“Cheguei aos 40!”, por Berta Silva Lopes

Foto: Nikola Jovanovic / Unsplash

Anteontem, tinha eu 20 anos, pensava que as pessoas de 40 eram velhíssimas, cheias de cabelos brancos e artroses, queixas e rabugices e afinal aqui estou eu, grata e feliz, a celebrar outros tantos, hoje já sem as ideias tontas do passado, só as incertezas do futuro. E no entanto, ainda há dias me meti a plantar medronheiros.

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Se tudo correr bem, daqui a cinco anos celebrarei os 45 com um copo de licor de medronho na mão, projeto que chegou de mansinho sem aviso prévio nem prazo de validade, e que haverá de assinalar, de certa forma, a chegada aos 40 e a certeza de que coisas boas estão por vir.

O meu irmão, que plantou boa parte deles (mas não gosta de aparecer nestas linhas), diz que o mais difícil não é fazer a plantação, mas sim fazê-la crescer. Talvez seja mesmo assim ou talvez ele tenha apenas pouca fé na minha dedicação à terra ou nas minhas expetativas para quando tiver o tempo por minha conta. Pouco importa. 

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Se lá chegar, pelo menos à primeira colheita, conto brindar sim senhor com o famoso licor que, como devem saber, além de ser delicioso ainda por cima provoca uma embriaguez interessante (aos quarenta já se podem escrever estas coisas, certo?), e oxalá ele possa partilhar esse momento comigo, mais o meu pai, este último mestre na arte de desbravar a terra, e dúvidas e medos e preguiça. 

Brindaremos à sabedoria de quem sabe que ninguém sabe mais da vida do que aqueles que dão vida à terra e aos pequenos prazeres das coisas simples, ao que já foi e ao que aí vem e a este enorme privilégio de poder aprender com a natureza que, qualquer que seja a idade, é sempre possível tocar a eternidade.

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Porque amanhã, se eu já cá não estiver, os medronheiros continuarão a crescer no Cabeço do Moinho, a natureza continuará a cumprir-se a cada estação e alguém lerá as páginas que acumulo hoje a pensar nos anos em que terei passado já dos sessenta e me sentarei à sombra de uma árvore com um livro no colo. 

Os últimos que trouxe para casa, num saltinho rápido à livraria (em que prometi a mim mesma ir apenas espreitar os saldos de inverno), fizeram-me compreender que todas as histórias têm promessas indizíveis e metáforas que nem sempre compreendemos à primeira.

Comprei A Cova, de Cynan Jones, O Homem que Plantava Árvores, de Jean Giono e Uma Vida Inteira, de Robert Seethaler, este último o único que já comecei a ler. É um livro tocante e muito triste, mas incrivelmente bonito. 

Em todos eles adivinho vidas simples, sem disfarces, autênticas. Em todos eles descortino humildade, trabalho e resiliência, o adubo essencial de todos os sonhos, afinal. Está tudo nos livros e na natureza. 

Hoje faço anos e até agora nenhuma epifania, a não ser, talvez, uma certa compreensão da grande provocação dos 40: o presente, e o presente é saber conjugar todos os verbos do mundo no pretérito perfeito e no futuro, é aceitar a coexistência de histórias antigas e planos aos montes, basta aprender a desbastar, a fazer podas e enxertias. Vamos a isso. 

Por hoje, basta-me a alegria de celebrar mais um aniversário, porventura o mais profético de todos, rodeada dos meus: pessoas, livros e prazeres. Amanhã começo a trabalhar no meu pequeno pomar. Vou plantar figueiras, ameixeiras, cerejeiras e limoeiros, toma nota, maninho! 

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