Constância | Afinal, as borboletas também têm vida noturna (c/ fotogaleria)

Foto: mediotejo.net

As luzes do Borboletário Tropical do Parque Ambiental de Santa Margarida (PASM) apagaram-se em duas noites de junho para comemorar o quarto aniversário desta infraestrutura única no país. Não para cantar os parabéns, porque foi só no dia 5, mas para as duas visitas noturnas esgotadas que começaram com os últimos raios de sol e terminaram à luz de lanternas. O Borboletário assinalou o quarto aniversário num ano em que o Parque Ambiental de Santa Margarida soma 15 de vida. 

Foi no lusco-fusco que Tiago Lopes, responsável pelo PASM desde a sua inauguração há 15 anos, começou a mostrar um lado da vida dos seres esvoaçantes que poucos conhecem. A maioria das borboletas diurnas começa a procurar o seu cantinho para dormir a partir das 15h30 e os visitantes noturnos foram encontrar a maioria no primeiro sono, como a Borboleta-Folha-Seca (kallima inachus), que optou por uma parede em vez das folhas das plantas que outras preferiram partilhar com as lagartas.

Enquanto as borboletas dormiam penduradas, as lagartas alimentavam-se de forma voraz. As ementas nesta fase da metamorfose incluem, por exemplo, folhas de bananeira que passam a néctar de flores e fruta podre uma vez terminada a fase da pupa e das asas se abrirem pela primeira vez na “maternidade” ao sair da crisálida (ou casulo). Foi aí que conhecemos uma das maiores borboletas do mundo, a Atlas (attacus atlas), uma espécie noturna do sudoeste asiático que pode chegar a atingir mais de 30 centímetros de envergadura.

Este é um dos casos em que a borboleta não tem aparelho bucal e a alimentação apenas é feita no estágio da lagarta. A energia acumulada dura o resto do ciclo de vida que serve, sobretudo, para assegurar a continuidade da espécie depois do encontro entre macho e fêmea nos sete dias que têm de vida.

Os ovos são depositados pela fêmea, eclodem, nascem novas lagartas e a história repete-se. Pelo meio, são muitas as curiosidades que os visitantes podem conhecer diariamente no Borboletário Tropical, que encerra à segunda-feira desde 1 de junho (exceto para grupos escolares).

As borboletas começam a procurar o seu canto para dormir a partir das 15h30. Foto: mediotejo.net

As visitas com grupos de 16 pessoas realizam-se de hora a hora, a primeira às 10h00 e a última às 16h00, às quais se juntaram as duas com início às 20h30 no final daquela semana. Alda Brito, de 36 anos, foi uma das pessoas que decidiram explorar a noite das borboletas na companhia do marido, um casal amigo e crianças.

A visitante de Tomar defende que estas atividades deviam repetir-se e o borboletário passar a integrar o roteiro das visitas de estudo das escolas da região que “muitas vezes, mandam as crianças para tão longe”.

O mesmo, diz, acontece com a população em geral que parte para o estrangeiro, mas nem sempre conhece “o que está ao lado da porta”. O borboletário estava, de facto, ao “lado da porta” de uma parte significativa das mais de 20 pessoas do grupo de sexta-feira, o mesmo não aconteceu no sábado em que o concelho esteve “representado” por um elemento entre os cerca de 15 que aceitaram o desafio do PASM.

Muitos vieram de longe e entre eles estava o casal de Portalegre que, no final da visita, se despediu de Tiago Lopes com um “até amanhã” para o encontro com as borboletas à luz do dia.

O Borboletário Tropical comemora 4 anos no dia 5 de junho. Foto: mediotejo.net

Na conversa que tivemos de seguida, o responsável do PASM mostrou-se surpreendido e satisfeito, não só com o sucesso desta atividade, cujas inscrições esgotaram em ambas as datas, mas também com o do borboletário nos últimos quatro anos.

Avançar com um projeto “pioneiro em Portugal”, destaca, acarreta riscos e podia não ter resultado. As estatísticas anuais (crescentes) provam o contrário, tendo atingido o “limite de sustentabilidade” das visitas em alguns períodos do ano. Quem vai ao borboletário, diz, não “vê apenas borboletas”, também encontra uma vertente pedagógica e parte sensibilizado para o meio natural que o rodeia.

A ideia inicial de celebrar o aniversário “de forma simples, diferente e sem grandes custos” foi pensada para atrair quem já fazia parte dos cerca de 38.000 visitantes que o borboletário recebeu desde a sua abertura.

A forte adesão às visitas noturnas por estreantes contrariou a ordem prevista e levou a que estejam a ser desenvolvidos esforços para as borboletas voltassem a ser descobertas à luz da lanterna durante os meses de verão (julho a setembro) no âmbito da iniciativa Ciência Viva no Verão.

*Artigo publicado em junho de 2017

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