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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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Constância | Adelino Gomes, quatro décadas com a farda de bombeiro vestida

Adelino Gomes está no comando da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Constância há duas décadas, que duplicam se falarmos da experiência como bombeiro. Uma das vozes mais críticas no ano em que o país foi assolado pelos incêndios, continua a defender uma mudança de paradigma para evitar novas tragédias. Mas quem é o homem por detrás da farda? Fomos conhecer a pessoa que a pendura ao final do dia e percebemos que esta nunca se tira verdadeiramente.

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Quando pensamos em quem está disposto a meter “as mãos no fogo” por nós nem sempre nos lembramos do grupo de homens e mulheres que não metem as mãos, mas o corpo inteiro. Quando tomamos consciência do facto, surgem as imagens em que do vermelho das chamas e dos equipamentos de proteção individual, tantas vezes desgastados pelo tempo e as políticas, sobressaem as letras brancas “bombeiros”. Os que estão alerta quando a sirene toca (e não toca), saindo tantas vezes de casa para proteger o que não é seu e salvar desconhecidos sem saber se os beijos com que se despediram das famílias não terão sido os últimos.

Adelino Gomes conhece a sensação há mais de quatro décadas e a experiência trouxe-lhe segurança para falar sem reservas sobre a situação atual do país que se prepara para a partida de um ano trágico no que respeita a incêndios florestais. Uma frontalidade que contrasta com os sorrisos e o brilho nos olhos quando fala do “bichinho” que vem com a farda e “nunca mais sai” depois desta ser vestida pela primeira vez.

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O comandante da AHBV de Constância durante a entrevista. Foto: mediotejo.net

Comandante da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Constância (AHBVC) há 16 anos, aos quais soma dois como adjunto de comando e dois de segundo comandante, totaliza 20 anos à frente daqueles com quem a população tanto grita no meio do pânico, como acarinha e apoia em sinal de reconhecimento. É, igualmente, um dos cinco vice-presidentes do Conselho Executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses, tendo como presidente Jaime Marta Soares, reeleito para o terceiro mandato no cargo no final do passado mês de outubro.

A farda com que teve primeiro contacto não era vermelha, mas verde, envergada pelo padrinho militar que morava na casa ao lado da família em Santa Margarida da Coutada, localidade onde nasceu há 63 anos e ainda reside. As memórias de infância não incluem carrinhos de bombeiros porque apenas os teve mais tarde na coleção que começou quando se tornou um. O filho, atual segundo comandante da AHBVC, acabou por lhes ditar a sorte com os acidentes simulados nas brincadeiras de miúdo apaixonado pela ocupação do pai e que “fugia para os bombeiros” quando tinha seis anos.

A vontade de ser bombeiro veio de dentro, partiu das dificuldades dos que o rodeavam e da sensação “de que podia ajudar alguém”. Entre eles estava a família “humilde” composta pela mãe doméstica e o pai que saia de casa pela manhã para trabalhar no campo e, mais tarde, nos jardins das instalações da Caima – Altri. Foram cinco até ao falecimento da irmã mais velha por motivos de saúde e os dois irmãos gémeos comprovam que o gosto pelas fardas surgiu na sua geração pois um é polícia e o outro, motorista da câmara municipal, está no quadro de honra dos bombeiros.

O momento em que recebeu o crachá de ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses. Foto: Adelino Gomes

O “sonho de criança” era ser eletricista, tinha uma “vocação para o choque”, e os brinquedos recebidos eram desmontados para perceber como funcionavam. A curiosidade pela eletricidade, que chegou pouco antes de completar os dez anos, foi-se adensando e lembra-se da altura do emprego na CP – Comboios de Portugal em que fez algumas experiências. A mesma altura em que foi um dos primeiros elementos da recém-criada secção de Bombeiros de Santa Margarida da Coutada, pouco depois do 25 de Abril de 1974.

Vêm-lhe à memória os colegas que saiam de casa em roupa interior, com “a roupa debaixo do braço e as botas na mão” quando a sirene tocava comprovando o sentimento de que “o bombeiro que é bombeiro, mantém a farda vestida sempre”, tal como o jipe Willys que levavam para os incêndios com um bombeiro sentado no capô a assegurar que a gasolina chegava ao carburador. O jipe compunha a frota automóvel da secção juntamente com a “velha ambulância Volkswagen”, ambos oferecidos por outras corporações, muito inferior aos meios de que dispõe atualmente e que considera suficientes.

Neste momento, a AHBVC contabiliza seis viaturas de combate a incêndios, três tanques, três viaturas de comando e comunicações, um veículo de desencarceramento e outro de combate a incêndios urbanos, diversas viaturas de apoio (VOPE), dois barcos de socorro, 24 ambulâncias (seis das quais de socorro) e brevemente chegará uma do INEM que vai servir o novo Posto de Emergência Médica (PEM).

Viaturas no quartel da AHBV de Constância. Foto: medioteo.net

Entre as recordações do passado estão também os tempos “sem chumbos” da Escola Primária da Portela, da Tele-Escola, das aulas noturnas no Tramagal, e da Escola Nacional de Bombeiros, assim como do primeiro emprego quando tinha 11 anos, em que seguia com o pai até à Quinta do Lombão para trabalhar numa atividade hoje com contornos ilegais, o cânhamo. Começou por receber algum dinheiro em troca pela ajuda e recorda o valor do primeiro ordenado oficial de “dois escudos e cinquenta centavos” quando já tinha os 12 e que “era uma fortuna”, diz com um sorriso irónico.

Pela frente tinha os empregos no Tramagal, concelho de Abrantes, com passagem pela Metalúrgica Duarte Ferreira que produzia o icónico camião Berliet-Tramagal – um dos veículos utilizados pelo exército português nos anos 60 e 70 do século passado – a Mitsubishi Fuso Truck Europe e a Frutifer – Indústrias Ferroviárias.

Chefiou departamentos, trabalhou na sua área profissional, engenharia eletromecânica, e foi mantendo o “hobbie” dos bombeiros que acabou acompanhá-lo de forma séria em dois terços da sua vida e diz, sorrindo, “deu nisto, deu para aqui um comandante”.

A primeira experiência profissional nos bombeiros foi como motorista por volta dos “vintes” e subiu “a pulso” todos os postos, de aspirante a chefe e depois os três no comando. Até há pouco tempo apenas conhecia outros quatro comandantes com o mesmo percurso que defende ser fundamental pela experiência que traz “na ação, no planeamento das ações e no executar ou mandar executar”, permitindo conhecer as dificuldades de cada tarefa e avaliar a capacidade dos outros em desempenhá-la.

Adelino Gomes em frente ao quartel de bombeiros. Foto: mediotejo.net

Chegou a sair devido a discordâncias internas, continuou a trabalhar como engenheiro eletromecânico e, mais tarde, na área da hotelaria até ao surgimento dos desafios lançados para regressar aos bombeiros. Regressou como chefe à secção de Santa Margarida e a votação dos colegas acabaria por ditar a subida para adjunto de comando. Outras discordâncias internas, não ligadas a si, fizeram surgir a promoção para segundo comandante e, mais tarde, para comandante.

Duas décadas de comando, quase a somarem mais um ano, e hoje à frente dos mais de 120 elementos, 20 dos quais no quadro de reserva e 10 no quadro de honra. Um período em que a presença feminina se vincou, atualmente são mais de 30, e que segue uma tendência de crescimento. Entre as últimas candidaturas chegaram a ter dez de mulheres e cinco de homens e a causa apontada é o facto delas se terem começado “a libertar mais e a sentir-se mais responsáveis”, querendo demonstrar “o gosto pela farda” e que “são capazes tanto como o homem”. E são? Perguntamos.

Adelino Gomes defende que os elementos femininos têm maior dificuldade face à exigência física de algumas missões, sobretudo associadas a incêndios. No entanto, compensam-na com o lado emocional que, apesar de gerar a empatia entre mulheres que arrasta todas quando uma se vai “abaixo”, acaba por ser uma “mais-valia” em determinados teatros de operações, como acidentes de viação, em que a faceta de “leoa” vem ao de cima.

As bombeiras, acrescenta, “podem não ter força”, mas têm a capacidade e a resistência [psicológica] de fazer tão bem como eles”.

Adelino Gomes numa visita ao Parlamento Europeu, em Bruxelas. Foto: Adelino Gomes

As diferenças de género desaparecem quando se fala na vontade de querer “chegar depressa e socorrer”, fazendo desaparecer muitas vezes “a noção” até “da própria família” que fica muitas vezes “aflita” sem saber para onde vão. Cabe, todavia, aos aflitos o “papel fundamental” de apoiar quem parte. Sem esse apoio, salienta, o bombeiro “acaba por arrefecer, desmotivar” e é da família que se lembra em primeiro lugar quando tem a vida em risco.

Adelino Gomes sentiu-o numa das situações mais complicadas que enfrentou desde que o “bichinho” se entranhou, quando foi chamado para socorrer num acidente na Caima – Altri, localizada no concelho de Constância. Saiu porta fora, novamente, sem saber o que esperava e confrontou-se com a fuga de toneladas de cloro. Regressou a casa com a certeza de que alguns dos colaboradores apenas fizeram o mesmo porque lhes salvou a vida.

Uma vez ultrapassada a situação crítica, ou seja, quando o “eu” deixa de estar em perigo, volta o sentimento de que são os outros e não a família que precisa da sua ajuda e está disposto a “lá ficar”, sobretudo nos casos que envolvem crianças. Vivenciou alguns e lembra-se de como volta a perder “a noção” quando se vê “uma criança em sofrimento, por vezes mais do que quando se vê um amigo”.

Carro de bombeiros da AHBV de Constância. Foto: mediotejo.net

Ser bombeiro não é uma profissão qualquer. Se falhar uma vírgula neste artigo ninguém morre, se um bombeiro falhar um procedimento podem perder-se vidas. Uma responsabilidade com a qual se vive no dia-a-dia e que diz ser possível “sobreviver” porque o bombeiro “tem um botão que liga e desliga”. Lida-se com a pressão do momento através da concentração no que se está a fazer quer quando se parte para enfrentar o desconhecido, quer quando se tenta compreender o cenário com que se depara.

O tal botão tem uma “segunda fase” que surge depois da batalha travada. O comandante da AHBVC salienta a importância de ter a frieza de pensar “esta passou, esqueceu. Vamos a outra”. Uma capacidade que é treinada durante a formação, trazendo o discernimento necessário para não carregar nas missões seguintes o peso das anteriores. É necessário viver “no presente” e aliviar esse peso “dentro do quartel”, junto do comando e dos colegas, assumindo o que se fez bem e mal na auto-avaliação que é feita no final de cada missão.

Apesar dos episódios em que são “denegridos”, defende que “o bombeiro verdadeiro sente orgulho naquilo que faz, sente-se vaidoso e útil à sociedade”. Foi assim que se sentiu quando vestiu a farda e tirava férias e licenças sem vencimento para frequentar formações, sustentadas por si, para assegurar que não se limitava a servir, mas que sabia fazê-lo da melhor maneira possível. Desta forma assegurava a técnica, que diz ser tão importante como a vocação.

Adelino Gomes e alguns dos meios de que o corpo de bombeiros dispõe atualmente. Foto: mediotejo.net

Fatores reforçados com a experiência no terreno, atualmente relegada para segundo plano pela tutela face aos “canudos”, critica, gerando problemas uma vez que “cada operação é diferente”. Uma situação que deve ser invertida com urgência sob pena de se repetir a “experiência triste destes últimos anos”, sobretudo do que está quase a findar e ficou marcado pelos incêndios que assolaram o país com consequências “muito drásticas”.

A chuva não arrefeceu o tema quente e a postura muda quando este é abordado. Vem ao de cima a frontalidade pela qual Adelino Gomes é conhecido e justifica com o espírito pelo qual sempre se pautou e o faz expressar o que ele e muitos colegas sentem “mas que às vezes não têm a coragem de dizer”. Acrescenta que “ninguém é senhor de toda a verdade, nem de toda a sabedoria, mas a minha experiência obriga-me a, pelo menos, incutir nos outros que estão errados”.

Erros que podem ser evitados quando, defende, se perceber que “quem está no terreno tem conhecimento de coisas que quem está em Lisboa não tem”. No caso dos incêndios mais recentes aponta como falha o facto da coordenação ter passado dos bombeiros para os “homens dos canudos”, defendendo que a Proteção Civil é fundamental, mas deve coordenar meios em vez de “comandar homens” pois a última função pertence às estruturas dos bombeiros, ao seu comando”.

Adelino Gomes numa convenção em França. Foto: Adelino Gomes

Os responsáveis estão apurados, mas “ninguém quer assumir” e não tem problemas ao referir que os autarcas se encontram entre os culpados. Lança a questão: “nos sítios onde houve mortos, quem deve ser constituído arguido? O primeiro responsável da Proteção Civil é o presidente da câmara”, ainda que estes “muitas vezes façam aquilo que podem e que lhes deixam”, e estabelece o paralelismo com um acidente rodoviário em que a responsabilidade é atribuída ao motorista.

A falta de coordenação é apenas um dos ingredientes da situação altamente inflamável que teve consequências drásticas. Acrescem-lhe a falta de planeamento e vigilância da floresta, uma área que diz não ser dos bombeiros, nem da ANPC, mas sim “das florestas ou da GNR”. Concorda com algumas das propostas do governo, nomeadamente quanto ao reforço dos meios pois “quanto mais gente estiver nas florestas nesta alturas críticas melhor, mas que esteja lá no bom sentido e que não ande lá só para ganhar o dinheiro ou só para passear”.

No entanto, avisa que os anúncios para 2018 são “uma falácia” e não se pode cair na ilusão de que terão efeitos práticos a curto prazo pois as medidas “não se concretizam num ano, nem em dois, nem três, nem em meia dúzia”. Neste cenário, a prevenção tem um papel fundamental e “deve começar no dia em que acabou o incêndio”, com a vigilância necessária “na altura própria”, sem deixar de destacar que a GNR “não tem capacidade para o fazer sozinha” com as condições de que dispõe atualmente e que o apoio pode ser prestado pelos militares.

Quartel da AHBV de Constância. Foto: medioteo.net

Se a situação atual não se inverter admite a hipótese das associações e os corpos de bombeiros fazerem “algum finca-pé para que as condições mudem” uma vez que estão saturados de serem “os heróis e depois os bandidos”, assim como do aproveitamento político e operacional de que são alvo. Existe disposição para ajudar no planeamento, mas desconhecem se do outro lado querem a sua ajuda, tal como a das câmaras municipais, que são quem conhece o terreno.

Independentemente de tudo isto, considera que o trabalho continua a ser feito com grande “profissionalismo” e “altruísmo” e diz compreender quando as populações “gritam porque não viram os bombeiros” sem terem consciência de que não conseguiram lá chegar ou estavam empenhados noutro lado. Atitude alternada com o carinho que estes homens e mulheres recebem depois do pânico passar e do qual “precisam” pois também se entristecem quando “veem morrer um concidadão ou um amigo”.

Entre memórias do passado, críticas ao presente e incertezas do futuro, Adelino Gomes mantém o “bichinho” que se entranhou na pele quando se tornou bombeiro. Se fosse uma tatuagem certamente teria a inscrição do lema “vida por vida”.

Com mais de quatro décadas de farda vestida deveria ser “vida por vidas” pois foram várias as que já salvou e continua disposto a salvar de cada vez que sai de casa mais preocupado com o regresso dos outros do que com o seu.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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