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Domingo, Novembro 28, 2021

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“Congresso do PS, Silly Season and Silly People”, por Pedro Marques

Nos últimos dias, com o Congresso do PS, registou-se um recrudescimento da linguagem política e da própria discussão política. Mas sem causas, sem ideais, sem doutrina, apenas com soundbytes. Faz-nos recordar que existe uma diferença entre sexo com amor e sexo pelo sexo. Assim sucedeu com tudo o que girou em torno da magna reunião socialista.

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Após a morte de Almeida Santos apressaram-se a colocar como Presidente Honorário um dos obreiros da criação do SNS. Não o seu pai fundador mas um dos que para isso contribuíram. Não podemos esquecer nunca Gonçalves Ferreira. Foi este importante médico quem impulsionou a Saúde Pública em Portugal e quem criou os primeiros centros de saúde, já em 1971. Foi pela sua inspiração que foram introduzidas profundas modificações conceptuais e organizacionais no sistema de saúde português, promovendo-se a reorganização dos serviços centrais, regionais, distritais e locais.

E foi pela sua inspiração que foram criadas duas estruturas funcionais, designadamente os Centros de Saúde, numa lógica de proximidade com as comunidades, e os Hospitais, numa vertente mais diferenciada. E foi também de Gonçalves Ferreira a primeira tentativa séria de libertar o sistema de saúde de uma visão e prática “hospitalocêntrica”, de modo a tentar a sua libertação para uma vocação mais comunitária. Quem estudou com profundidade a história do SNS sabe de tudo isto. E sabe que Arnault foi um importante obreiro mas está longe de ser o pai de qualquer coisa nova.

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Quando muito foi o padrinho, porque o que fez, através de um Despacho (e quem é de direito sabe o que isso significa na hierarquia das leis, onde o Despacho surge no final, a seguir à Portaria e antes da Postura, longe das leis e decretos-lei…). O que o seu Despacho veio consagrar foi a possibilidade de acesso aos postos de Previdência Social (Segurança Social) a todos os cidadãos, independentemente da sua capacidade contributiva. E foi esta característica de “universal, geral e gratuito” que veio a ser batizada como SNS.

Mas, como procurei demonstrar, ele foi apenas mais um dos obreiros. O PS tem esta tentação de querer que os seus ilustres sejam o “pai” de qualquer coisa positiva. Mário Soares é “o pai da democracia”, António Arnault é o “pai do SNS” e um dia António Costa deverá ser recordado como o “pai da Geringonça” e o homem que ousou o novo “acordo histórico” de federação das esquerdas, desde as mais moderadas às radicais, aquele acordo onde pululam interesses contrários entre si mas que, para já, são meros resquícios abafados.

Saiu Almeida Santos (por morte), entrou António Arnault. E foi criado um caso no Congresso, bem ao jeito dos reality shows.

Depois Francisco Assis. Um partido que tem nas suas fileiras um militante com o passado, o presente e o futuro de Francisco Assis, com a sua coragem, com a sua frontalidade e o apupa quando este, democraticamente, num partido democrático e dito da tolerância, expressa a sua diferença de opiniões, visões e posicionamento doutrinário, não é um partido que mereça Francisco Assis.

Mas porque os partidos são máquinas de circunstância, daqui a uns anos o mesmo Francisco Assis poderá ser entronizado e aplaudido de pé pelos mesmos militantes sem que haja memória de um que seja que o tenha agora apupado. Teria sido mais confortável para Assis ter ficado em casa, de pantufas, a assistir ao reality show do Parque das Nações ocorrido no passado fim de semana. Mas não, Assis preferiu – como sempre o tem feito – ser frontal e claro. E incompreendido, pelo menos para já. O mesmo partido que o apupou ovacionou Sócrates. Sinais dos tempos ou sinais de que as pessoas procuram o clique e o claque das emoções instantâneas, daquelas que, como Sócrates, revelam pouco ter de densidade e estrutura de valores para oferecer.

E depois Tiago Brandão Rodrigues, guindado que foi à categoria de “herdeiro do legado de António Arnault” mas, desta feita, na Educação. Aposto que um dia, a pretexto de matarem com toda a iniciativa privada na educação, o vão tentar apelidar de “pai do Sistema Nacional e Público de Educação”. E é de blague em blague que os líderes do PS vão alimentando os seus militantes e simpatizantes. De orgulhos vazios daquilo que eles mesmo categorizam e em que passam a acreditar como verdades insofismáveis. Uma espécie de mitomania que conta com a falta de esclarecimento por parte dos media, que em jeito de enfardadeira comem palha a granel para produzirem fardos bem alinhados na planície das notícias.

Há pouco rigor de investigação e alguma falta de autoridade por parte da comunicação social em geral. Porque estudar dá trabalho. Porque investigar é uma maçada. E porque, na sua larga maioria, o melhor é adaptar as declarações ditas em “on” ou em “off” e produzir o texto ou o registo áudio, ou mesmo o registo vídeo, de acordo com o que nos foi impingido. Tirando poucas exceções (que as há e ainda bem!) a maioria dos jornalistas vive e convive com os políticos e chegam a ser “quase íntimos”, de modo que aceitam como verdades aquilo que, pela repetição, alguns querem que sejam mesmo verdades. Mas não é por uma mentira ou uma meia-verdade serem repetidas um milhão de vezes que passam a ser verdades. Não mesmo.

E por isso este Congresso do PS foi o evento da encenação, da produção de casos, do onanismo político exacerbado, onde vi e registei alguns conhecidos da nossa zona em registo de “cordeiro manso” a quererem agradar aos seus “deuses do Olimpo”.

O último caso que o congresso do PS fabricou foi o da “voz grossa às sanções”. É óbvio para todos nós que não iremos ser, enquanto país, alvo de sanções económicas. Não há memória de tal ter sucedido no passado. E termos passado de um défice de 10% do PIB para míseras duas décimas acima dos 3% é algo que nem me parece ser discutível. Mas Costa fez disso um caso. Porque lhe interessa fazer passar a ideia de que é graças à sua voz grossa, ao seu bater de pé, à sua determinação na luta contra a Europa e contra as regras orçamentais e económicas que o próprio PS elogiava no passado e que foram aplicadas em Portugal durante a vigência de um Governo PS, que “a Europa” não nos vai penalizar.

Vai querer ficar como o “pai do Respeito Europeu por Portugal”, lado a lado com a sua companhia da Geringonça. E, para o mediatismo, para o populismo, a esquerda até se ajeita, por mais que critique os seus adversários de populismo em imensos campos da atividade política e social.

Felizmente vamos agora para uma pausa. Vem o Campeonato da Europa de Futebol, e as festas populares dos “Santos de Junho” e depois os Jogos Olímpicos. E, entretanto, o Verão. E quando regressarmos ao ativo, depois desta longa silly season, vai ser a realidade económica que nos diz onde estamos e onde ficamos. E de pouco valerão os “pais da pátria” do PS.

A menos que, entretanto, tenham já decidido quem é o seu “pai da Salvação Económica Nacional”…

Pedro Marques, 47 anos, é gestor, gosta de ler, de exercício físico e de viajar

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