Chamusca | Concelho em festa e de “contas equilibradas” no centro do Ribatejo – Paulo Queimado

Cerca de meio ano após o início do seu segundo mandato e a poucos horas de mais uma Semana da Ascensão, o Presidente da Câmara Municipal da Chamusca, Paulo Queimado (PS), concedeu uma entrevista ao jornal digital mediotejo.net

Aos 43 anos, o autarca fala um pouco sobre o seu percurso político e a sua “extraordinária” equipa na Câmara, em que o PS conquistou a maioria nas últimas eleições autárquicas.

É com orgulho que Paulo Queimado revela o sucesso da gestão financeira da Autarquia “como se fosse uma empresa” ou não viessem todos os eleitos da maioria do setor privado. O resultado foi conseguir equilibrar as contas em dois anos, quando era suposto tal ser feito em 12 anos, conforme destaca o edil.

O problema das acessibilidades num concelho que se assume como “O Coração do Ribatejo” é um assunto incontornável. Mas a necessidade de uma nova ponte sobre o rio Tejo e da ligação do IC3 não pode ser visto como um problema local, como sublinha Paulo Queimado para quem deve ser encarado como um projeto de âmbito regional ou mesmo nacional.

O potencial que representa o Eco-Parque do Relvão, as apostas na educação e na cultura, o pioneirismo dos projetos de ordenamento do território nas escolas e o sucesso das universidades seniores são também tema nesta entrevista.

A iniciar o segundo mandato como Presidente da Câmara, Paulo Queimado não descarta a hipótese de se candidatar a um terceiro mandato.

mediotejo.net – Como autarca, começou como vereador da oposição, depois foi eleito Presidente da Câmara sem maioria e agora, em 2017, foi reeleito mas com maioria. Ao longo deste percurso, que diferenças sentiu?

Paulo Queimado – Bem, ser da oposição é uma posição de conforto (risos), se calhar ainda mais confortável do que em maioria. Daquilo que foi a experiência do mandato anterior, em que fizemos um acordo com o candidato da CDU, podemos dizer que foi um mandato muito calmo. No essencial cumprimos aquilo que prometemos.

MT – Como conseguiram resolver o problema da elevada dívida?

PQ – A Câmara estava numa situação financeira muito débil, comprometida a 12 anos. Como fizemos? Fechando a torneira. Eu, a minha equipa e os técnicos dos vários setores olhámos para a Câmara em duas perspetivas diferentes: em primeiro aquilo que é a função do Município junto da população e, por outro lado, vindo todos do privado (só eu é que tinha experiência autárquica como Vereador na oposição) quando analisámos as contas a fundo e vimos aquilo que era o desempenho do município chegámos à conclusão que tínhamos de agarrar o Município como se fosse uma empresa. Isto sem nunca esquecer as competências da Câmara junto da população e dos investimentos a que nos tínhamos proposto.

Câmara Municipal da Chamusca (Foto: mediotejo.net)

MT – Mas estão condicionados pelo PAEL – Programa de Apoio à Economia Local…

PQ – Sim, estávamos com dois programas de recuperação financeira. Tínhamos um PREDE de 2ªfase  (Programa de Regularização Extraordinária de Dívidas do Estado) e o PAEL que ainda está em pagamento neste momento. Vindos todos do privado agarrámos nas contas e na gestão do Município enquanto empresa na forma de gestão e conseguimos fazer uma recuperação financeira em dois anos aquilo que estava previsto em 12. Cumprimos e até superámos o que estava previsto no plano de investimento

MT – Quais foram as áreas prioritárias?

Ao longo do mandato direcionámos o nosso trabalho para duas frentes: educação e cultura. No dia da tomada de posse no primeiro mandato disse logo que quem pensasse que iriamos ter um mandato de cimento, alcatrão e rotundas que se desenganasse. Não iriamos ter um mandato de grandes obras. A nossa prioridade foi para as pessoas.

No campo da educação apostámos na recuperação de todas as escolas e jardins de infância do concelho. Foi um grande plano de recuperação do parque escolar com destaque para a construção do novo Centro Escolar que deve estar concluído em setembro.

Com o agrupamento temos vindo a trabalhar na área da educação, a nível das atividades extracurriculares, por exemplo, nas AECs já vamos na versão 3.0. Neste momento temos um projeto interessantíssimo que o Ministério quis conhecer como projeto piloto a nível nacional.

Deixámos de ter os habituais módulos, um em cada dia (TIC, artes, etc) e decidimos fazer diferente. Em cada um dos períodos, há uma área de projeto em que os miúdos trabalham com um mentor: Pequenos Heróis, Educarte, e Vila Utopia. No primeiro os miúdos têm de desenvolver um projeto que tenha impacto na sociedade, na sua comunidade, no campo do voluntariado, desde a sua rua, à sua escola, à sua terra. O objetivo é que pensem como é que podem contribuir para melhorar a sua comunidade.

Temos o projeto da Educarte em que os miúdos, com os mentores, vão tentar perceber qual é a sua vocação e assim vamos descobrindo os talentos.

Temos o terceiro projeto que é a Vila Utopia. Os alunos têm de construir uma maquete em que fazem uma distribuição daquilo que é a sua rua, a sua terra e tentam perceber como se pode manter ali as casas, o que as casas precisam a nível de luz, água, saneamento, etc. Fazem a maquete daquilo que acham que é a vila perfeita , onde fica o hospital, onde fica o cemitério, onde fica o polidesportivo. No fundo, estamos a trabalhar com os miúdos o ordenamento do território.

Quanto à cultura, apesar de o nosso Concelho ser muito rico em artistas ligados à música (fadistas, guitarristas, etc) e ao teatro, procuramos trazer à Chamusca aquilo que se faz no teatro nos grandes centros tendo em conta que há uma grande faixa da população que tem dificuldade em deslocar-se a Lisboa ou ao Porto.

Vamos ainda avançar com o projeto do jovem autarca, com candidaturas individuais em que cada um apresenta o seu programa do que querem fazer junto da Câmara. Vão ter dispensa para vir às reuniões de Câmara e nas reuniões vai haver uma eleição para se saber qual o mais votado. O mais votado vai fazer parte da Câmara e pretende-se que colabore connosco.

Chamusca (Foto: mediotejo.net)

“Temos tudo o que caracteriza o Ribatejo”

MT – Como chamusquense e agora como Presidente da Câmara qual o seu diagnóstico ao Concelho, o que tem de melhor e de pior?

PQ – Quando me candidatei foi exatamente porque considerava que havia aqui um potencial enorme no Concelho que não estava a ser minimamente explorado, aliás a marca “Chamusca o coração do Ribatejo” surgiu muito ao percebemos que as pessoas não se conseguiam identificar com uma coisa específica do Concelho e trabalhámos muito a marca para que as pessoas se identificassem com ela e a pudessem trabalhar.

Começámos a ver, aqui ao lado, Golegã capital do cavalo, temos capitais do melão, da sopa da pedra e do vinho e dos frutos secos. Nós temos cavalos, temos montado de sobro e cortiça, temos uma lezíria enorme, vamos para a Charneca e temos tudo, também temos fado, o Tejo aqui à porta, enfim temos tudo o que caracteriza o Ribatejo, estamos no coração do Ribatejo e por isso nós aqui temos tudo.

Chamusca é o centro do Ribatejo. Temos desde o Arripiado que é uma aldeia ribeirinha, até à Parreira onde temos o montado de sobro e aquela área florestal toda, passando pela Carregueira, pelos laranjais, por Vale de Cavalos, por Ulme com a sua reserva enorme de água, pelos arrozais, enfim, nós aqui temos tudo o que o Ribatejo.

Nas escolas também lançámos o tema agregador “todos juntos somos o coração do Ribatejo” que estendemos às universidades e academias seniores. Trabalhámos este tema e apareceram projetos em que cada uma das freguesias mostrou o que de melhor tinha e construímos aqui um coração. Destaco o projeto de um jardim de infância, o da Maria Chamusca, ligada às fabricas de costura e à tradição das bonecas de pano. Construíram só a estrutura da boneca e, de casa em casa, cada família ajudou a completar a boneca.

MT – Onde funcionam essas universidades e academias seniores?

PQ – Somos o Concelho que deve ter mais universidades e academias séniores do país. Temos a da Chamusca, Pinheiro Grande, Carregueira, Parreira, Chouto e começou há cinco semanas a de Vale de Cavalos, só falta arrancar a de Ulme. Tudo começou com um desafio que eu tinha lançado aos Presidentes de Junta em que a ideia era fazer uma Universidade Sénior concelhia mas isto ganhou uma dimensão tal… Prevíamos 25 alunos no início, arrancámos com 30 inscrições, duas semanas depois tínhamos 80. Atualmente temos entre os 280 e os 300 alunos.

Ponte da Chamusca (Foto: mediotejo.net)

Ligação do IC3 “é essencial”

MT – Quando se chega à Chamusca, o primeiro aspeto que salta à vista é o constrangimento das acessibilidades. É um problema que o atormenta?

É um tema de que se anda a falar há 30 ou 40 anos. Como Presidente do Eco-Parque do Relvão o que fizemos foi um estudo de tráfego para saber qual é que era a confluência de trânsito não só na ponte mas também nos vários pontos do Concelho, origem e destino das viaturas. No PETI – Plano Estratégico dos Transportes e Infraestruturas, associa-se a necessidade de uma nova ponte ao Eco-Parque do Relvão, estando em 3° nível, como sendo um projeto local. Na realidade, a ligação da A13 e a A23 e para Coimbra é um projeto regional senão mesmo nacional.

Esta ligação, este eixo central Coimbra – A13 – Almeirim e depois faz a ligação com Évora ou à margem Sul é essencial. A quantidade de pesados que passam aqui todos os dias… eu falo com conhecimento de causa porque moro junto à EN118, sei perfeitamente quais os impactos que tem e, por outro lado, a questão dotipo de materiais que é aqui transportado, os riscos a que estamos sujeitos todos os dias.

O estudo de tráfego veio provar que o Eco-Parque tem, de facto, algum impacto no tráfego de pesados. Só na ponte da Chamusca, que é aquele ponto de confluência mais complicado e que tem constrangimentos todos os dias, passam 10 mil viaturas e mil camiões por dia. A empresa que fez o estudo de tráfego veio fazer uma recontagem porque a primeira apanhou um feriado, um sábado e um domingo e o segundo estudo ainda deu números mais elevados. Com a questão das portagens, o Terminal Intermodal dos Riachos e a ligação ao Sul, conseguimos perceber que o Eco-Parque mesmo assim é a infra-estrutura que menos absorve trânsito pesado. Dos mil camiões que passam na ponte, entram no Eco-Parque à volta de 400 por dia, o que é expressivo.

MT – Qual é o objetivo neste momento?

PQ – Enviámos um documento a todos os municípios e entidades da região, deputados, Ministério das Infraestruturas e Planeamento, Ministério do Ambiente, toda a gente tem conhecimento nos vários fóruns sobre a questão do fecho do IC3, que não é um projeto da Chamusca nem do Eco-Parque. O IC3 passa a 13 quilómetros do Eco-Parque. Temos de olhar para isto como um projeto de desenvolvimento regional para o Ribatejo, para a Lezíria, para o Médio Tejo, uma ligação entre o Centro e o Sul.

MT – Então o que se pretende?

PQ – Queremos mudar a prioridade desta ligação de local para uma necessidade regional ou nacional. Aliás muitas empresas têm estudos de impacte ambiental condicionado à construção de novas acessibilidades prevendo a construção do IC3 aqui. Estamos disponíveis a fazer o chamado “last mile” entre o nó da nova ponte da Chamusca e o Eco-Parque. Já temos o traçado definido, identificação dos proprietários e previsão de custos.

Aliás, o Primeiro-Ministro veio aqui ao Entroncamento anunciar a ligação do parque Intermodal à A23. Tive o prazer de falar pessoalmente com o sr. Primeiro-Ministro e justifiquei a minha ausência porque a Chamusca não foi considerada. Disse-lhe: “peço desculpa mas não vou fazer número para o Entroncamento quando precisamos aqui de um acesso como pão para a boca”.

Cerca de 10 mil viaturas por dia passam por aqui (Foto: mediotejo.net)

MT – Tem alguma esperança de que a obra seja feita em breve?

PQ – Tenho feito contactos com os vários grupos parlamentares que já apresentaram um projeto de resolução conjunto para construção do IC3 e de uma nova ponte. Temos consciência de que não há dinheiro até que haja aí uma catástrofe qualquer. Sabemos que o IP3 está na ordem do dia por causa de meia dúzia de acidentes que lá aconteceram e eu espero que o projeto do IC3 não fique em cima da mesa pelas piores razões. Já houve vários acidentes felizmente dentro de instalações fabris e alguns na via pública. As nossas estradas municipais estão a ficar todas destruídas.

MT – Pelas estatísticas do IEFP, o desemprego não parece ser um problema grave neste concelho…

PQ – Chamusca é um dos concelhos da região com menos desemprego. Temos o Eco-Parque que garante cerca de 500 postos de trabalho diretos, o que é significativo.

MT – Mesmo em termos de população, o concelho não tem perdido tantos habitantes como outros concelhos aqui à volta?

PQ – Sim, temos nos últimos 30 anos, segundo os Censos, um decréscimo em média de 100 habitantes por ano mas penso que temos vindo a inverter um pouco a situação.

Terceiro mandato em perspetiva

MT – Pensa já no terceiro mandato ou ainda é cedo?

PQ – Ainda é cedo, esta atividade é de grande desgaste. É evidente que no início do mandato apresentámos o plano estratégico e temos aqui uma série de projetos, uma série de objetivos que queremos cumprir.

Tenho 43 anos e sou o mais velho desta equipa extraordinária que tem um grande caudal criativo. Procuro sempre a participação das oposições e da população. Cada vez mais a transparência e a participação é fundamental. Nós estamos aqui em representação da população. Gosto muito de ouvir as opiniões de toda a gente e o que eu mais gosto é que me critiquem, o que estou a fazer bem, o que estou a fazer mal.

Apreendemos também muito com os anteriores autarcas, gente com muita experiência que dão o seu contributo para o desenvolvimento do Concelho.

Paulo Queimado, Presidente da Câmara Municipal da Chamusca (Foto: mediotejo.net)

MT – Como idealiza o concelho daqui a 10 anos?

PQ – Daqui a 10 anos podemos ser aqui um grande polo de atração em dois sentidos distintos. Primeiro, o turismo das experiências por exemplo ligado aos toiros. Em segundo lugar, penso que o Eco-Parque ainda tem muito para crescer e há muitas empresas interessadas em instalar-se. As mais de 20 empresas estão a estudar, dentro das sinergias, as possíveis simbioses por exemplo em que medida é que os resíduos de uma podem ser matéria prima de outra. As pessoas já perceberam que há ali um potencial enorme por explorar.

MT – Há, portanto, boas perspetivas…

PQ – Sim, mas principalmente o que mais gostava era que conseguíssemos mudar algumas mentalidades. Também por isso é que começámos a trabalhar projetos com as crianças, dar-lhes ferramentas para pensarem de outra maneira, para que essas crianças quando forem adultas pensarem o que podem fazer com os seus estudos para melhorar o Concelho, em que medida podem contribuir para o desenvolvimento do Concelho.

 

José Gaio
Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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