“Comida e música”, por Armando Fernandes

Da leitura dos clássicos retiramos lucros de plurais saberes, relativamente aos sabores de tempos recuados também. Os livros sagrados, as obras poéticas, as filosóficas, as de natureza medicinal e da farmacopeia, os tratados de índole gastronómica (exactamente, se dúvidas existirem leia-se o Banquete dos Eruditos) dizem-nos, informam-nos sobre a estreita aliança entre a comida e a música, com o vinho e a cerveja pelo meio.

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Todos quantos fazem o favor de ler aquilo que escrevo, façam o segundo favor de rebuscar nos arcanos da memória, nas revistas guardadas há anos, nos livros à espera de releitura, nos discos, referências e informações sobre o auspicioso tema – comida e música -, realizada a busca, metam a mão na consciência onde quer que ela viva nos vossos corpos e, contritos, lembrem-se das vossas infelizes desatenções, de tilintar os copos, bater o talher nas louças, soltar palavras sonoras enquanto os músicos (às vezes cantores) emprestam solenidade, conferem prazer ou animam refeições de múltiplas tonalidades e sons. Pois…prevaleceu o estrépito, a ausência de atenção, o preguiçoso e arrastado bater uma palma da mão na outra.

Também já cometi o mesmo pecado. Pois então! Até o Doutor Angélico cometia pecados, quanto mais desatenções.

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As composições musicais associadas à comida quase podemos escrever serem tantas quanto o número de comidas. Exagero? Nada disso. O leitor exercite-se, do Sebastião come tudo, tudo, às brejeiras cantigas de Quim Barreiros e Comandita, há para todos os gostos e feitios, ele é o tornedó à Rossini, o chocolate quente ao modo de Mozart (duvido dos méritos do genial autor no respeitante a comeres e beberes), os filetes finos de vitela consoladores de Chopin, as omeletas perfumadas de Liszt, até às feijoadas consoladoras de Fernando Lopes Graça.

Há anos trouxe do Brasil discos cujas composições eivadas de crítica virulenta contra os argentários têm nas bananas e nos feijões os elementos chave das canções, algumas de pingente intensidade dramática. E por estas nada, como é?

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Nos dias de hoje o tema parece estar confinado ao já referido Quim Barreiros e similares dos dois sexos, no entanto, existem construções musicais de inspiração religiosa a enaltecerem o simbólico da comida. O meu estimado amigo Pedro Caldeira Cabral é excelente exemplo disso mesmo, lembro o seu contributo no referente à música sefardita, ou os trabalhos de Jordi Saval.

No Verão abundam as manifestações musicais de múltiplos registos, só que a comida na maioria desses espectáculos entra ao modo de chumaço de bebidas, as bifanas, frangos assados não demoram muito a estarem em condições de os clientes mastigarem o pedido na ruidosa companhia de batatas fritas empacotadas, tinto de caixa de cartão e loirinha no copo de plástico. E, no referente às festas populares nem de outra forma pode ser por mais que custe a pessoas armadas de pingarelho despropositado, pateta, possidónio.

Os espectáculos som, luz, fumo e líquidos refrescantes têm o seu ritmo, o seu público, os comeres ancestrais baseados nos produtos autóctones e cujas técnicas culinárias importa manter também devem merecer atenção. De quem? Cada qual responda como entender. Picadas focais abundam neste texto.

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