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“Cidra”, por Armando Fernandes

Uma das minhas lamentações quase diárias é o facto de a Escola não saber tirar partido das matérias-primas e dos produtos alimentares para ensinar e formar os seus alunos no tocante a todas as matérias. No meio de milhões de exemplos, na presente crónica dedico atenção à refrescante bebida – cidra – que está a consolidar cota de mercado no seio das camadas mais jovens.

Bem sei, tudo quanto escrevo relativamente ao papel da Escola na formação dos educandos obriga a os educadores a estudarem para lá das vulgatas, obriga a reflexão, obriga a versatilidade estrutural na abordagem dos programas e, adeus minhas encomendas, a pressa do tempo e da farândola deita por terra a minha pretensão, aos mestres da epistemologia da diversidade sucederam os professores compartimentados, burocratas e encostados a um RDM eduquês conformista e, por isso mesmo, nivelador por baixo tão do agrado do Ministro Brandão.

A maçã é um fruto tratado na Mitologia, as maçãs de Hespérides o atestam, a criação do mundo de sangue, suor e lágrimas deriva de trincadelas numa maçã, a víbora viperina convenceu a ambiciosa Eva, esta «endrominou» o crédulo Adão, o pobre homem ganhou um caroço (a imitar o da maçã), que por seu turno transmitiu a todos os humanos masculinos.

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Os poetas concederam e concedem enorme atenção às maçãs vindas de África e da Ásia Menor, os pintores e os escultores secundam-nos e os filósofos e homens criadores de ciência afinam pelo mesmo diapasão. Há uns quarenta anos, nas Astúrias, bebi cidra copiosamente, era Verão, só não a consumia nas refeições de faca e garfo, num bar de Oviedo em perfeito portunhol gabei as qualidades da cidra asturiana. O homem do bar mirou-me, volteou a cabeça em sinal de pouco apreço pela minha opinião e referiu as virtudes da cidra da Normandia, sem esquecer a aguardente de maçã. A resposta obrigou-me a estudar/beber cidra de outras paragens nunca no conceito de medicamento, assim o preconiza Maomé no Corão, mas como um célebre homem de letras disse relativamente ao vinho: se o vinho é vendido nas farmácias não é vinho, é remédio. Também a cidra foi vendida nas boticas medievais, os documentos capitulares de Carlos Magno a referem nesta qualidade.

Na região de Abrantes cultivavam-se formosas e suculentas maçãs, a predominância das videiras deve ter obstado à fermentação das maçãs e das peras visando a obtenção da cidra.

Por razões de orientação dos facultativos, primacialmente bebo vinho tinto, no entanto, de vez em quando, alegro a língua e o palato recorrendo a esta bebida milenar cuja história nos leva à evolução humana em todos os capítulos: simbólicos, religiosos, sexuais, excesso, moderação, guerreiros, iconográficos e, por aí fora até às cidras celtas, das sibilas e pitonisas de oráculos de cultos ocultos.

O meu filho João Francisco, para desgosto meu, não gosta de vinho, daí gargalhar quando aludo a um conceituado filósofo capaz de misturar, misturou, vinho Barca Velha a Seven Up, porém, compensa a ofensa a Baco bebendo cidra de múltiplas proveniências desde que tenha qualidade. Ao que sei não adquire nas farmácias!

PS. Não esqueçam o provérbio inglês: se comeres uma maçã todos os dias, não vais ao doutor!

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Armando Fernandes
Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris. Escreve no mediotejo.net aos domingos

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