- Publicidade -

Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
- Publicidade -

“Chamusca 2022 – 400 Anos de Misericórdia”, por António Matias Coelho

Considerando a data do seu primeiro Compromisso, adotado em 1622, a Santa Casa da Misericórdia da Vila da Chamusca completa, neste 2022 que agora começa, 400 anos de vida. É, depois da Câmara Municipal, a mais antiga instituição do concelho e, inquestionavelmente, das que mais têm batalhado, neste tempo longo de quatro séculos, para minimizar as carências de quem tem pouco, os padecimentos de quem sofre e os problemas de quem é dependente. A História da Misericórdia da Chamusca, tão rica quanto extensa, confunde-se, em grande parte, com a História da própria comunidade que serve, bem merecendo a Santa Casa os nossos parabéns pela respeitável idade e os votos de continuação de bom trabalho para bem dos tantos que dela precisam.

- Publicidade -

Quando foi criada, na primeira metade do século XVII, Portugal vivia em União Ibérica, em grande parte dependente do poder de Madrid e das decisões dos grandes de Espanha. O mesmo acontecia, em particular, com a vila e o concelho da Chamusca (tal como o concelho da vizinha vila de Ulme, sua irmã gémea), pertenças dos Silvas, donatários das suas terras e duques de Pastrana, há muito estabelecidos em Espanha e bastante influentes na corte dos Filipes. O país era ainda uma sociedade de ordens – clero, nobreza e povo – muito hierarquizada e desigual, em que poucos possuíam quase tudo e a esmagadora maioria não tinha a bem dizer nada. Sem qualquer tipo de apoio do Estado (a Segurança Social estava a séculos de distância), os mais pobres, os doentes, os presos e os mais frágeis, como as crianças – que, com frequência, eram expostas à porta das igrejas ou de particulares e mais tarde na roda –, os deficientes, os velhos ou as viúvas ficavam abandonados à sua sorte e à incerteza da caridade pública.

Criadas a partir dos finais do século XV (a primeira foi a da cidade de Lisboa, em 1498, por iniciativa da rainha D. Leonor – a mesma que instituiu o hospital termal das Caldas, das Caldas da Rainha), as Misericórdias guiavam-se pelos valores cristãos, materializados na prática da caridade para com o próximo, mas também, no que respeita aos irmãos que as serviam, pela crença de que quem dá aos pobres empresta a Deus, assim tornando mais provável a obtenção de um lugar no Céu quando chegasse a sua hora.

- Publicidade -

O propósito das Santas Casas – e, portanto, o da Chamusca também – nessas épocas mais recuadas e pelo tempo fora até bem recentemente, era, de uma maneira geral, a realização das obras de misericórdia, em especial das sete chamadas corporais: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, assistir os enfermos, visitar os presos e enterrar os mortos. E nesse conjunto de importantes tarefas concentrou as suas atenções, os seus esforços e a sua generosidade ao longo dos séculos.

Igreja da Misericórdia. Créditos: CM Chamusca

Assumindo-se como Casa pobre, que pedia para dar aos pobres, a Misericórdia tinha mesmo um homem – o andador – a quem pagava um salário para andar de porta em porta a recolher esmolas, não tanto em dinheiro mas sobretudo ofertas de géneros, assim engrossando as dádivas que eram depositadas na caixa das esmolas na missa de domingo ou o que conseguiam os próprios irmãos, pedindo também eles, sobretudo nas eiras e nos celeiros na época das colheitas. Era com esses recursos que a Santa Casa acudia às necessidades mais imediatas e mais prementes dos pobres, dos presos, dos doentes e dos mais desprotegidos que procurava ajudar.

- Publicidade -

Numa época de profundas convicções religiosas, muitas pessoas de posses, tomadas pelo desejo ardente de salvarem a sua alma e não estando certas de o conseguirem pelo merecimento da sua vida na Terra, faziam, ao ver a morte por perto, legados à Misericórdia, deixando-lhe em testamento parte significativa, quando não a totalidade, da sua fortuna, em terras, casas, joias, dinheiro, rendas, animais, escravos e outros bens. Assim, ao longo dos séculos XVII e XVIII, a Misericórdia da Chamusca acumulou uma quantidade grande de recursos que geriu e procurou fazer crescer com o objetivo de dispor de meios financeiros para acudir às necessidades, sempre crescentes, dos mais pobres e dos mais fracos. Durante esse período, concedeu mesmo empréstimos a juros a particulares, especialmente a médios e grandes agricultores, como se fosse um banco ou uma caixa agrícola que ainda estavam longe de existir. Desse modo, para além de rentabilizar os seus proventos para melhor desempenhar a sua missão, a Santa Casa contribuía também para o próprio desenvolvimento da economia local e, em especial, da agricultura, a atividade predominante no concelho e da qual quase toda a gente dependia.

Um dos maiores e mais significativos legados feitos à Santa Casa da Chamusca em toda a sua História foi o que lhe fez um rico proprietário da terra, Francisco Sutil, que levou à criação, no belíssimo solar onde vivia, do Hospital da Misericórdia, instalado em 1715. Serviu a vila, o concelho e muita gente de fora durante todo este tempo e ainda hoje nessas instalações funcionam os serviços do Centro de Saúde.

O liberalismo, implantado em Portugal a seguir à revolução de 1820, obrigando as Misericórdias a entregar as suas propriedades fundiárias ao Estado em troca de títulos de dívida pública que de pouco lhes valiam, veio alterar por completo a situação: as Santas Casas ficaram sem as suas terras e sem o rendimento delas, disso beneficiando as grandes famílias burguesas que as adquiriram, como aos bens nacionais em geral, a preços muito vantajosos, acrescentando herdades, acumulando fortunas e reforçando, em consequência, o seu poder e a sua importância social.

Instituição de inspiração cristã, a Misericórdia teve sempre, também, preocupações de natureza religiosa e de apoio, não apenas nas horas difíceis da vida, mas também no momento da morte. Durante séculos encarregou-se de fazer à sua custa os funerais dos pobres – que é como quem diz de quase toda a gente –, dando-lhes enterro digno no adro da igreja e, a partir do século XIX, nos cemitérios civis. E organizou inúmeras procissões, das quais se destaca, na semana santa, a dos Fogaréus, a mais tradicional e mais marcante manifestação religiosa da Chamusca. Foi chamada procissão de Quinta-feira de Endoenças ou dos Penitentes e, como esse nome deixa claro, realizava-se na quinta-feira santa. Na sequência do concílio Vaticano II, nos anos ’60 do século passado, mudou para a sexta-feira de Paixão e é nesse dia que continua agora a trazer às ruas da vila, enquadrada pela luz dos fogaréus, a imagem do Senhor Jesus da Misericórdia, muito querida do povo e à qual se atribuem múltiplos milagres.

Procissão dos Fogaréus. Foto: Município da Chamusca

A Santa Casa da Chamusca é detentora de um vasto e valioso património religioso, com destaque para a belíssima e rica igreja da Misericórdia, a encantadora ermida de Nossa Senhora do Pranto, no alto da vila, que alberga um impressionante conjunto de painéis de azulejo barrocos, do melhor que há em Portugal, as capelas de São Pedro – na rua Direita, a mais movimentada da vila – e de Nossa Senhora das Dores, e é ainda proprietária do edifício São Francisco, antiga igreja da Ordem Terceira onde durante muito tempo funcionou o Asilo Chamusquense que acolheu centenas de idosos.

Na atualidade, os mais velhos dispõem de modernas instalações no Lar da Terceira Idade – agora designado Estrutura Residencial para Idosos –, contruído nos anos ’80 do século passado, pouco depois da Creche e Jardim de Infância «O Coelhinho», ali perto, que vem servindo várias gerações de crianças. Na mesma zona ficam os blocos habitacionais, propriedade da Misericórdia, de arrendamento social. A Santa Casa é ainda proprietária do Cineteatro e da Praça de Toiros da Chamusca, bem como de uma extensa herdade na freguesia de Ulme (o Casal do Crespo), que lhe foi deixada pelo benemérito eng.º Pimentel Rolim, de onde tira uma importante fatia do seu rendimento. Todavia, como acontece com as suas congéneres, é na atualidade uma IPSS – Instituição Particular de Solidariedade Social que, recebendo apoios da Segurança Social, substitui o Estado na prestação de serviços essenciais à comunidade, como é o caso do apoio domiciliário, dispondo ainda de uma moderna Unidade de Cuidados Continuados, criada no início deste século.

Por tudo isto e por tanto mais que não cabe no reduzido espaço de uma crónica de jornal, é a Santa Casa da Misericórdia da Chamusca merecedora do nosso apreço e, neste ano do seu 4.º centenário, dos nossos parabéns e dos nossos votos de longa vida a bem de quem precisa dos seus cuidados, da sua dedicação e do seu amparo.

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

- Publicidade -
- Publicidade -

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns A. Matias por mais este belo artigo. Ainda hoje a S . C. Da Misericórdia desempenha um papel social muito importante no concelho, para além de ser uma empresa eu criou para os seus serviços inúmeros postos de trabalho- um bem num concelho rural com reduzido números de empresas.
    José Braz

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome