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Constância | Boga Ribeiro deixa comando da Brigada Mecanizada e assume cargo na NATO

O Major-General Boga Ribeiro deixou o comando da Brigada Mecanizada em Santa Margarida e é agora o 2.º Comandante da “NATO Rapid Deployable Corps” (NRDC-ESP), em Espanha, sucedendo no cargo ao Major-General Viegas Pires. Além do 2.º Comandante, o Exército Português tem mais três oficiais superiores em missão neste Quartel-General, onde prestam serviço militares de 12 países. O Brigadeiro-General Sérgio Augusto Valente Marques tomou posse como Comandante da Brigada Mecanizada.

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O então Brigadeiro-General João Pedro Rato Boga de Oliveira Ribeiro, hoje Major-General, tomou posse como Comandante da Brigada Mecanizada, em Santa Margarida, a 30 de junho de 2020. Seis meses depois da tomada de posse, por alturas de um Natal em confinamento, o mediotejo.net entrevistou o militar conhecido como o “comandante humanista”, reportagem que hoje recuperamos, poucos dias depois de assumir uma nova missão.

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João Pedro Boga Ribeiro apresenta-se um homem simples, um beirão (com uma costela alentejana) que nasceu na Covilhã a 29 de dezembro de 1964. Entrou para a Academia Militar com 17 anos e terminou o curso de Infantaria em 1987. O seu percurso militar passou muito por Mafra, na Escola Prática de Infantaria, pela Madeira, no então Regimento de Infantaria do Funchal, depois pelo Instituto de Altos Estudos Militares, como professor. Desempenhou funções como assessor militar do ex-Presidente da República, Cavaco Silva, ocupou um cargo no quartel-general da NATO em Nápoles, fez duas comissões operacionais no Kosovo e comandou a EUTM Mali em cenário de pandemia. Aliás foi em Nápoles que, apesar de ter crescido habituado a nevões, ganhou o gosto pelo ski, o seu desporto de eleição. É casado e tem três filhos.

O mediotejo.net recupera uma conversa com o ex-comandante da Brigada Mecanizada, que esteve nesta missão desde 30 de junho de 2020, no campo militar de Santa Margarida, em Constância.

O Brigadeiro-General João Pedro Boga Ribeiro, Comandante da Brigada Mecanizada. Foto: mediotejo.net

Assumiu o cargo de comandante da Brigada Mecanizada no final de junho de 2020. Qual a sua prioridade para esta Brigada?

A minha prioridade para a Brigada Mecanizada são as pessoas. Independentemente do índice tecnológico e material que caracteriza muito esta Brigada –  e é por isso que se chama Brigada Mecanizada -, que dá corpo à expressão pesada do Exército e portanto muito dependente dos equipamentos e do material. Mas o material não consegue sozinho cumprir as missões. São as pessoas que o fazem, e por isso a sua motivação, as condições de vida e de trabalho e a quantidade e qualidade das pessoas que podemos beneficiar na Brigada é incontornavelmente a prioridade das prioridades. A Brigada é em si um elemento muito aglutinador de vontades mas ao mesmo tempo um sítio onde há uma grande intensidade de trabalho. Quanto menos forem as pessoas, mais trabalho fica remanescente para cada uma. A Brigada tem dado sempre muito boa resposta a esse desafio, mas tudo aquilo que puder fazer para atrair as pessoas a virem servir na Brigada e a proporcionar as melhores condições de trabalho, é de facto a minha prioridade.

Alguma outra?

Outra prioridade passa pela preservação e melhoria do património infraestrutural, material e ambiental à responsabilidade da Brigada, e da escola do conhecimento militar nas áreas em que a Brigada se constitui como uma capacidade distintiva do Exército.

Já que falamos de pessoas, como se conquistam jovens para as Forças Armadas?

Há várias razões que podem levar os jovens a vir para as Forças Armadas, umas mais emotivas, outras mais materiais. As mais emotivas estão relacionadas com a forma intrínseca de ser dos militares. Os valores que cultivam, a formação que têm, a capacidade, com a sua formação e valores, de se adaptarem aos diferentes desafios. Um exemplo muito típico é o que aconteceu com a pandemia: o Exército tem dado uma resposta muito eficaz e muito eficiente ao que lhe tem sido solicitado e isso está intimamente relacionado com a nossa cultura organizacional, com os valores de serviço que aqui se praticam e a disponibilidade e adaptabilidade para fazer face a novos desafios. Incontornavelmente também podem ser fontes de motivação para vir para o Exército, e para as Forças Armadas, aquilo que são as oportunidades que o Exército proporciona. Desde logo um início de vida com uma remuneração garantida, com um conjunto de ações de formação em grande parte certificada, com experiências profissionais no território nacional e fora do território nacional no cumprimento de missões de paz, humanitárias, ou até missões mais complicadas que a Nação atribui às Forças Armadas e isso também é uma experiência de vida única.

No essencial, o que é que se aprende na vida militar?

A pôr o coletivo acima do individual. É uma constatação muito interessante que temos dos militares, passado uns tempos de saírem do Exército nos dizem quais foram as grandes lições que aprenderam. Tem muito a ver com a tal cultura organizacional e o sentido de camaradagem que são depois muito importantes para o exercício das suas profissões nas mais diversas áreas de atividade. Mesmo assim, é verdade que, o Exército em particular, se tem defrontado com algumas dificuldades na obtenção de recursos humanos e isso tem a ver com a realidade nacional e com as motivações da juventude. Temos exercido muitas iniciativas de comunicação, de explicação do que é atividade militar, do que é o Exército. Tem produzido alguns resultados, mas é sempre uma área de trabalho intenso e que tem de ser continuado.

Para ser militar é preciso ter vocação ou o interesse trabalha-se?

Ter vocação ajuda muito. Ter interesse maior do que seja um interesse momentâneo ou material, ajuda muito. Até porque as vicissitudes da vida militar, como em tantas outras profissões, há sempre dias bons e dias menos bons. E daí que a motivação e a vocação seja importante. Contudo, não é de menos importância saber o que um jovem pode obter na instituição militar do ponto de vista da sua cultura organizacional. A questão dos valores, da camaradagem, do coletivo em relação ao individual, do sentido do dever da missão, a disciplina na forma mais benigna do seu entendimento – às vezes as pessoas entendem a disciplina como uma coisa rígida mas é uma questão de educação -, em sabermos posicionar-nos em cada momento em relação a cada situação numa determinada organização e isso ajuda-nos a resolver cada situação da nossa vida, seja na instituição militar, seja lá fora. A vocação é muito importante mas, para quem queira vir experimentar, encontra uma organização que acolhe as pessoas, que lhes dá formação, um conjunto de informação de valores. Uma maneira de contribuir para algo que é maior do que eles e que podem aqui encontrar.

O Brigadeiro-General Boga Ribeiro enquanto comandante da EUTM Mali. Créditos: Exército Português

Foi apelidado de comandante humanista. Quer comentar?

Resulta de uma entrevista que tive o privilégio de conceder a um canal de televisão e que resultou do conteúdo da própria entrevista. Não é algo que me atrevesse sequer a apelidar-me! Sou uma pessoa rigorosamente normal. Procuro cumprir com as minhas responsabilidades da melhor forma que consigo como qualquer um dos comuns mortais. Esse conotação está um bocadinho relacionada com a experiência que tive como comandante da missão da União Europeia no Mali, fruto daquilo que tive oportunidade de ver, experimentar e de observar. Uma realidade que muitas vezes não assumimos como verdadeira porque vivemos num continente e num país que, independentemente das dificuldades, tem um conjunto de características de vida que nos permitem ter algum conforto, capacidade de acesso à educação, à saúde, ao trabalho. Quando temos oportunidade de cumprir missões em zonas no mundo onde essas condições não estão asseguradas, nem de perto nem de longe, para toda a gente, faz-nos ver a vida com outros olhos. E se aí estiverem associadas questões de natureza securitária ou de segurança complicadas, com situações económicas, humanitárias e do ponto de vista sanitário muito complexas, o valor de cada coisa assume uma dimensão diferenciada.

Santa Margarida já foi um campo militar relevante para o Exército Português, nomeadamente durante a guerra colonial. Atualmente é uma Brigada que se adaptou aos novos tempos? Faz sentido em Santa Margarida?

O campo militar de Santa Margarida tem uma tradição, com algumas décadas, do grande campo de manobras do Exército Português e mesmo das Forças Armadas e Forças de Segurança portuguesas que aqui precisam de fazer os seus treinos. E não exclusivamente das Forças Armadas. Há muitas entidades que utilizam as nossas capacidades aqui em Santa Margarida. É uma infraestrutura absolutamente essencial para a manutenção da escola do conhecimento, do sistema de forças terrestres e do sistema de força nacional, pela dimensão que tem e pelas condições de segurança que proporciona. São três as áreas que marcam a diferença desta Brigada: a primeira é o que a torna diferente, nomeadamente a incorporação das valências distintivas de um Exército, como a Infantaria Mecanizada, os Carros de Combate, a Artilharia Autopropulsionada, a Engenharia de Combate Pesada ou a Logística Pesada de Campanha, e o facto único de se encontrar localizada toda na mesma área. A segunda é o facto da Brigada ser responsável pelo maior campo de treino do Exército e a forma ambientalmente responsável como dele cuida. A terceira é a sua versatilidade, porque embora possuidora de equipamentos pesados, a sua experiência e competências tornam-na capaz de realizar qualquer missão, para além daquelas que só esta Brigada pode realizar, seja em operações puramente militares, como as ofensivas, as defensivas e as de estabilização, seja nas operações de apoio civil.

Quantos efetivos tem a Brigada Mecanizada?

A Brigada tem uma dimensão humana entre as mil e 1100 pessoas que aqui trabalham. Já teve muito mais gente, chegou a ter cerca de 6 mil efetivos. Neste momento a Brigada estará a cerca de 50% dos seus efetivos mas mesmo assim estas 1100 pessoas desenvolvem a sua atividade no sentido da preservação da escola do conhecimento, do treino operacional, do aprontamento de forças, do contributo para as operações de apoio civil, agora no apoio à prevenção e contenção dos efeitos da pandemia. Temos equipas de ações de sensibilização nos lares a operar, temos uma equipa de rastreio epidemiológico aqui a funcionar no contributo para o sistema nacional de saúde e também na preservação de todo este património que tem dezenas de anos de vida mas que precisa de ter bastantes mais, porque é uma estrutura essencial para o sistema de forças nacional.

E é sustentável para o Exército manter um quartel com este número de efetivos em Santa Margarida?

A sustentabilidade é um assunto da maior importância para o Exército e é por isso que a Brigada desenvolve atividades muito significativas no âmbito da gestão agroflorestal e da questão ambiental. É por isso que a Brigada é uma entidade certificada de gestão ambiental, para proporcionar justamente essa sustentabilidade. O campo militar tem cerca de três quilómetros quadrados na sua zona urbana e depois mais 64 quilómetros quadrados na sua zona agroflorestal, cuidada diariamente por uma parte da Brigada que se dedica a garantir a diversidade da natureza, preservando as culturas que aqui existem. Do ponto de vista da floresta e do ponto de vista da pastorícia que contribui para um sistema ambiental bem consolidado para que o campo seja preservado em relação à ameaça dos incêndios e também contribua de uma forma equilibrada e em conjunto com todas as outras áreas de terreno que o circundam, harmonizada para todo o ambiente da região. A atividade militar tem algumas influências na questão ambiental e é justamente por isso que a Brigada faz contrapor a essas influências um conjunto de medidas muito rigorosas no âmbito da gestão ambiental dos resíduos, dos hidrocarbonetos, da preservação da vida natural na zona do polígono e que vem merecendo a atribuição de prémios no âmbito do ambiente e da certificação ambiental que somos beneficiários. É uma área de excelência e absolutamente fundamental e tem de ser porque é o maior campo de manobras do Exército.

Brigadeiro-General João Boga Ribeiro foi comandante da Brigada Mecanizada desde junho de 2020 a janeiro de 2021. Foto: Exército

Este é um ano atípico, com uma pandemia, mas como foi definido o plano de atividades para este ano e para o próximo?

Relativamente ao plano de atividades a Brigada segue os mesmos procedimentos do plano de atividades de uma instituição estatal até porque está indexado aos orçamentos que têm de ser previstos de um ano para o outro. Os planos existem e continuaram a ser desenvolvidos durante o ano de 2019, 2020 e já estamos em preparação para a sua execução em 2021. Esse plano de atividades incorpora as áreas de gestão agroflorestal, as áreas da gestão ambiental, áreas do treino operacional, áreas do aprontamento de forças – estamos neste momento em vésperas de projetar uma força para o teatro de operações do Afeganistão -, as áreas da preservação do património urbano, material, do parque de viaturas de de sistemas que a Brigada é responsável e na colaboração das entidades do Exército, das Forças Armadas e mesmo de outras entidades internacionais. A Brigada tem uma geminação com a Brigada 11 da Estremadura do exército espanhol e que também faz parte do nosso plano de atividades. Incontornavelmente este ano esse plano de atividades foi muito influenciado pelos efeitos da pandemia e também pelas atividades que foram solicitadas à Brigada e ao Exército no âmbito da pandemia.

Tais como?

A Brigada contribuiu com cedência de equipamentos para instalação de áreas de repouso ou de campanha caso fosse necessário, contribuiu para as ações de sensibilização nos lares, para ações de desinfeção também em diversas instituições. Está neste momento também a contribuir para o rastreio epidemiológico no âmbito das equipas solicitadas para as Forças Armadas. Fará esse trabalho enquanto for solicitado e terá uma influência sobre o nosso plano de atividades normal, como acontece com qualquer outra organização do Estado ou privada.

O Brigadeiro-General Boga Ribeiro em visita à equipa da Brigada Mecanizada que está a realizar ações de rastreio epidemiológico, em reforço do SNS. Créditos: DR

E relativamente aos infetados com SARS-Cov-2? Como é o procedimento dentro do campo militar?

O procedimento é em tudo idêntico àquilo que acontece com o cidadão normal. Felizmente a Brigada não tem sido alvo de um grande impacto direto, com infetados, no âmbito da covid-19. Acontece que há militares que contactam com pessoas fora e depois ficam contaminados. O procedimento é ligar para a linha do Serviço Nacional de Saúde e receber as indicações. Temos um sistema paralelo que é um Trace Covid militar, mas não substitui. Temos para a preparação de forças militares ou o tratamento de militares que estejam nessas condições, através do hospital das Forças Armadas e do sistema de saúde militar, a possibilidade de fazer essa intervenção relativamente aos militares da Brigada e do Exército de uma forma geral. Mas diria duas mensagem essenciais: que se aplica aos militares exatamente a mesma coisa que se aplica a um cidadão civil quando entramos em contacto com uma pessoa que pode estar contaminada. A outra é que aqui dentro temos um sistema paralelo que implica sempre uma informação ao Serviço Nacional de Saúde e aos seus sistemas de informação mas que permite fazer testes ou o acompanhamento de uma forma mais direta através do sistema de saúde militar. Aqui dentro fazemos o acompanhamento diário das pessoas que estão contaminadas ou dos potenciais influenciados e os procedimentos necessários à preservação do potencial de forças que temos de projetar; quarentenas antes de serem projetados para o teatro ou quarentenas quando vêm do teatro. Fazemo-las aqui em locais que estão previamente determinados, temos zonas de isolamento, temos um centro de saúde que nos apoia. Os militares ficam no campo militar ou nas suas residências como qualquer outro cidadão. Se as pessoas têm condições para ficar em casa de uma forma isolada podem ficar em casa, se não têm, temos nós as condições.

Qual a missão da Brigada Mecanizada?

A Brigada Mecanizada tem uma missão muito abrangente que coincide com as restantes duas Brigadas. O Exército tem três Brigadas; uma de Reação Rápida (as forças ligeiras), uma Brigada de Intervenção (as forças médias) e uma Brigada Mecanizada (as forças pesadas). No seu conjunto as três brigadas contribuem para o cumprimento das missões de largo espectro do Exército em missões ofensivas, defensivas, de estabilização ou de apoio civil. Fazemos todo esse género de operações e é por isso que estamos a projetar uma força para o Afeganistão que vai ter a responsabilidade de garantir a segurança do aeroporto nacional de Cabul. Ou estamos a fazer ações de sensibilização em lares, ou de rastreio epidemiológico, ou formação dos cidadãos que querem ingressar no Exército, ou a preservar o património da Brigada, ou estamos a fazer os exercícios que visam garantir as competências das unidades da Brigada, dotadas de um conjunto de equipamentos que são mais pesados (viaturas mecanizadas, lagartas, carros de combate Leopard que é o sistema de armas mais complexo do Exército, artilharia de campanha, engenharia de combate, artilharia antiaérea, o apoio de serviços). A Brigada tem um batalhão que é uma unidade única a nível nacional. Tem um leque de aplicação muito abrangente sendo a valência que a distingue o tipo de sistemas pesados que mais nenhuma tem. Portanto, faz tudo o que as outras Brigadas fazem e especificamente aquilo que os seus sistemas (pesados) lhe garantem.

Quando chegou a 30 de junho para comandar já conhecia a Brigada Mecanizada. Desde então algo o surpreendeu?

Quando entramos para a Academia Militar todos os finais de ano se fazem exercícios finais para os cadetes em Santa Margarida. Portanto, Santa Margarida faz parte do nosso imaginário coletivo mesmo que não tenhamos servido na Brigada. A entrada à porta de armas quando se olha para esta avenida com a igreja ao fundo e com as instalações, tem sempre esta imagem de uma grande dimensão e de algo que é eminentemente militar e que é difícil de encontrar noutra área do território nacional. Qualquer pessoa, julgo eu, quando chega à porta de armas ficará sempre impressionada com esta primeira imagem. À medida que a nossa carreira vai evoluindo essa imagem da dimensão vai evoluindo para maior conhecimento do que significa cada uma destas áreas da Brigada e mesmo da área do polígono que se encontra a seguir à área urbana. Tem a ver com a quantidade de vezes que temos de passar por aqui justamente porque é uma área onde existem condições únicas para o desenvolvimento do treino operacional militar. Tive a oportunidade, além de passar por Santa Margarida diversas vezes, de participar no aprontamento de uma unidade que durante o ano de 2000 e 2001 esteve projetada no teatro de operações do Kosovo e fiz aqui um aprontamento. A Brigada surpreende-me sempre pela sua capacidade de se reinventar e se adaptar independentemente das dificuldades de recursos humanos fundamentalmente que tem ou naquilo que é a dimensão urbana, a dimensão material, de ir garantindo o funcionamento e a preservação da escola do conhecimento que aqui se tem e que é única. E isso deve-se muito às pessoas que aqui servem. A surpresa é do ponto de vista agradável porque nunca fiquei de alguma maneira desiludido. Há sempre uma capacidade da Brigada, seja qual for o desafio, de aceitá-lo, compreendê-lo, fazer-lhe face e dar-lhe uma resposta tão adequada quanto possível. Isso surpreende-me todos os dias de uma maneira muito positiva.

Como comandante, como descreve o seu papel aqui?

Ser comandante da Brigada é em primeiro lugar uma enorme responsabilidade. Como disse no inicio da nossa conversa a minha prioridade são as pessoas, portanto é dar-lhes uma orientação adequada e angariar o conjunto de recursos essencial para que possam cumprir as suas funções da melhor maneira possível. Isso exige um esforço diário de acompanhamento das pessoas, de compreensão das dificuldades pelas quais passam, sejam elas de natureza pessoal ou profissional. E na procura das soluções possíveis sabendo que não conseguimos nunca encontrar todas as soluções para todos os problemas. Responsabilidade é a palavra que imediatamente me surge na cabeça quando penso que sou o comandante da Brigada. A segunda palavra é de prestígio. Esta Brigada beneficia pelo seu histórico, pela capacidade de manter uma cultura organizacional muito própria, o que se traduz do reconhecimento da qualidade do que a Brigada faz. Isto contribui para a primeira parte da responsabilidade que é garantir que se continue a criar as condições para que a Brigada possa manter esta credibilidade de que goza dentro do Exército, dentro das Forças Armadas e mesmo fora do Exército. A terceira ideia, como comandante, é de uma grande sorte por alguém ter achado que eu poderia eventualmente ter a capacidade de exercer o comando de uma unidade tão complexa, tão abrangente e com uma atividade tão intensa como a Brigada.

Aqui preparam-se também militares para missões internacionais. Qual o papel dos portugueses nesses palcos de conflito além fronteiras? Ou seja, retira dos contributos dos militares portugueses nas missões, algumas lideradas por Portugal, reconhecimento e prestígio?

Tive a oportunidade de sentir isso nas missões que tenho tido o privilégio de ter participado mas não só. Julgo que é uma característica muito coerente e comum ver um reconhecimento muito genuíno por parte das populações nas áreas onde somos chamados a ser projetados ou por parte das entidades estatais e outras que nos solicitam esse apoio. Julgo que é resultante de um conjunto de fatores; em primeiro lugar o grau de preparação que os nossos militares dispõem e que foi construído ao longo de bastante tempo de experiência na participação em missões internacionais. É muito evidente na forma como as unidades que projetamos são aceites do ponto de vista da credibilidade profissional que gozam nessas missões mesmo em relação a contingentes congéneres de outras nacionalidades. Outro fator que acho muito importante é a nossa capacidade comunicacional. Isso não tem a ver com o facto de sermos militares mas em sermos portugueses. Gera-se uma empatia muito fácil entre os militares portugueses independentemente de serem oficiais, sargentos ou praças com as pessoas que têm a responsabilidade de proteger ou apoiar. Também é muito visível. Chamei-lhe o jeitinho português mas é mesmo assim. Está-nos no sangue, no nosso ADN a forma de conseguirmos comunicar com outros povos, com outras nacionalidades e isso ajuda muito no âmbito das missões que temos de fazer, mesmo naquelas que são mais complexas. Em conjunto com este profissionalismo que nos é reconhecido, com a capacidade comunicacional, em todas as missões que temos sido chamados a cumprir – no âmbito das Nações Unidas ou da União Europeia ou da Aliança Atlântica -, há uma resultante que julgo traduzir-se na questão da credibilidade. Aquilo que se faz quando somos projetados para um teatro seja durante 6, 9 meses ou um ano, é viver intensamente 24 horas por dia, sete dias por semana para defender aqueles que não tem possibilidades de se defender ou para lhes criar as condições para que os seus próprios sistemas possam ganhar as competências para o fazer. E isso resulta sempre numa grande satisfação, quando regressamos.

O Brigadeiro-General Boga Ribeiro enquanto comandante da EUTM Mali. Créditos: Exército Português

Antes de chegar a Santa Margarida o Brigadeiro-General João Pedro Boga Ribeiro esteve 6 meses no Mali numa missão da União Europeia, a European Union Training Mission (lançada em fevereiro de 2013) liderada por si de 12 de dezembro de 2019 a 12 de junho último. Qual o objetivo da sua missão nessa frente? Como foi liderar 29 nações e lidar com tantas línguas?

Felizmente, até porque seria impossível para mim, não tive de abordar o assunto em 29 línguas, mas normalmente utilizava quatro: o francês porque é a língua oficial do Mali, a par de um conjunto de outras línguas tradicionais locais das quais aprendi algumas palavras em bambara e que utilizava quando procurava ser cortês e educado em encontros com as entidades malianas ou com os malianos; o inglês porque é a língua de trabalho da União Europeia particularmente nas ligações dentro da missão e em Bruxelas; o espanhol porque havia um contingente muito significativo do reino de Espanha; o português que era a área onde procurava descansar com os portugueses que ali trabalhavam na missão. A missão designada por European Union Training Mission – existem três desta natureza, uma no Mali, outra na República Centro Africana e outra na Somália – tema  finalidade de dar as capacidades às forças armadas locais ou a organizações regionais de segurança e defesa para que possam garantir as condições de segurança às populações e as condições do exercício da autoridade do Estado nas diferentes áreas do território e desta maneira contribuir para a estabilização do território e, se for o caso, dar a oportunidade ao desenvolvimento.

A missão European Union Training Mission tem alguns anos…

A missão da União Europeia no Mali está no território há sete anos. São missões complexas porque o que fazemos é procurar dar aos outros a capacidade de fazer as operações. E esta capacitação já é difícil em países que vivem situações de paz, é mais complexa quando no território se vive um conflito real, que tem imensas razões de ser do ponto de vista social, económico, humanitário, securitário com conflitos interétnicos, com presença de organizações de âmbito terrorista no teatro que exponenciam todos estes fatores e com conflitos de natureza política de separação que tornam a ação das forças armadas locais mais complexa porque estão a combater e ao mesmo tempo têm de contar com o nosso apoio para os ajudar a combater melhor. É efetivamente uma missão difícil, muito intensa. A própria missão composta por tantas nações… o desafio é procurar encontrar um denominador comum. Incontornavelmente a bandeira da União Europeia. Aquilo que o comandante tem de fazer é trazer o que cada um tem de melhor para que o esforço, sob a bandeira da União Europeia, possa contribuir para os locais, quem depois tem de fazer as missões. Ensiná-los, acompanhá-los, apoiá-los com todas as nossas competências para que possam melhorar a sua performance operacional.

A pandemia teve impacto na sua missão?

Infelizmente teve. Chegámos no dia 3 de dezembro, tivemos alguns dias de sobreposição com o comando anterior, que era um comando austríaco, e depois de ter tomado posse tive até ao final do mês de dezembro para fazer uma reanálise do que estava em causa e quais as maiores prioridades para fazer face porque a situação securitária vinha-se degradando durante o ano de 2019 e continuou a degradar-se durante o ano de 2020. Portanto foi preciso fazer algumas alterações na forma de operação da missão. Foram coordenadas com as autoridades malianas e logo no início de janeiro começamos com uma grande atividade de formação que durou até final do mês de março onde a missão conseguiu ter resultados que foram praticamente equivalentes a períodos de seis meses anteriores, portanto fizemos praticamente o dobro do que estávamos a conseguir. Tínhamos uma dinâmica muito interessante de formação de unidades malianas para poderem de forma coesa fazerem as operações que tinham de fazer. Tal como aqui, desde fevereiro começamos a preparar-nos para eventuais efeitos da pandemia.

Como é enfrentar a covid-19 em África?

A covid-19 para o Mali é apenas mais um problema. Do ponto de vista sanitário o problema maior no Mali é a malária. Tivemos situações em que foi necessário fazer a prevenção de um surto de febre hemorrágica que estava a cerca de 150 quilómetros de uma operação que tinha a 600 quilómetros do meu local, ou do quartel general. Frequentemente a operação destacava equipas robustecidas para centenas de quilómetros a norte, para a região do Centro ou mesmo para o Norte para apoiar aí a formação das forças armadas malianas. E a covid-19 teve uma influência direta na população do Mali que não foi igual aquela que se viu na Europa. Acontece que afetou diretamente a missão. A forma de trabalhar da missão era muito próxima dos malianos e portanto as condições de disponibilidade de máscaras, oxigénio, sistemas sanitários não eram os mesmos que existiam na Europa independentemente de haver uma muito maior dimensão de covid-19 na Europa. No dia 3 de abril tivemos o primeiro caso na missão, no quartel-general chegámos a ter 10 casos na missão, tive de fazer um encerramento do quartel-general durante cinco semanas, suspender a atividade de formação da missão, fazer quatro evacuações estratégicas de emergência, que não foram fáceis, porque três tiveram sintomas muito graves e foi preciso tirá-los porque não havia outras condições para lhes dar capacidade de sobrevivência. Felizmente sobreviveram todos, é algo que não me pesa na consciência ter ficado alguém lá. Tivemos de fazer uma diminuição do efetivo da missão.

Eram quantos efetivos?

Era um bocadinho variável mas entre 830 a 850 efetivos. Tive de fazer uma evacuação de cerca de 330 elementos dos diferentes países. Houve impacto porque a missão teve de fazer uma suspensão das atividades fundamentais de formação. Mantivemos as ações de aconselhamento e cinco semanas depois de controlado o surto no quartel-general de imediato reiniciei a ligação com as autoridades malianas, político-militares, e procurei reativar as atividades de aconselhamento e de formação possível. Só agora em novembro é que a missão recuperou algumas atividades de formação e já está a funcionar em pleno embora tenha havido, por duas vezes, mais efeitos da covid-19 na missão.

Ainda assim, o que retirou dessa experiência no Mali?

Do ponto de vista do comando de uma missão internacional, uma experiência inigualável. Comandar uma missão que conjuga vontades de 29 nações é um desafio diário mas extraordinariamente motivante. Também porque a qualidade da grande generalidade das pessoas com quem tive o privilégio de trabalhar era efetivamente muito relevante. Os meus mais diretos colaboradores, desde logo a minha equipa nacional, era uma equipa pequena mas de elevadíssima qualidade e depois a estrutura de comando, o segundo comandante, o chefe do estado maior. Embora houvesse uma grande rotatividade destas funções, tive três segundo comandantes, três chefes do estado maior durante os seis meses que ali estive. Seis meses para o computo geral da missão é um período curto, mas quando se vivem esses seis meses de forma diária parece bastante mais tempo. Mas do ponto de vista do comando de uma missão internacional é efetivamente uma experiência extraordinária até porque o comandante de uma missão não é exclusivamente comandante de uma missão militar, é chefe de missão portanto tem de se relacionar com as autoridades político-militares malianas, com as autoridades diplomáticas presentes no Mali, com as autoridades militares em Bruxelas.

E do ponto de vista dos efeitos que a missão visava produzir?

Diria que há duas áreas muito interessantes. A primeira é a articulação com as restantes missões, com a missão das Nações Unidas que é a maior missão da ONU numa zona de elevadíssimo risco, a Minusma, e a Operação Barkhane liderada pela França onde tínhamos a preocupação de conseguir –  e para esse efeito acho que se conseguiu contribuir -, de articulação das três missões para que cada uma pudesse fazer da melhor maneira possível o que tinha de fazer. A Minusma mais no sentido de proteção da população, a Barkhane mais no sentido da luta contra o terrorismo e nós no âmbito da capacitação das forças armadas do Mali e de uma organização regional que era a força G5 Sahel. O Sahel tem cinco países: Mali, Mauritânia, Burkina Faso, Níger e Chade. Os três países centrais – Mali, Burkina Faso e Níger – são os mais complexos e a força conjunta G5 Sahel reúne contribuições das forças armadas dos cinco países para ajudar justamente à estabilização das áreas de fronteira.

A sincronia desses esforços foi muito interessante e depois a relação direta com as forças armadas malianas e com as entidades político-militares desde o ministério da Defesa até aos ramos, colaborava com o secretario geral da Defesa, com o chefe de estado maior general das forças armadas do Mali, com o chefe de estado maior do exército da força aérea, da guarda nacional e da gendarmerie. E depois ainda há as missões da União Europeia que também implicam uma sincronia. Havia uma missão civil, que é a EUCAP Sahel Mali comandada por um general francês, onde também trabalham portugueses e com grande competência, civis e da Guarda Nacional Republicana, e a missão diplomática da União Europeia onde também estão diplomatas portugueses. É um esforço de sincronia muito forte para fazer com que tantas entidades possam ter uma resultante bom. É complexo mas muito enriquecedor.

O Brigadeiro-General João Pedro Boga Ribeiro. Créditos: mediotejo.net

Temos outro caso complexo em África, refiro-me a Moçambique. O ministro da Defesa já disse que não iriam militares portugueses para Moçambique e que Portugal iria apoiar com formação. Cabo Delgado foi recentemente debatido na Comissão dos Assuntos Externos do Parlamento Europeu. Se fossemos além da formação, estaríamos preparados para o combate a terroristas ligados ao estado islâmico?

Não posso falar sobre as decisões políticas inerentes à participação nacional, ou não, nessa matéria. Mas posso dizer que há semelhança do que tem acontecido com todas as outras missões, em todos os outros teatros de operações onde Portugal tem sido chamado a participar e particularmente o Exército com as suas forças, o processo desenvolve-se sempre da mesma maneira: compreender o problema, preparar o melhor possível as forças e depois projetá-las para lá com as capacidades necessárias ao cumprimento de uma determinada missão.

A situação em Moçambique parece ter contornos semelhantes em relação a outras situações que se vivem noutras zonas de África, seja a República Centro Africana seja o Mali. São áreas de grande dimensão, que têm uma dificuldade física de controle, onde gravitam conflitos de natureza étnica, com uma situação humanitária muito degradada, uma situação económica muito vulnerável e onde este género de situações geram o potencial para a germinação de fenómenos de natureza terrorista. É o que está, mais ou menos, a acontecer na zona de Cabo Delgado. Portanto, se for entendido uma solução no âmbito de formar as forças locais que são as que melhor conhecem o terreno para lhes dar as competências para elas poderem resolver de forma mais concreta o problema, estou absolutamente convencido que Portugal está capacitado para o efeito até porque tem experiência nestas matérias. Sobre o grau de preparação não tenho dúvidas em afirmar que sim. E será sempre antecipado de um período de preparação especifica para compreender melhor o problema, para poder dar a melhor contribuição e a melhor resposta possível.

Um treino que poderá acontecer em Santa Margarida?

Sim, pode ser feito aqui. Essa solução a acontecer terá sempre de ser objeto de decisão relativa às melhor capacidades que o Exército tem em determinado momento para fazer face a todas as missões que tem de corresponder. Santa Margarida, se for esse o entendimento, em primeiro lugar nacional, sobre o envolvimento, e depois das Forças Armadas e do Exército. Estamos neste momento a preparar uma força para o Afeganistão que incorpora militares da Brigada mas também militares do Açores e da Madeira. Santa Margarida tem sido um local praticamente de passagem obrigatória para toda as forças que se têm projetado para a RCA, para o Mali, para o Afeganistão, para o Iraque, para a Bósnia ou para o Kosovo.

Recebeu a medalha ‘Common Security and Defence Policy Service Medal (CSDP) for Extraordinary Meritorious Service’ por parte do Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Mr. Josep Borrell Fontelles. Esta medalha, de caráter excecional, simboliza a categoria mais elevada das medalhas CSDP da UE, representando o reconhecimento de serviços distintos e extraordinários à missão. Sentiu-se como o dever de missão cumprida?

Senti-me como todas as outras pessoas se sentiram quando viram a sua vida influenciada pela covid-19. Houve momentos muito complicados na missão do ponto de vista securitário mas a decisão mais difícil que tive de tomar foi de suspender a formação. Justamente porque a missão estava com uma dinâmica extraordinariamente interessante e diretamente contributiva para aquilo que era necessário fazer na altura; alimentar o aparelho militar maliano para poder proporcionar segurança às pessoas que necessitavam dessa segurança. Devo dizer que a intensidade desses dias foi enorme, mas correspondeu a uma realização igualmente enorme.

Quando tive que fazer essa suspensão da formação e vocacionar-me mais para dentro da missão a minha preocupação era salvaguardar a vida humana. Foram momentos diferentes. Enquanto na primeira fase tinha a preocupação de garantir o cumprimento da missão assegurando a segurança dos meus militares, na segunda fase foi combater um inimigo que não conseguia compreender complemente, da melhor maneira possível, sabendo que não estava a contribuir completamente para o cumprimento da missão no Mali. Mas era o que se tinha de fazer também para preservar os próprios malianos, porque nestas matérias não há compartimentos estanques. A segunda fase foi mais sacrificada.

O que me descansa a consciência foi termos conseguido controlar o surto e garantir que ninguém perdeu a vida. Se tiver de dizer que na primeira fase fiquei muito realizado e na segunda fase fiquei com a minha consciência tranquila acho que me pode habilitar a dizer que todos em conjunto cumprimos o que era suposto e de nós esperado. Se gostava de ter feito mais? Gostava!

O Brigadeiro-General João Pedro Boga Ribeiro é o novo Comandante da Brigada Mecanizada, em Santa Margarida. Créditos: mediotejo.net

Assistimos hoje a uma cerimónia de solidariedade promovida pela Brigada Mecanizada no apoio a famílias carenciadas. Sente interesse da sociedade civil pelas Forças Armadas, pelo Exército Português?

Sim, de uma forma muito natural, em particular no contexto regional em que vivemos. Tenho uma facilidade muito grande de expressar, uma grande interação e união entre a Brigada e a comunidade onde se insere. Isso é muito visível particularmente do ponto de vista regional. Ás vezes o mais difícil é ultrapassar o grau de desconhecimento e quando as pessoas conhecem e têm a possibilidade de se encontrarem e de falar sobre as coisas, aquelas eventuais resistências que possam resultar sobre uma determinada perceção que se tem, desvanecem-se num instante. Quer aqui quer noutras unidades que tive o privilégio de comandar tenho tido uma noção que a população em geral tem uma ideia muito positiva das suas Forças Armadas e do seu Exército. E nós temos uma preocupação diária de contribuir para o melhor conhecimento do que somos, do que fazemos. Fundamentalmente é sermos cidadãos com mais deveres, com menos direitos mas com uma responsabilidade muito forte de os proteger e de lhes garantir as condições para que possam desenvolver as suas atividades da forma normal que é suposto que aconteça. Se existe ainda alguma perceção de alguma dificuldade de entendimento, a forma de resolver é: venham ter connosco e nós vamos ter com as pessoas e resolvemos isso num instante.

Quantas mulheres estão na Brigada Mecanizada ?

Na Brigada Mecanizada 20% são mulheres. Que é mais ou menos o número que tem o efetivo do Exército em termos da distribuição do género. Sem menorizar o trabalho e a competência dos rapazes e dos homens que servem no Exército, tenho uma ideia extraordinariamente favorável do papel dos militares femininos. Da competência que têm, da dedicação e da humanidade que trazem ao equilíbrio que é preciso proporcionar e nunca senti nenhuma dificuldade de integração ou de cooperação e o grau de exigência é absolutamente igual.

E ocupam cargos de chefia?

Sim. Tenho oficiais, sargentos mulheres que fazem um trabalho extraordinário todos os dias nas mais diversas áreas desde o comando de um esquadrão de carros de combate a áreas do estado maior. Por exemplo, quem gere as contas da Brigada é uma mulher.

O Brigadeiro-General Boga Ribeiro em visita a uma das equipas que realizam as Ações de Sensibilização, junto dos lares em diversas regiões do país. Créditos: DR

Onde nasceu e há quantos anos? Onde vive?

Nasci na Covilhã em dezembro, no dia 29, em 1964. Numa cidade do interior que está felizmente muito mais cosmopolita, aberta, como tem sido uma realidade do interior nacional. Vivo em Alfragide. Saí da Covilhã com 17 anos, fui para a Academia Militar e depois a minha vida profissional acabou por me sediar mais na região de Lisboa e arredores. A minha mulher é professora, trabalha na Venda do Pinheiro há bastantes anos e acabamos por nos fixar ali, com os nossos três filhos que já estão numa idade de grande autonomia.

Sendo assim, identifica-se como sendo um homem urbano ou rural?

Sou beirão mas tenho uma costela de alentejano porque a minha mulher é alentejana e gosto muito do Alentejo. Acho que me consigo adaptar bem aos diferentes ambientes, poderia dizer que sou mais urbano que rural mas gosto muito também dos ambientes rurais. Os meus pais tinham uma pequeníssima propriedade na Covilhã, nós chamávamos-lhe quinta, mas costumava dizer que era uma quarta porque era mais pequenina que uma quinta, e sempre que tínhamos possibilidade íamos passar uns dias nessa pequenina propriedade em ambiente rural. Gosto de visitar o campo.

O que gosta de fazer extra serviço militar?

Confesso que não tenho muita disponibilidade para outro género de hobbies mas quando estive colocado em Nápoles, durante dois anos e meio, comecei a fazer ski. Como sou da Covilhã tinha talvez esse trauma de infância, todos os meus amigos esquiavam e eu nunca fiz ski enquanto criança. Acabei por fazê-lo mais tarde em Itália e é um desporto que gosto muito. Gosto de ler. Não sou muito fã de praia mas como a minha família gosta tem de ser, não tenho grande solução. Sou um homem mais do frio, com roupa para me aquecer.

Afinal quem é o Brigadeiro-General João Pedro Boga Ribeiro?

É um homem simples, que nasceu no interior. Tinha uma vontade de ser militar que nasceu de si porque não tem familiares militares (talvez o meu cunhado que seguramente terá tido alguma influencia sobre essa matéria), que foi da província para Lisboa, para a Academia Militar, e depois foi amadurecendo. Tenho a felicidade de ter uma mulher maravilhosa com quem partilho a minha vida e vamos superando as coisas que temos de fazer, como todos os outros casais. Tenho uma filha com 28 anos, é higienista oral e está a terminar agora medicina dentária, e dois gémeos com 24, um arquiteto e outro engenheiro informático. São três pessoas de grande generosidade humana, bons valores, bons profissionais. Alguma coisa eu e a minha mulher havemos de ter feito bem, sobretudo o mérito é deles. E isso traduz aquilo que acho que sou. Sou também uma pessoa que procuro, tanto quanto possível, soluções de equilíbrio e de consenso.

O Brigadeiro-General João Pedro Boga Ribeiro é o novo Comandante da Brigada Mecanizada, em Santa Margarida. Créditos: mediotejo.net

Qual o seu percurso académico e experiência militar?

Entrei para a Academia Militar em 1982, saí em 87. Na altura era uma licenciatura, fiz o mestrado anos mais tarde. O meu percurso militar passou muito por Mafra na Escola Prática de Infantaria, pela Madeira no Regimento de Infantaria do Funchal na altura, agora Regimento de Guarnição nº3, depois pelo Instituto de Altos Estudos Militares como professor, tive o privilégio de exercer algumas funções como sendo assessor militar do senhor Presidente da República, professor Cavaco Silva, fazer um cargo no estrangeiro no quartel-general da NATO em Nápoles, fiz duas comissões operacionais no Kosovo, comandar a EUTM Mali. Em termos nacionais teria de destacar ter sido comandante da Escola Prática de Infantaria em Mafra e ser agora comandante da Brigada Mecanizada. Acho que é uma vida profissional muito cheia, muito intensa e muito realizada.

Se não fosse militar teria outra vocação?

Não consigo imaginar-me a fazer outra coisa. Assim como tenho a ideia de que o dia que tiver de terminar a minha atividade militar não sei bem como é que vai acontecer. Neste momento acho que vou sentir falta.

Esteve no Kosovo, agora no Mali, como militar qual o cenário mais complicado que enfrentou?

O cenário mais complicado é sempre quando nós perdemos alguém, independentemente de ser uma situação operacional ou de treino. Aquilo que distingue mais a profissão de militar é o relacionamento humano. Portanto quando temos uma situação em que perdemos alguém essas são as situações mais complicadas e infelizmente isso ao longo da minha vida já aconteceu. Do ponto de vista profissional a missão que tive mais exigente… são distintas! A missão EUTM Mali é muito exigente do ponto de vista da abrangência da missão, da compreensão do problema político-militar e do exercício do comando sobre uma missão internacional com todas estas vertentes. Mas é também uma missão para a qual normalmente não há falta de recursos. Quando se comanda uma unidade como a Brigada ou como a Escola Prática de Infantaria fazer o comando dessa unidade e fazer face à falta de recursos é um desafio significativo, justamente porque temos obrigação de contribuir para melhorar a qualidade e ambiente de trabalho das pessoas, porque isso também se traduz numa resposta de maior eficiência e eficácia. Daí que o exercício do comando é sempre o mais recompensador do ponto de vista moral mas sempre o mais exigente do ponto de vista do esforço.

É casado e tem filhos. Falta-lhe plantar uma árvore ou escrever um livro?

Não. Já plantei uma árvore, já escrevi um livro. Plantar árvores é algo que se faz na Brigada com muita frequência e escrevi um livro militar, o resultado do meu trabalho no curso de promoção a oficial general que mais ou menos caracterizou a evolução das Forças Armadas desde o 25 de Abril até à atualidade.

O que é que lhe falta fazer?

Tudo! O exercício da nossa vida é sermos capazes, com o conhecimento que temos, de compreender os desafios que não conhecemos ou sobre os quais não conhecemos tanta coisa. E ser capaz de aplicar a razoabilidade e o bom senso para os procurarmos vencer. E isso acontece-nos todos os dias. Se já fiz bastantes coisas espero ainda ter saúde e capacidade para fazer mais.

Qual a sua maior ambição?

Tenho dificuldade em responder a essa pergunta. Isto pode parecer um bocado vazio ou oco mas a minha maior ambição é conseguir fazer o meu trabalho o melhor que sei e o melhor que posso. Se daí resultar a possibilidade de fazer outras coisas, ótimo! A EUTM Mali surgiu muito repentinamente sem contar com isso. Assim como a Brigada Mecanizada. Tenho talvez outra ambição; de poder ser um bom marido e um bom pai.

O que gostava de ter e dar no Natal este ano?

Gostava de ter uma solução para poder voltar ao normal e gostava de poder contribuir para devolver às pessoas a normalidade das suas vidas.

O Brigadeiro-General João Pedro Boga Ribeiro é o novo Comandante da Brigada Mecanizada, em Santa Margarida. Créditos: mediotejo.net

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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