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Domingo, Julho 25, 2021

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“Ciclos longos, ciclos curtos, obsolescência e humanidade”, por Nelson de Carvalho

Há coisas, situações, circunstâncias, pessoas que nos despertam sentimentos, emoções, pensamentos diversos, plurais, às vezes contraditórios ou incompatíveis.

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Podemos ser despertos e estimulados a desenvolver, aprofundar, estruturar sentimentos que nos ligam – ou desligam – a pessoas, grupos, clubes, partidos e a viver com amor e paixão mas também com revolta, raiva e ódio.

Já nos demos conta que vivemos hoje numa sociedade onde todas essas coisas são – e parece estarem a tornar-se – cada vez mais fluidas e voláteis. Liquidas, disse já um sociólogo.

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Tudo parece ter ciclos de vida cada vez mais curtos, muitos dos bens hoje queremos a achamos essenciais são mesmo programados para a obsolescência cada vez mais rápida e para serem substituídos por outros, “mais evoluídos” , em ciclos de vida e de morte já anunciada.

Esta lógica da produção e do hiper-consumo de bens materias faz já o seu caminho para o domínio das emoções e dos sentimentos.

Entrámos também já na era das emoções e sentimentos com morte anunciada e assumidamente programados para ciclos curtos e  tendencialmente cada vez mais curtos. Vivemos o império do fugaz, do quase imediato,  do usa e deita fora generalizado.

O que queremos, sentimos, amamos entra nessa lógica da caducidade e as nossas relações também.

Há um tempo vi uma reportagem sobre a vida em Tóquio. Tóquio para mim é uma referência; acredito que o modo como a vida se vai tornando por lá se irá generalizando …

A reportagem assentava numa constatação: homens e mulheres não sabiam relacionar-se. Logo uma campanha pública, da cidade e do governo: ensinar como estabelecer e desenvolver relações …

E depois jovens e adultos de ambos os sexos a confessar coisas sobre o modo como viam, percebiam e viviam essas relações e confessada e assumidamente a opção pela solidão. Nós agora somos “herbívoros”, preferimos a tranquilidade. Raparigas? Hmmm, já viu o trabalho? Sexo? Mas já viu o trabalho que dá? Não. A felicidade está na solidão.

Em resumo de modo talvez bruto: as coisas e as emoções e os sentimentos e as relações vivem-se cada vez mais com o mesmo registo com que se usam e consomem objetos: usa e deita fora. As pessoas ao fim de algum tempo, cada vez menos, em ciclos cada vez mais curtos, querem livrar-se do smart-phone e ter o último a saír e esperam ansiosamente pela saída já anunciada desde a saída do último.

As pessoas já não suportam o que têm e querem ter o que está a caminho já anunciado.

As pessoas já não são capazes de suportar as pessoas e desfazem relações como quem muda de um gadget qualquer.

As pessoas estão a tornar-se objetos de consumo em ritmos de obsolescência cada vez mais curtos. Desumanização.

Acho que temos que começar a valorizar outras coisas: o que nos desperta e estimula para a humanidade.

Procurar coisas, situações, circunstâncias, pessoas que nos despertam, estimulam  e ensinam de novo a humanidade. A sermos humanos. A tornar-mo-nos no que sempre fomos: pessoas humanas.

 

Ex-presidente da Câmara Municipal de Abrantes e ex-presidente da Assembleia Municipal de Abrantes, é o atual presidente da direção do Centro de Recuperação e Integração de Abrantes (CRIA).
Escreve no mediotejo.net às sextas-feiras

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