Constância: A leveza da música no maior carrilhão itinerante do mundo

O primeiro pensamento que nos vem à mente quando pensamos num carrilhão é o badalar dos sinos numa fusão de ambientes régio e eclesiástico. No entanto, o LVSITANVS confere uma nova dinâmica ao conceito levando música erudita e popular pela estrada fora. Este carrilhão itinerante inaugurado em maio de 2015 é um dos 18 existentes em todo o mundo e destaca-se dos restantes pelos 63 sinos, as 12 toneladas e por ter a “garagem” em Constância.

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São muitas as famílias que decidem dar voz e som ao gosto musical através de aulas, bandas ou simplesmente com pequenos concertos para os mais próximos em datas simbólicas. Alberto Elias, 71 anos, e as duas filhas, Ana e Sara, nascidas em 1974 e 1981, materializaram a paixão pela música de carrilhão de forma diferente. Compraram um. A solução podia parecer simples se não estivéssemos a falar de um instrumento musical que custa cerca de meio milhão de euros e pesa mais de dez toneladas.

O LVSITANVS tem um carrilhão em Fá composto por 63 sinos
O LVSITANVS tem um carrilhão em Fá composto por 63 sinos. Foto: mediotejo.net

O LVSITANVS é atualmente o maior e mais pesado carrilhão do mundo e nasceu de um projeto da associação CICO – Centro Internacional do Carrilhão e do Órgão, fundada no concelho de Constância em 2011 por Alberto, Ana e Sara. A ideia surgiu quando Ana e Sara faziam a sua formação musical em carrilhão na Bélgica, onde existe a maior concentração destes instrumentos musicais antigos na Europa, e fazia todo o sentido no nosso país devido às condições climatéricas favoráveis para concertos ao ar livre. A criação e coordenação técnica dos três elementos da família no Carrilhão dos Pastorinhos em Alverca, o mais recente do mundo inaugurado em maio de 2005, acentuou o desejo de libertar a música do cimo das torres de igrejas e conventos e torná-la itinerante.

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O processo acabaria por se revelar moroso. Desdobraram-se em pedidos de patrocínio e apoio, ouviram muitos “nãos”, mas não desistiram. O tempo trouxe-lhes alguns investidores, os fundos comunitários do ProDer, o primeiro lugar do Prémio Milénio Sagres-Expresso (2004) e a confiança do município de Constância. As diversas etapas são contadas nos 63 sinos que compõem o único carrilhão itinerante da Península Ibérica com gravações das entidades apoiantes e patrocinadoras do projeto, lado a lado com nomes de pessoas que marcaram as vidas dos seus fundadores, como o padre que casou Alberto ou a professora de música de Ana e Sara.

Ana Elias e Carolina, uma das suas alunas das aulas de carrilhão
Ana Elias e Carolina, uma das suas alunas das aulas de carrilhão. Foto: mediotejo.net

O LVSITANVS, fabricado pela empresa holandesa Royal Eijsbouts e parte de uma tradição musical com mais de 500 anos, acaba por se assumir como uma obra biográfica desta família portuguesa do século XXI e um “legado” que Alberto quer deixar no panorama musical português. As vidas dos quatro, deles e do carrilhão, ecoam de cada vez que Ana e Sara atuam com o Duo LVSITANUS, o único grupo de irmãs carrilhanistas, ou nas aulas de carrilhão com as duas alunas da escola de música da CICO, Carolina de 17 anos e Adriana com 14. Música com História num projeto com o objetivo de perpetuar a arte impulsionada em Portugal por D. João V, no ano de 1730, quando mandou construir os carrilhões do Convento de Mafra.

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A conversa descontraída com a família decorre durante a preparação das Festas de Nossa Senhora da Boa Viagem que começam no dia 26 e se prolongam até segunda-feira. O carrilhão em Fá com os seus 63 sinos estará estacionado na margem do rio Zêzere durante todo o evento e além dos concertos pontuais ao longo dos três dias, estará em destaque em dois espetáculos com Rosemarie Seuntiens. No sábado, o concerto está agendado para as 22h45 e na segunda-feira será acompanhado por fogo-de-artifício a partir da meia-noite.

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Ana, Alberto e Sara Elias. Foto: mediotejo.net

Não se fala apenas de passado. Fala-se de presente e de futuro, começando pela trilogia música, engenharia e gestão. Esta fusão aparentemente improvável revela-se fundamental na existência do carrilhão. À carreira profissional de Alberto ligada à Engenharia Mecânica, juntam-se os mestrados em Engenharia Geológica e de Minas de Ana e em Gestão de Sara, que ambas acumulam com os mesmos graus académicos em Carrilhão obtidos na Bélgica e nos Estados Unidos, respetivamente. A experiência acumulada dos três elementos da família tem sido reconhecida no território nacional e no estrangeiro em concertos, prémios e conferências.

Levar a música de carrilhão às pessoas implica paixão e conhecimentos técnicos que garantam a continuidade do projeto, mas também de mais apoios e patrocínios ao nível da divulgação e da logística. Quase três séculos depois do devaneio de D. João V no valor de “quatrocentos mil réis” em adquirir dois carrilhões por achar que um não era digno da dimensão do reino, este tipo de música continua a ser associada às elites, limitando a aderência do público e o interesse das entidades públicas e privadas em investir nos espetáculos.

O teclado do carrilhão itinerante
O teclado do carrilhão itinerante. Foto: mediotejo.net

Os apoios são mais do que bem vindos, nomeadamente para assegurar a manutenção dos sinos, da consola, da estrutura, do semi-reboque e do trator. As despesas oscilam entre um simples tubo de vaselina purificada aos quinhentos euros de combustível sempre que é necessário abastecer o camião que transporta o carrilhão itinerante.

A história que começou quando Ana foi levada ao médico com seis anos de idade porque preferia as obras da Antena 2 em vez do “Atirei o pau ao gato” e este lhe receitou aulas de música transformou-se no maior e mais pesado carrilhão do mundo. Sara recebeu o mesmo “remédio” aos quatro e, se os genes tiverem tendência a apurar-se, o pequeno músico (ou música) que já ouve os sinos na barriga de Ana terá a mesma prescrição muito antes. O LVSITANVS faz parte da família Elias e, mais do que um projeto ambicioso, representa a persistência em tornar um sonho realidade e a missão de partilhá-lo com quem esteja disposto a recebê-lo.

O LVSITANVS é transportado num camião. Foto: mediotejo.net

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