Terça-feira, Março 2, 2021
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“Como decidem os eleitores”, por José Rafael Nascimento

“O voto é precioso. É o instrumento não-violento mais poderoso que temos numa sociedade democrática, e devemos usá-lo.”
– John Lewis

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Compreender e prever o comportamento humano constitui, desde sempre, um dos principais interesses dos indivíduos e das organizações. Os motivos são muitos e diversos, desde os associados à segurança e sobrevivência, até aos que se prendem com a realização e o prazer. No domínio do conhecimento, os mais interessados serão certamente os investigadores sociais, estejam eles ligados à academia, às empresas ou a outras instituições, incluindo as políticas.

Uma das principais áreas de interesse destes especialistas, é perceber como decidem os eleitores. Vasta investigação e bibliografia existe sobre este assunto, nem toda ela baseada nas mesmas metodologias, nem coincidente nos resultados e conclusões, o que é natural e estimulante no domínio científico. Os cidadãos possuem diferentes capacidades, motivações e disponibilidades para lidarem com o fenómeno político, mas, em democracia, todos são chamados a escolher aqueles que os representarão e decidirão em seu lugar.

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Todos os eleitores têm de fazer escolhas mais ou menos lógicas e racionais, desde o eleitor mais empenhado, conhecedor e sofisticado na tomada de decisões, até ao que se situa nos antípodas deste. Escolhem com base na informação que obtêm e processam, atribuindo-lhe um significado que difere de eleitor para eleitor. Mas, em todas essas escolhas – incluindo a de não votar (abstencionismo) – há uma lógica, uma racionalidade, a qual se acha naturalmente influenciada, em maior ou menor grau, por importantíssimos elementos de natureza afectiva ou emocional. 

Como funciona, então, essa racionalidade? Como agem do ponto de vista lógico-racional os eleitores menos informados e mais afastados do fenómeno político-eleitoral? Serão eles capazes de tomar boas decisões (já que, decisões, tomam-nas todos os dias, algumas delas extremamente complexas)? Os académicos Arthur Lupia e Mathew McCubbins dizem que sim. Na sua obra seminal O Dilema Democrático, os autores afirmam que os eleitores fazem-no recorrendo a esquemas, heurísticas e influências, de que têm pouca consciência por se tratar de processos relativamente automáticos.

“No domínio eleitoral, a escolha racional pode ser difícil porque a política e a governação apresentam problemas que são desconhecidos para a maioria das pessoas. Em consequência, as pessoas recorrem muitas vezes a outras para adquirir o conhecimento que a escolha racional requer” (Lupia e McCubbins). Imagem de Montse Galbany

Por esquemas, entende-se o conhecimento adquirido por meio de experiências pessoais, num “frenético jogo de tentativa-erro”. Mas, quando este conhecimento não existe ou é insuficiente, os indivíduos recorrem a heurísticas e sugestões. As heurísticas são atalhos utilizados para formar decisões, baseados em cortes (limites ou restrições), sinais (associação de características ou benefícios) e regras simples de decisão, designadamente para comportamentos repetidos, como é o caso do eleitoral.

 Quanto às sugestões, elas provêm sobretudo de líderes de opinião, amigos, familiares, redes sociais, imprensa, grupos de interesse ou especialistas, em que a intuição, a empatia, a afinidade e a autoridade desempenham um papel muito especial. Brevemente, e de forma simples, a intuição constitui um meta-sentido (o sexto sentido ou o sentido dos sentidos) que cruza informação subconsciente armazenada na memória. A empatia, por seu turno, refere-se à capacidade e motivação para entender o pensamento, o sentimento e a intenção do outro.

Quanto à afinidade, ela tem a ver com elementos de semelhança, proximidade ou familiaridade. E, por autoridade, entende-se o poder derivado da legitimidade, referência, conhecimento, recompensa ou penalização. Todos os indivíduos usam estas estratégias, qualquer que seja a sua capacidade cognitiva, mas delas dependem em maior grau os que possuem menos recursos de atenção, organização, compreensão e memória, e menor capacidade de processamento de informação.

Sendo certo que, em geral, as escolhas ou decisões tendem a ser mais falíveis quando escasseia informação ou conhecimento, não é menos certo que a abundância e a complexidade destes pode prejudicar o esforço e o acerto dessas escolhas ou decisões. Este é, também, um argumento a favor do princípio democrático “um homem, um voto” que certas elites não desistem de contestar, assumindo (erradamente) que a “superioridade” cognitiva e social de certos estratos da sociedade os tornam garantidamente mais virtuosos nas escolhas eleitorais.

Só com o regime democrático nascido a 25 de Abril de 1974 os portugueses adquiriram plenos direitos eleitorais, baseados no princípio de “um homem, um voto”. Anteriormente, eram discriminados em função do género e da escolaridade, entre outros motivos. Na imagem, a médica Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em Portugal (1911), aproveitando uma acidental e efémera oportunidade legal.

Mas, para tentar resolver “o dilema democrático” de Lupia e McCubbins, falta referir o essencial da abordagem racional do comportamento eleitoral. Os investigadores defendem que as escolhas dos cidadãos são baseadas em cinco factores. Desde logo, os conhecimentos ou competência (expertise) que atribuem aos candidatos, a dimensão logos da retórica aristotélica, um dos pilares da credibilidade das fontes (source credibility).

A par deste factor, os interesses que os candidatos defendem, se afins aos dos cidadãos ou não. Este é o ethos em Aristóteles, a dimensão ética da credibilidade, o ser ou não digno de confiança (trustworthiness). Ficaria a faltar, do ponto de vista aristotélico, a dimensão afectivo-emocional (pathos) que, compreensivelmente, não entra no modelo racional de Lupia e McCubbins. Se estas são as determinantes intrínsecas do esforço de persuasão realizado pelas fontes político-eleitorais, os autores sugerem três determinantes extrínsecas.

São elas o custo dos sinais, a probabilidade de verificação e a penalização por mentir. Trocado por miúdos, e pela mesma ordem, isto significa a percepção que os eleitores têm do que custará para os candidatos fazerem as promessas que fazem, a possibilidade real dessas promessas serem rigorosa e atempadamente escrutinadas (face ao que é realizado) e as consequências que os candidatos sofrerão se enganarem o eleitorado.

Deste modo, em ambiente de liberdade democrática – não considerando outros factores (hipótese coeteris paribus) que possam, por exemplo, condicionar a livre escolha – os eleitores tenderão a confiar naqueles candidatos ou forças políticas que revelem bons conhecimentos ou competência, que defendam interesses similares aos seus, que façam promessas que impliquem sacrifícios e que as mesmas possam ser fácil e devidamente escrutinadas, e que sejam punidos se mentirem ou incumprirem.

*O autor não segues as regras do novo acordo ortográfico.

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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