“Confinámos quando o pico da pandemia estava no Norte do País”, por Miguel Borges

Foto: DR

Estamos expostos ao maior perigo de contágio desde que esta crise pandémica começou. Falo-vos como observador privilegiado que interage diariamente com diferentes entidades relacionadas com esta pandemia. Estamos administrativamente inseridos na Região de Lisboa e Vale do Tejo, que é uma das regiões mais problemáticas da Europa, onde o número de casos COVID não pára de aumentar.

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Longe vão os tempos em que o Decreto nº2-A/2020, que procede à execução da declaração do estado de emergência efetuada pelo Decreto do Presidente da República, referia o dever geral de recolhimento domiciliário. Confinámos quando o pico da pandemia estava no Norte do País, desconfinámos quando nos bate à porta. Parece haver aqui alguma irracionalidade e o mais certo é que assim seja.

Quando, no início do processo de desconfinamento, alertei um membro do Governo para uma simples medida que terminava e que eu achava importante que continuasse – refiro-me à proibição do “consumo de bebidas alcoólicas em espaços ao ar livre de acesso ao público e vias públicas, excetuando-se os espaços exteriores dos estabelecimentos de restauração e bebidas devidamente licenciadas para o efeito” -, esse não foi o entendimento governativo e o resultado foi o que se viu: bombas de gasolina cheias de jovens consumindo bebidas alcoólicas, assim como festas informais em parques de estacionamento, onde o consumo de bebidas alcoólicas corria pelas jovens gargantas sem cessar, numa quantidade inversamente proporcional à distância mínima de segurança.

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Sabemos como estas coisas são: começam a dois metros de distância, terminam aos beijos e abraços. Muitas destas inconsciências até poderão ser assintomáticas mas têm pais e avós com os quais interagem, têm pais que trabalham em ERPIs (Estruturas Residenciais Para Pessoas Idosas), e hoje todos sabemos o que isto pode implicar. Esta medida foi reposta na Resolução do Conselho de Ministros nº 51-A/2020 de 26 de junho de 2020. Infelizmente tinha razão.

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O Governo, de uma maneira geral, tem estado muito bem neste processo. Por outras palavras, não sei se outro Governo conseguiria estar melhor perante tamanha impreparação que o País apresentou, no entanto, como diz o povo, “o diabo está nos pormenores” e são estes pormenores que deverão ser ajustados. Para isso é necessário um melhor conhecimento sociológico do comportamento da nossa população, “descendo à terra” e melhor ouvindo quem está no terreno.

A comunicação também tem um papel importante em tudo isto. Quando transmitimos a ideia de que tudo se está a passar nos transportes públicos, em determinados bairros, em certas empresas, estamos a desvalorizar outras situações em que também existem cadeias de transmissão, levando a uma irresponsável despreocupação.

Com tudo isto anteriormente exposto, resta-me dizer que não posso ser insensível ao sufoco, à agonia que a nossa economia atravessa. A melhor forma de ajudarmos, olhando com especial preocupação para a economia local, não será necessariamente com mais legislação. Basta que nós nos saibamos proteger ao mesmo tempo que protegemos quem nos rodeia. Bastam simples gestos e atitudes que terão forçosamente de entrar no nosso dia-a-dia, na nossa forma de estar, de interagir em sociedade: o distanciamento físico, a etiqueta respiratória, a higienização das mãos, a utilização de máscaras, em suma, o cumprimento rigoroso das normas da Direção Geral de Saúde. Assim, tomaremos conta de nós, ajudando a economia, de outro modo não tenho dúvidas que o retrocesso estará perto, com novo e arrasador estado de emergência.

O Verão traz uma maior circulação de pessoas pelo nosso território, vindas dos mais diversos pontos do País e estrangeiro. Todos são suspeitos! O leitor é suspeito, eu sou suspeito! Por isso, vamo-nos proteger!

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