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“Confinamento II”, por Aurélio Lopes

Entrámos num novo confinamento. Pressões diversas (corporativas e não só) tentaram mais uma vez aligeirar o necessário controlo, nomeadamente no que concerne à abertura das escolas.

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Erro crónico esse que, entre outras coisas, corresponderia a uma desvalorização e falta de respeito pelas centenas, senão milhares, que morreram a mais, como consequência do fecho atrasado do ensino escolar presencial. Mas não era hipótese que não se perspetivasse. Equacionava-se a possibilidade de um novo erro de estratégia como aquele que se seguiu ao primeiro confinamento. E, à primeira, todos caem…

Aliás o Governo já dera mostras de ceder aos grupos de pressão quando precisamente teimou, com a consequências que se conhecem, manter as escolas abertas; fora de todos os tempos espectáveis. Na verdade, todos temos memórias curtas. Principalmente quando nos dá jeito.

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E não podemos esquecer que, para lá das próximas eleições autárquicas, existem eleições legislativas em 2023 e, em 2022, começam na prática as movimentações para tal. Afinal, as lógicas do poder têm razões que a razão desconhece. E misteriosos são, como usa dizer-se, os caminhos do Senhor.

O segredo, todos o sabem, é manter as exigências de confinamento (e naturalmente os resultados pandémicos) numa dimensão mais ou menos gerível, até a um tempo em que os efeitos estruturais da vacinação se façam sentir. Quando? Logo se verá!

Mas não, com certeza, neste momento em que estamos (com sacrifícios diversos) a sair de índices de contágio absurdos e números diários de mortos e novos infetados ao nível dos piores do Mundo!

A dificuldade está, afinal, em impor estas restrições face às mais diversas pressões de lóbis corporativos que, natural e legitimamente (entenda-se), defendem os seus interesses.

Quando, para mais, o atraso na entrega de vacinas vem anormalizar uma situação já de si suscetível de anormalidades várias.

Somos muito bons a obedecer, quando nos obrigam e muito maus quando, à obrigação legal, se sucede a autorresponsabilização.

Aí carecemos de imperativos de cidadania que nos permitam ter uma consciência cívica mais abrangente que aquela que a nós e aos nossos diz respeito. Algo, convenhamos, que não é politicamente correto dizer e, portanto, normalmente, não se diz! Afinal, são as carreiras politicas que estão em jogo.  E quando se diz, apresenta-se o facto como se de singulares exceções se trate.

Mas não são as exceções que geram tão nefastos resultados! São as regras! Mais precisamente os incumprimentos das ditas. Visíveis e invisíveis.

É o senso comum de um povo que, como já disse no anterior artigo, não vê o Estado como uma pessoa de bem. E, portanto, não vê razão para obedecer às suas diretrizes, jogando assim, muitas vezes (como em relação às outras legalidades que o envolvem) ao gato e rato com a polícia.

Ora, numa temática que, em grande parte, é privada e reservada, calcule-se o resultado de tudo que isto.

Uma abertura precoce das escolas seria agora ainda mais grave que o anterior fecho atrasado das mesmas. Não só introduziria um aumento de circulações e proximidades entre um milhão e meio de alunos, três ou quatro centenas de milhares de funcionários, auxiliares e professores e largas centenas de milhares de pais e familiares (com tudo o que isso implica em termos da subversão de um qualquer rigor de medidas de segurança) mas, igualmente, por introduzir mais uma vez a noção de que as coisas estariam a normalizar-se o que, como se viu no primeiro confinamento, desencadeou uma situação  lastimável.

É a lógica, perversa, do nós e dos outros. Da “aprendizagem” dos mais novos, face à “vida” dos mais velhos. Numa sociedade que afirma e reafirma a valor da vida. De todas as vidas. Mas não se comporta como tal. E cujos lobbys corporativos defendem frenética e ruidosamente as suas posições.

Contudo, entre tantos lobbys, não existe nem um que se assuma como defensor do direito à vida por parte dos mais velhos.  Porque será? Esses estão, de alguma maneira, abandonados à sua sorte, permitindo assim pressões diversas que se servem de poderes sociais e políticos, de amizades e conhecimentos pessoais, para alcançar os seus objetivos.

Esquecendo, afinal, que o ensino afetado pode ser, no futuro, melhor ou pior, reparado. A vida não…

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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