Chamam-na de “Tia Alice”

Alice Marto, 80 anos, será porventura uma das figuras mais conhecidas de Fátima. O seu nome espalhou-se além fronteiras, conquistou o Brasil, e traz hoje figuras de renome e altos cargos dirigentes a sua casa. Humilde e modesta, perfeccionista e de bom trato, guarda na memória uma vida devotada à família e 30 anos de dedicação a um negócio inesperado. Dizem-lhe que cozinha com o coração. Ela comenta que quem cozinhava bem eram a mãe e a avó. “Tia Alice” está a perpetuar-lhes a herança.

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Tia alice
Alice Marto, 80 anos, será porventura uma das figuras mais conhecidas de Fátima

Mãos calejadas, estatura baixa, postura carregada pela já longa vida, vestida de branco e de touca na cabeça como manda a indumentária das cozinhas. Em tempos, relembra, amassava à força dos braços duas fornadas de pão por dia. Hoje tem o apoio das máquinas e pergunta-se de onde conseguia retirar tamanha resistência. De tanto a tratarem desse modo, começou a ser conhecida como Tia Alice. O nome passou para o restaurante, a sua antiga casa. Hoje é um dos negócios mais conhecidos e bem sucedidos na cidade hoteleira, sinónimo de boa comida e bom serviço. A comida é tradicional portuguesa e que ninguém espere produtos fora do vulgar! Os alimentos são naturais e cozinhados “à moda antiga”: sem químicos ou caldos pré-feitos, sem enlatados. Assim é a cozinha de Tia Alice.

Em tempo de Natal, o mediotejo.net foi conhecer a personagem que dá nome a uma casa que é frequentada por quase todos os governantes do país, além de uma lista extensa de nomes da arte, da moda, do desporto e da cultura em geral. Por ali já passaram Valentino, Dolce & Gabana, José Saramago, Camacho Costa, Montserrat Caballé, o ex-presidente da República Mário Soares é visita frequente, entre muitos outros políticos. Joana, Fafá de Belém, atores e atrizes brasileiras vêm conhecer o restaurante por muitos indicado como referência em Fátima, no Brasil. No passa a palavra, o “Tia Alice” ganhou uma reputação de prestígio que surpreende a própria cozinheira. Vêm felicitá-la à cozinha, dão-lhe os parabéns pela comida caseira. Humilde, acha que podia fazer sempre melhor.

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Tia Alice e duas funcionárias do restaurante tentam decifrar o autor de um dos autógrafos deixados no Livro de Honra. O primeiro que receberam foi do Prémio Nobel, José Saramago

Sentamos-nos na zona de serviço, ao lado da copa, depois de uma atarefada hora de almoço. Passam das 15h30 mas ainda há clientes na sala, promessa antecipada do muito trabalho que se avizinha, para a semana das Festas. Sem saber por muito bem por onde começar a conversa, Tia Alice inicia pela história da casa que deu origem ao restaurante.

Era a vivenda dos pais de Alice Marto, uma família com algumas posses em Fátima (ou Fátima velha como por aqui se enuncia), parente direta dos pastorinhos da Cova da Iria. Tia Alice confessa que durante muitos anos desconheceu qual era exatamente a ligação familiar que existia, uma vez que conheceu bem o pai de Jacinta e Francisco Marto e não percebia como podiam ainda ser familiares. Apenas há alguns anos descobriu então que o seu bisavô era irmão do pai dos pastores, mas do qual distava cerca de 20 anos de diferença. Resolvido o mistério ficou assim o nome Marto esclarecido, uma vez que muitos dos Martos de Fátima são afilhados de familiares dos pastores e não parentes. Tia Alice comenta que mesmo em África, onde viveu 20 anos, muitos lhe perguntavam por essa ligação.

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O restaurante, mesmo ao lado do cemitério, próximo da junta de freguesia de Fátima, foi uma ideia dos filhos de Alice Marto, que no final dos anos 80 decidiram criar um negócio próprio. Os pais apoiaram, ainda que Tia Alice confesse que tinha os seus receios. “Não queria ouvir falar no restaurante, mas eles não me largavam”, relata, comentando que era um sobrinho que ia com frequência à sua sopa e lhe elogiava bastante a mão para a culinária. A ideia foi-se estruturando, uma das suas filhas foi quem mais a estimulou para o negócio. “Faça a comida como faz para nós”, terá dito então à mãe, que acabaria assim por se dedicar à vida da restauração.

Um grande amor em África

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A cozinheira raramente vai à sala: “Tenho vergonha”. Mas os clientes fazem questão de ir ter com ela à cozinha

A vida em Fátima tem sido muito diferente daquela que Alice Marto teve na Beira, em Moçambique. “A minha vida em África era muito boa”, recorda, lembrando as histórias dos seis filhos que teve, aquela que morreu e em Moçambique ficou enterrada, e do tempo dedicado a bordar e a fazer as roupas das crianças. O marido trabalhava nos comboios e fazia percursos até à Rodésia (Zimbabwe). “Voltámos há 15 anos, mas estava tudo diferente. Os comboios, as nossas casas”, refere. Quem a trouxe para Portugal foi o 25 de Abril, mas quem a levou para África foi uma história de amor, que conta com melancolia e um grande brilho nos olhos.

“Só gostei de um rapaz”, começa. O marido, recorda, era do Casal Novo (Atouguia, Ourém) e tinha mais oito anos com ela. Conheceram-se era ainda muito nova, na casa dos 13/14 anos, e lembra-se que todas as raparigas gostavam dele. Quando fez 15 anos, o enamorado entregou-lhe uma carta a pedir em namoro. “Fiquei tão feliz”, recorda ainda com imensa alegria, “os outros não me interessavam”. Mas o pai não aprovou o romance, tendo-a enviado para uma casa de freiras em Santarém. “O meu marido era pobre e o meu pai tinha posses”, explica, o que naquele tempo dificultava o enlace.

O apaixonado ainda foi atrás dela, tentou passar a autoridade das religiosas, escreveu cartas, mas já só se tornariam a encontrar em África. Com 22 anos casou finalmente, por procuração, com o marido, depois da Madre Superiora ter intercedido a favor do casal. Só passado um ano encontrou o já estão esposo na Beira, um amor com quem já não falava diretamente há sete anos.

É um história contada com ternura por Alice Marto e entusiasticamente pelo filho, António, que se junta à conversa. O risco foi grande, praticamente não se conheciam, constata. Mas o casal foi um apoio mútuo ao longo da vida, lamentando Tia Alice o seu desaparecimento.

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Nos corredores do “Tia Alice”, os clientes começaram a deixar os seus comentários sobre os quadros

Vinham com frequência a Portugal, tendo realizado uma dessas viagem em 1973. Com a revolução de 1974, por cá ficariam. “Viemos para cá e éramos retornados”, narra, passando por todas as peripécias que quem regressou dos territórios ultramarinos teve que enfrentar. Uma delas foi os dois contentores com pertences que mandaram vir de Moçambique e que nunca chegariam a Portugal. “O que tive pena foi das fotografias”, comenta.

Nos dez anos seguintes o marido de Alice ainda tentou vários trabalhos, mas a vida acabaria por se inclinar para a criação do restaurante na velha casa dos seus pais. Requalificada, aproveitando o que de típico e pitoresco possuía, é hoje um espaço de tradição e bom gosto, acolhedor, uma imagem do que foi e é Fátima e da gastronomia portuguesa.

“Era para ser uma coisa diferente, já por cá passaram pessoas que custa a acreditar que passaram”, confessa. “Comecei a fazer de boa vontade”, adaptando os seus conhecimentos de vida a novas receitas. Aos poucos introduziram-se outras ideias, construindo-se uma ementa que não é extensa, mas sempre bem confeccionada.

O segredo do sucesso

“O segredo é a simplicidade de cozinha da minha mãe”, adianta António Marto quando a pergunta sobre o sucesso é colocada. “A escola da minha mãe é a minha avó. É uma cozinha com muito forno de lenha”, sublinha. Tia Alice mantém-se discreta, lembrando a boa cozinha das mulheres que a antecederam e que terá sido daí que herdou a costela. “Não gosto de ir à sala”, comenta, “tenho vergonha”.

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Como tudo o resto no restaurante, também o pão é feito à mão, em forno de lenha, de forma tradicional

Mas os clientes não têm rodeios e vão eles à cozinha. Dizem-lhe que trabalha com amor. Refere que nem se sente bem a receber tantos elogios. Hoje já conta com a ajuda de um dos filhos, que com ela vai aprendendo os segredos do ofício. “Tenho pena de não ter aprendido a fazer outras coisas. Eu queria fazer melhor”.

Neste Natal, bacalhau não falta na cozinha de Tia Alice. Nem o azeite, a cebola, o alho, os caldos tradicionais feitos de ossos, o pão caseiro, o cheiro a boa cozinha portuguesa. Há também chanfana ou vitela assada no forno de lenha. Há gelado, feito artesanalmente na casa. Alice Marto não tem problemas de partilhar, começa a contar as receitas.

O mediotejo.net prefere não revelar. Apenas que ainda há quem preserve a pureza do que é, afinal, a gastronomia portuguesa. Será talvez esse o segredo de Tia Alice.

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