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Segunda-feira, Agosto 2, 2021

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Consciências lavadas?, por Pedro Marques

Hoje a crónica é um imenso vazio. Vazio porque o país está em suspenso. Mas vazio, sobretudo, porque os ataques recentes, em vários países, por parte de pessoas extremistas que estão alienadas às suas causas, nos conduzem a um vazio.

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A Humanidade está doente. Gravemente doente.

Ninguém sabe o que vai acontecer no minuto seguinte. Deixámos de saber se seremos “o próximo” mas esperamos, como sempre esperamos, que aconteça longe daqui.

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Depois, para expiarmos as nossas culpas e os nossos pecados, para nos sentirmos bem e com o sentido de termos demonstrado o nosso pesar, adotamos causas como se as mesmas fossem produtos de modas.

Há uns tempos atrás foi a campanha da Esclerose Lateral Amiotrófica e os baldes de água com gelo, para doar algum dinheiro em favor da luta contra esta doença. Algumas pessoas já nem o faziam por dinheiro mas por piada e a coisa ficou viral. E quem o fez ficou de consciência lavada.

Depois foi a Nono, a menina do IPO que veio a falecer e muitos correram a pintar o seu mural de cor de rosa e de elogios à pequena doente. E quem o fez ficou de consciência lavada.

Depois veio o drama de Charlie Hebdo. Mais uma dor coletivamente partilhada em direto e com todas as redes sociais repletas do famoso “Je suis Charlie”. E quem o fez ficou de consciência lavada.

E muitas outras causas deve ter havido. E em todas o pulsar coletivo de quem faz a sua parte, mostra comoção e revolta, indignação e coragem, sentimentos e necessidade de os exteriorizar. E, sempre, quem o fez ficou de consciência lavada.

E sempre o fizemos quando sentimos que os nossos valores, os nossos credos, as nossas convicções, a nossa visão do mundo foi abalada.

Foi isso que agora sucedeu com os terríveis ataques ao mundo ocidental que tiveram epicentro em Paris e com as reações das pessoas, em geral. Muitos coloriram as suas fotos de Facebook com a bandeira de França. De repente a maioria dos meus amigos ficou indistinguível pela imagem de perfil e assim muitos tentaram ficar com a consciência lavada, porque mostraram solidariedade, dor, consternação.

Para compreendermos o que se passou temos de compreender a História da Humanidade e das religiões. Aconselho a quem não conhece que procure a “causa das coisas”. Não é nada novo, aquilo a que estamos a assistir. O que é novo é a magnitude mediática, o hoje ser tudo “live” e à distância de cliques, o hoje todos termos oportunidade de ter opinião e fazer a nossa catarse em público, através de posts, shares, likes e comments.

Mas isso não nos pode deixar tranquilos porque isso não nos lava, desta vez, a consciência.

Aquilo a que estamos a assistir não pode ser confundido com a migração de refugiados de guerra, nem nos pode conduzir a extremismos intolerantes e idiotas contra quem estamos a acolher.

Todos querem o melhor para si e para os seus e o mundo todo sabe que a vida no mundo ocidental é, para mundos, um privilégio inalcançável e uma garantia de educação, saúde, ciência, cultura, aprendizagem, emprego, profissão, família, anos de vida, equipamentos, lazer, etc, como em muitos outros pontos do globo – a larga maioria – não existe. As pessoas vêm à procura disso para si e para os seus filhos, de modo legítimo. Sempre assim foi na história da Humanidade.

Mas o problema chama-se desconfiança – quem chega até nós não traz consigo um certificado de benignidade nem a garantia de que aceitará diluir as suas convicções religiosas, sociais, éticas, entre outras, para aceitar todas as regras do mundo dito ocidental. E, no meio desta aproximação e mistura de religiões, raças, credos, convicções, mitos, revoltas, incompreensões, intolerâncias e valores relativos do que vale a vida do outro, pode existir uma propensão para um aumento de tensões.

Depois há ainda outro ponto de vista. Nós achamos que alguns muçulmanos são extremistas e, de entre esses, alguns serão radicais, fundamentalistas e até terroristas. Mas, para a forma como eles veem o mundo, os terroristas podemos ser nós, os ocidentais. Olham para os Estados Unidos e aliados como um conjunto de países que ameaçam a sua visão do mundo, que matam, que causam destruição, que aniquilam sonhos, que ceifam vidas inocentes no meio das suas investidas.

O caminho para a pacificação é sinuoso, estreito, difícil e está descontínuo. Urge refazer vias, abrir pontes de comunicação, erradicar a violência e construir um futuro de respeito mútuo entre todos – a verdadeira quadratura do círculo. Ainda viverei tempo suficiente para assistir a um abrandamento da tensão e da violência? Estou cético, muito cético.

Vêm aí décadas de privação e violência, dor e sofrimento, desrespeito pela vida e ausência de vontade para construir em vez de destruir.

E é por tudo isto que as campanhas das redes sociais, de cobrir as fotos com a bandeira de França, ou de cor de rosa da Nono, ou de “Je suis Charlie” são inócuas e ridículas. Mas, ao mesmo tempo, são aquilo que, no imediato, as pessoas sentem que podem fazer. Só que não chega. Não basta. Não sei como fazer o que falta fazer nem sei sequer o que ainda há para fazer ou, melhor, por onde começar. Mas sei que, desta vez, nada disto chega para ficarmos de consciência lavada e continuarmos com a nossa vidinha e a protestar da crise e da austeridade.

Pedro Marques, 47 anos, é gestor, gosta de ler, de exercício físico e de viajar

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