“Colher e Garfo”, por Armando Fernandes

Foto: DR

O homem aprendeu a dominar o fogo, aprendeu a cozinhar, é o único animal capaz de cozinhar, pouco a pouco, milénio após milénio, concebeu artefactos e utensílios de modo a apurar e facilitar a transformação das matérias-primas em alimentos capazes de proporcionarem alento e satisfação a quem os degusta. Por assim ser, e é, longa, larga, ora risonha, ora fastidiosa, muitas vezes cruel a história da civilização material no que tange às artes culinárias.

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A colher é um utensílio prioritário no acto de comer, após o cru, o fermentado e o podre, chega o período do cozido, o líquido apetitoso ou não, era indispensável na nutrição humana, por isso mesmo, o homem concebeu colheres utilizando os materiais à sua volta capazes de receberem os caldos, pensemos nós ora chamados conchos, na concavidades rochosas, nas tripas de vários animais, nas canas e tudo quanto pudesse servir para o efeito.

No século XVI a maioria da população comia os alimentos utilizando toscas colheres de madeira, espetos e facas. Quanto ao garfo a sua chegada às mesas dos possidentes faz-se via Itália. As repúblicas italianas comerciavam, logo as suas frotas aportavam a povos distantes e de lá trouxeram toda a casta de objectos e artefactos destinados a melhorarem o viver dos europeus.

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A propósito de colheres o escritor Alexandre Herculano refere que um príncipe francês dado a pregar partidas convidou o seu médico a almoçar com ele e os amigos. Para o embaraçar escondeu-lhe a colher, quando chegou a sopa disse para o médico: não come a sopa? O facultativo não se atrapalhou, pegou no garfo e do pão fez uma pequena concha, nela espetou o garfo e comeu a sopa. Após a demonstração do engenho vira-se para o anfitrião e amigos: agora cada qual come a sua colher. Ante a surpresa da proposta comeu a concha de pão.

Ora, história semelhante ocorreu com um menino da Palhavã, entenda-se um bastardo de Dom João V, a quinta da Palhavã ficava onde hoje é a Fundação Gulbenkian. O rapazote perdeu-se no decurso de um passeio na serra de Sintra, o alarme soou, um grupo de camponeses encontrou-o. Enquanto esperavam pela chegada de quem o fosse buscar e porque precisavam de comer fizeram uma sopa e, para o príncipe forçosamente convidado fizeram-lhe uma colher de pão, sendo as dos demais de madeira. Comida a sopa, já salvo e no meio dos guardas idos da corte, comeu a sua colher e instou os seus salvadores a fazerem o mesmo. Coincidências, só que o bastardo revelou crueldade e ser e mal agradecido.

Em 1610 um viajante inglês apareceu em Londres com dois pauzinhos compridos e com eles apanhava e comia os alimentos sólidos cortados em bocadinhos provocando risos e depreciações por usar aqueles inúteis instrumentos. Inúteis? Os chineses não entenderiam a chacota, muitos povos partiriam os pauzinhos e continuariam (continuam) a comer com os dedos.

Possuo vários livros referentes a colheres, facas e garfos, os materiais empregues vão desde a platina e pedras preciosas à casca e folhas de árvores. A Comunidade Europeia declarou guerra às colheres de madeira, os burocratas de Bruxelas desconheciam o anexim português: «quem não sabe fazer mais nada, faz colheres».

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