“Comeres galegos”, por Armando Fernandes

Desloco-me periodicamente a terras galegas no propósito de apreciar a poética da paisagem, associando à visita a aquisição de livros, as livrarias locais ainda acolhem os livros durante bastante tempo, bem como ao prazer de apreciar os sápidos comeres daquela região com quem mantemos grande número de afinidades.

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Desta feita a «peregrinação» confinou-se a Vigo, Noia e Porto Som, águas calmas das Rias, montanhas e vales verdejantes, comida desafiante da dieta, a obrigar ao desembaraço dos pés durante horas porque o exercício ajuda a manter a linha, além de possibilitar a escrita dos textos a publicar, por exemplo no mediotejo.net, acabado de fazer um ano de idade.

Ir à Galiza e não apreciar o polvo ao modo da feira é sacrilégio tão forte quanto o visitar a Catedral de Santiago de Compostela e não apreciar o Santo. O polvo é cozido de modo a ficar tenro quanto a manteiga em dia de verão, sendo borrifado com sal grosso e pitadas de colorau (pimento queimão). Diz-se ao modo da feira porque era e é assim apresentado como nas feiras e mercados de cariz rural. O polco cortado às rodelas é colocado em escudelas de madeira dotadas de um sulco para onde escorre a água sobrante da cozedura do guloso molusco.

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A Galiza marítima é pródiga em mariscos, além disso, nas rias abundam os cofres viveiros onde crescem e engordam várias espécies, mas a maior parte destinadas aos mexilhões, de onde saem carnudos e de carnação suave. Prefiro os retirados das rochas, bem batidos pelo vento e pelo mar, do mesmo modo admiro os percebes.

Numa das refeições a gula ultrapassou a prudência financeira estando na origem de terem sido substanciosos lagostins a iniciá-la, destronando sem apelo a possibilidade de serem navalheiras a tomarem o seu lugar.

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As empadas galegas ganharam justificada fama não só por vida da diversidade, na época as de lampreia já me obrigaram a excursão propositada, também porque o apuro na confecção as transformam em regalo palatal de excelsa virtude. Por assim ser honrei grata empada de sardinha, outra de mexilhões, a massa salientou as qualidades dos produtos envolvidos.

No referente a peixes destaco os robalos e rodovalhos (pregados) assados no forno, a boa aplicação do fogo potenciou os peixes acolitados por batatas assadas com a casca.

Os galegos são exuberantes, tanto quanto os pimentos picantes de Padron, (terra da excelsa poetisa Rosalia de Castro, deve figurar em todas as Bibliotecas), os mesmos serviram de mote a refrescar a garganta bebendo um estupendo branco da casta Albariño de lá, também se tomou o conhecido Ribero, já no acompanhamento das carnes mandou o desejo prudencial optar por magnífico tinto de Ribera del Duero.

Sim, para lá dos mariscos e dos peixes também foram apreciadas carnes, costeletas avantajadas de vitela, pernas de cordeiro e leitão assadas como mandam as regras. As costeletas num braseiro, o cordeiro e o leitão no forno. As técnicas de confecão tiveram o condão de salientar os sucos sápidos das carnes e quando assim acontece (nem sempre) o júbilo palatal é de molde a tecermos considerações risonhas acerca do repúdio dos vegetarianos ante tão gratas pitanças.

As opções dos vegetarianos devem ser respeitadas escrupulosamente, no tocante a gostos cada um tem os seus, quantos mais vegetarianos existirem maiores as possibilidades de os carnívoros satisfazerem as suas preferências animais.

Neste texto, nem de longe, nem de perto, enuncio as principais, quanto mais a maioria das receitas culinárias da Galiza, apenas dou conta da última incursão a território galego.

Porque o mediotejo.net procura incentivar a leitura junto dos seus leitores e porque procuro não perder o ensejo de recordar livros, sugiro a leitura de Mazurca para dois Mortos, da autoria do galego Camilo José Cela, há anos galardoado com o Prémio Nobel. O referido livro é formidável documento para se perceber a Galiza e o seu povo.

 

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