“Comida surrealista”, por Armando Fernandes

Os surrealistas do grupo do Café Gelo tinham em António Maria Lisboa o principal mentor. Foto: DR

O controverso Marinetti escreveu um manifesto eivado de propostas gastronómicas extravagantes, e construções culinárias muito mais tarde servidas em bandejas como se estivéssemos ante novidades angelicais ou luciferianas, afinal enunciadas nos anos trinta do século passado.

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O italiano do Manifesto Futurista, afim do sinistro Benito Mussolini, atraiu o interesse de gente das artes e das letras portuguesas da esfera de influência do casal Fernanda de Castro/António Ferro o qual teve papel destacado na configuração da propaganda do Estado Novo.

Os surrealistas do grupo do Café Gelo tinham em António Maria Lisboa o principal mentor, a doutrina era a de cada um, isto no respeitante à maioria dos com quem privei.

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E, no referente a comidas e bebidas, os líquidos suscitavam-lhe inusitado apreço relativamente aos comeres. Das excepções destaco a escultura e pintora Aldina Duarte companheira de muitos anos do meu querido amigo o poeta António José Fort o qual iniciou a itinerância cultural em Vieira do Minho, a seguir Portalegre, depois Santarém, por fim Lisboa.

O Fort ficou célebre quando solicitou ao escritor Branquinho da Fonseca a remessa de armas na sequência de um auto-de-fé de livros ocorrido numa aldeia situada nas faldas da Serra da Cabreira porque sopraram aos ouvidos dos leitores serem os livros de doutrinação protestante.

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Pois bem, a Aldina era exímia artista na confecão de comeres, desde assar camarões no forno a conseguir húmido arroz de tomate assessorado por carapaus tamaninos fritos exemplarmente a tornarem invejosos chefes e cozinheiros à espreita de uma estrela no céu.

A Aldina diferenciava sabiamente o preparo do cozinhado previamente objecto de marinada fria ou quente fechada ou aberta, esmerando-se no tirar partido da boa regulação do fogo.

Ela esteve uns dias em Abrantes, a razão prendia-se com a necessidade de clarear os dentes, a técnica correu mal, não se sabe bem a causa, no entanto, os dentes ficaram negros. Retintamente negros. Não carpiu o desastre, não se zangou, preferiu petiscar e apreciar de modo exuberante os brancos e tintos que lhe foram apresentados. O Fort também foi tocado pelo azar, a dentadura não lhe permitia mastigar condignamente e por isso mesmo dar a razão a Aristófanes quando disse: Os dentes são um móvel inútil quando não mastigam. A inutilidade da dentadura do Fort deu possibilidades a rapazes maus do seu círculo a tecerem e conceberem pesadas malícias por ele respondidas a preceito adicionadas a juros de vitríolo humorístico.

O casal morava num pequeno apartamento na Travessa do Fala Só, no terraço existia uma parreira, nunca os cachos de uvas maduraram, verdejantes os bagos concediam sainete aos comeres de Aldina, temperados ao gosto do calendário, princípio, metade ou fim do mês. Os jantares terminavam de madrugada, às vezes de modo alvoroçado, a causa residia nos referidos temperos. Sólidos e líquidos!

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