- Publicidade -

“Condimento”, por Armando Fernandes

Os tratadistas gastronómicos dividem as receitas culinárias em elemento principal, acompanhamentos e condimentos. Os condimentos podem ser (são) pedras (sal), sementes em grão e moídas, ervas, raízes, legumes, guarnições, fungos (cogumelos), líquidos, pastas, cremes e caramelizados.

- Publicidade -

Se formos ao Norte do País pode acontecer que a Mestra cozinheira não esteja familiarizada com o vocábulo, no entanto, se pronunciarmos tempero o caso muda de figura, pois o tempero para a senhora distingue perfeitamente o efeito nos alimentos do bom ou mau tempero, se é enjoativo, delicioso, picante, desenxabido, insosso, esturricado, mofado, aguado e demais palavras do acto de cozinhar.

O condimento ganhou carta de alforria em virtude do seu carácter englobante, totalitário, daí ter trespassado o muro do cru, cozido, podre e fermentado, passando a ser utilizado correntemente, pois o condimento tempera conversas, dá alento a projectos irreais e reais em todo o tipo de realidades, para lá de adubar as mentes de mulheres e homens de todas as etnias, credos e ideologias.

- Publicidade -

Não me canso de lembrar o notável bispo Dom António Alves Martins que dizia a religião quer-se como o sal na comida, nem demais, nem de menos, pois tudo que é demais é moléstia, adverte o rifoneiro.

Ora, levando em linha de conta a advertência do provérbio manda a prudência não abusarmos dos condimentos, especialmente no que tange à esfera política. É longa a lista de passamento para o limbo, purgatório, inferno e morte de políticos glutões cujo desaparecimento se verificou após lauta e funesta ingestão de condimentos insossos, salgados, secos, adubados, em vinagreta, numa receita de vingança servida fria. Os defuntos em contínua procissão de arrependimento, tal como a pandemia, provocam lástima, nojo e afastamento.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).