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Sábado, Outubro 23, 2021

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“Comeres Primaveris”, por Armando Fernandes

O mês tem sido pluvioso a ponto de muitos já terem esquecido a secura nos campos e nos rios ainda persistente na barriga de várias barragens. No entanto, a volumosa vinda do precioso líquido logo possibilitou a afanosa pesca de espécies muito requestadas. Apesar dessa evidência, nas comunidades onde persistem as práticas avieiras subsiste um sentimento de perda não só no tocante à quantidade, como à qualidade, isso mesmo constatei em três locais à beira-Tejo situados.

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As gentes podem não conceder grande relevo à genial peça de Igor Stravinsky, porém o caso muda de figura quando se lembram a novidades do renovo ou primícias estimuladas pela sazão verdejante, sejam as ervas rompantes nas encostas, sejam as ervilhas e as favas retiradas das hortas temporãs. E fruta?

Na minha meninice encarregava-me de descobrir as cerejas a pintar, as maçãs e as peras rijas porque ainda não tinham atingido a idade de serem mordidas, não importava, aquelas frutas ácidas obrigadas a reunirem sucos punham a língua áspera como lixa, mas concediam grato gozo palatal.

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Não vou explicar a padronização dos cordeiros e sua divisão estabelecida através do tempo de idade e pastos, prefiro recordar a grata e tremenda atenção suscitada pelos cordeiros (borregos) por esta altura, melhor dito na quadra pascal.

Os receituários estão repletos de enunciados de preparos culinários cujo elemento primacial é a carne de cordeiro, apresentada debaixo das sete cozeduras numa multiplicação de formulações, incluindo aquelas que lhe retiram sapidez, caso dos grelhados vivos, queimados por fora, encruados por dentro. E, há quem goste!

As Mestras cozinheiras das freguesias persistem e bem na viva ocupação das hortas, muitas ainda concedem tempo de forma a criarem aves e coelhos, mimos oferecidos aos familiares quando regressam à casa ancestral nos momentos de ócio e/ou de férias.

Estes preciosos auxiliares da economia doméstica alegram dietas do quotidiano e dão sápidos sabores àqueles parentes nutridos à base de pastas, pizzas, hambúrgueres e tutti-quanti, passada a surpresa prodigalizam elogios às mães e às avós, só que o calendário impõe o regresso à civilização da pressa, do micro-ondas, do aquece, come e anda. Não se pode ter tudo!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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