Couto avança “perto de mil”. Todos neste espaço em que cada canto, cada gaveta, cada prateleira, cada centímetro traz uma descoberta inesperada. Num lado, o álbum fotográfico da família do realizador de cinema Manoel de Oliveira, do outro as fotografias das visitas de Rui de Brito, Duque de Bragança, Maria Lucília Moita, Mário Soares, Vítor de Sousa, Susana Prado e Armando Vara, só para nomear alguns.

Retrato de José Ramoa oferecido pelo mestre Martins Correia. Foto: mediotejo.net

As salas desembocam noutras salas. Um labirinto que nos leva à biblioteca com milhares de títulos dos mais variados temas, à recriação do camarim de Vasco de Lima Couto, à poesia de Manuel Mengo, às artes plásticas do mestre Martins Correia, aos quadros de Burle Marx, ao manuscrito inédito de Sebastião da Gama ou à bandeira original da Mocidade Portuguesa. Camões não frequentou a casa, mas também pode ser encontrado lá, numa tela de António Araújo.

A maioria das peças, incluindo quadros de Albino Moura, Helena Justino ou Mário Carvalho, foram oferta. “Vêm e deixam-me sempre uma lembrança”, refere José Ramoa com a mesma naturalidade com que encaramos os “recuerdos” e os “souvenirs” que os amigos nos trazem das suas viagens. Existem diferenças, claro. Ter um íman para o frigorífico a dizer “Havana Club” não é a mesma coisa do que uma tela entregue com os cumprimentos de Fidel Castro, mas aqui é o valor simbólico do ato que conta.

Até porque são os “amigos”, e não os artistas, que diz receber em casa, pois defende que “todas as pessoas são artistas numa coisa ou noutra”.

*Entrevista publicada em março de 2018, republicada em abril de 2019

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1 COMENTÁRIO

  1. Uma excelente reportagem sobre um espaço magnífico especial associado à memória de um dos nossos grandes poetas.
    Parabéns à Sónia e um abraço ao amigo José Ramoa!

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