PUB

Constância | As mãos que fazem a festa da Boa Viagem (c/video e fotos)

É difícil de imaginar todo o trabalho que está por detrás de uma festa como a de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Constância, agendada para os dias 31 de março, 1 e 2 de abril. Nas últimas semanas tem-se intensificado o trabalho de execução de flores de papel para ornamentação das ruas, tarefa que envolve toda a comunidade local desde moradores, escolas e instituições do concelho. Cada um dá o seu contributo para se fazer das ruas floridas um dos motivos de maior interesse dos visitantes.

É um trabalho pouco visível, silencioso, mas que envolve muita gente e muitas horas de dedicação.

Uma semana antes do início da festa estivemos em Constância a acompanhar o trabalho de confeção de flores.

Na sede do Agrupamento de Escolas, logo que se entra sente-se a azáfama das assistentes operacionais, dos alunos e dos professores num corrupio a cortar ou a enrolar papel ou a pedir mais cordel, moldes ou papel.

Aquela sexta feira estava reservada apenas para a confeção de flores de papel e todas as turmas se empenharam na tarefa.

No hall de entrada da escola Luís de Camões estão penduradas fiadas de flores de várias cores, à espera do dia da montagem. A Praça Alexandre Herculano e a rua Luís de Camões são os espaços, cuja ornamentação é da responsabilidade do Agrupamento de Escolas, como nos explica a diretora, Olga Antunes.

Quando lhe perguntamos quantos milhares de flores confecionam, responde que não faz ideia, sabendo apenas que tem de ter flores suficientes para cobrir com flores aquelas duas artérias e ornamentar janelas, postes e entradas, sendo que para isso são precisos muitos cordões de flores.

Olga Antunes, diretora do Agrupamento, mostra algum do trabalho já executado (Foto: mediotejo.net)

“É uma das atividades que agrega todo o agrupamento”, diz Olga Antunes, que encara a ação como uma forma de “passar a cultura e a tradição” o que nem sempre é fácil. Com mais ou menos empenho, os alunos lá fazem as flores e no final têm gosto em chamar a família e os amigos para mostrar o resultado do seu trabalho nas ruas.

Na montagem das ornamentações, um dia antes do início da festa, participam professores, auxiliares e as animadoras da Associação Os Quatro Cantos do Cisne.

O maior receio é a chuva que pode estragar todo o trabalho de muitas horas. “Nós já estamos habituados, normalmente chove, mas mesmo assim vale a pena o trabalho. As flores ficam, com mais ou menos cores, mas ficam”, conclui Olga Antunes.

Sara Nunes, da loja Trapilhos e Sarilhos (Foto: mediotejo.net)

Sara Nunes, da loja Trapilhos e Sarilhos, em pleno centro histórico de Constância, é uma comerciante empenhada na ornamentação para a festa há pelo menos 14 anos. Desde que tem a loja no centro histórico que faz este trabalho, mas já antes, quando funcionava noutro local da vila, também se dedicava a fazer flores.

“A ideia é participar porque já é uma tradição e é uma forma de chamar pessoas à rua”, afirma. No seu caso a responsabilidade é ornamentar a rua Grande que, apesar do nome, é estreita e pequena.

Mesmo assim só para o teto da rua já estão confecionadas cerca de 200 flores e outras tantas para as paredes e postes, num trabalho manual em que conta com a ajuda de familiares e amigos. A montagem está prevista para sexta feira santa, aproveitando-se o feriado.

Vera Marques, da Casa João Chagas (Foto: mediotejo.net)

Do outro lado da praça Alexandre Herculano está a Casa João Chagas, unidade hoteleira gerida pelo casal João Rosa e Vera Marques. Vera é a impulsionadora da ornamentação da rua. Fomos encontrá-la a recortar papel para mais umas flores, tal como faz há muitos anos. Os empresários são os únicos moradores da rua mas, antes de estarem ali, por onde pararam nos seus negócios, sempre participaram nos trabalhos de ornamentação.

Vera nasceu em Santa Margarida mas veio com poucos anos morar para Constância e vive a festa com intensidade. Apesar do cansaço e das horas que se gasta a fazer flores é com gosto que participa. Este ano esteve para não participar mas “se não fizermos, a tradição morre”.

Os trabalhos começaram pouco depois de uma reunião que se realizou no início do ano na Câmara para programar as atividades e envolver os moradores, associações e escolas.

Quando se começa a confecionar as flores surge o dilema: plástico ou papel. Por um lado, o papel é mais fácil de trabalhar mas, se chover, fica estragado. O plástico não tem a mesma beleza, é mais difícil de trabalhar manualmente mas resiste à chuva e ao sol. Portanto, o que se faz é uma combinação entre plástico e papel sendo que prevalece o papel.

Mesmo as funcionárias da sua unidade hoteleira ajudam, até fora das horas de serviço. Disponibilizam-se e encaram a atividade como uma oportunidade de convívio, que culmina num almoço de todo o grupo após a montagem das ornamentações.

Vera Marques sublinha a criatividade que é necessária todos os anos para que as flores sejam sempre diferentes. E depois há o segredo que é preciso guardar até ao início da festa. Por isso, foi com alguma relutância que aceitou tirar fotografias.

Quem participa nesta atividade comunitária só fica triste quando há roubos e vandalismo durante a festa.  Mas moradores e comerciantes cuidam e vigiam as suas ruas com empenho idêntico ao da criação da arte floral.

José Gaio
Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).